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on segunda-feira, 28 de novembro de 2016
Faz hoje dois anos desde que iniciei a terapia hormonal com testosterona. Há imensa coisa que poderia escrever sobre o assunto, e eventualmente irei escrever, mas não hoje, que já se faz tarde. Portanto, deixo aqui apenas algumas das perguntas mais frequentes que as pessoas me fazem em relação à terapia hormonal.


Quanto tempo é que demoraste para começar a tomar testosterona?
Pouco menos de um ano após ter iniciado as consultas para as avaliações psicológicas. A certa altura já tinha terminado as avaliações, mas tive de esperar mais de meio ano na fila de espera para a consulta de endocrinologia! Tivesse eu dinheiro para ir ao privado, teria começado uns meses mais cedo.


É possivel arranjar testosterona sem ir a essas consultas?
Sim, mas não o recomendo. É importante haver uma monitorização periódica do estado da nossa saúde de forma a evitar problemas que possam surgir. 

Como é que arranjo isso sem médicos, então?
Não sei. Sei que é possível porque já vi outras pessoas a faze-lo, mas eu sempre fiz tudo pelas "regras" e portanto não tenho informação sobre o assunto.

Só dá para tomar isso com injeções?
Não, há comprimidos (péssimos para o fígado) e gel (muito caro). Quando tiver dinheiro suficiente talvez mude para o gel porque sou um mariquinhas com medo de agulhas.

A testosterona não te deixa agressivo?
Não, continuo a mesma pessoa calma que era antes da terapia hormonal. Por vezes sinto-me mais impaciente, mas mesmo aí não reajo com agressividade. Este mito vem do fenómeno da "roid rage" que acontece com algumas pessoas (homens cis) que abusam de esteróides anabolizantes (entre os quais a testosterona) para ganhar músculo mais facilmente. No entanto, a dose que o pessoal trans toma é completamente diferente das doses que o pessoal dos ginásios faz nos seus ciclos.

Isso ajuda-te a crescer mais músculos?
Sim, ajuda um bocado, embora não seja esse o motivo pelo qual faço a terapia hormonal. E, adiantando-me à pergunta seguinte: não, não te arranjo disto para ganhares músculo no gym.

Cresceste em altura?
Não.

Nem ficaste com os pés ou as mãos maiores?
Nope.  Eu meço exatamente o mesmo e todos os sapatos e luvas ainda me servem. 

E a maçã de adão, cresceu?
Sim, essa sim, juntamente com as mudanças na voz. 

Há alguma mudança que não gostes?
Sim, o aumento do acne e o cheiro do suor.

Arrependes-te de alguma coisa em relação às hormonas?
Não.


Algumas notas e pensamentos que me foram passando pela cabeça ao longo dos últimos 2 anos:
  • tomar medicação injetável não é tão mau como estava à espera, mas mesmo assim não me consigo livrar da ansiedade imediatamente antes de a agulha me perfurar a pele;
  • tentar fazer conversa com a enfermeira quando tens uma agulha espetada no rabo não diminui o constrangimento da situação;
  • acne nos ombros e binders é uma combinação preparada pelo demónio;
  • assim como é também a combinação de acne na cara e pêlo facial;
  • epah, acne em geral. F*ck that;
  • os desodorizantes masculinos funcionam bem melhor que desodorizantes femininos;
  • durante o primeiro ano-e-tal, não, não andava rouco nem afónico, simplesmente ainda não tinha aprendido a usar direito as minhas cordas vocais;
  • ter a líbido aumentada nos primeiros meses não foi remotamente tão divertido como estava à espera; felizmente entretanto a coisa acalmou;
  • pela enésima vez: caros amigos gajos, não, vocês não vão ficar com mais barba nem com a voz mais grossa se tomarem a minha medicação; se acharem mesmo que têm algum problema hormonal, vão ao médico;
  • sim, posso vir a sofrer de calvice, tal como qualquer outro homem; não me lembrem disso, sff ;_;
  • fazer uma posologia ligeiramente diferente da maioria das outras pessoas não tem mal nenhum, as mudanças acontecem na mesma;
  • a testosterona não mudou a minha personalidade, mas sinto influencia a forma como reajo a emoções fortes (positivas ou negativas). As reações iniciais parecem ser mais intensas, mas também consigo voltar a uma "baseline emocional" com maior facilidade;
  • por vezes só dá para perceber que as mudanças estão a acontecer porque as outras pessoas (que já não nos vêm há algum tempo) as apontam;
  • ou então quando me ponho a olhar para fotografias; fotografar as mudanças foi das melhores ideias que já tive no contexto da transição!
on quarta-feira, 7 de setembro de 2016
Dizem que sou um homem. Digo que sou. Dizem que sim. Parece que sim.

Mas porquê?

Em tempos diziam que era uma mulher. Eu dizia que o era. Assim me diziam, e eu dizia que sim.
O que é que mudou?

O tempo mudou, passou. O tempo passava, e a puberdade eventualmente passou por mim. A minha mãe negociava comigo para comprar soutiens, e eu negociava com o meu corpo para que me deixasse esconder as curvas, o período. Tudo negociações fúteis. Eventualmente rendi-me à realidade que se forçava em mim. Diziam-me que devia ficar feliz, que tinha tudo no sítio, que estava a ficar uma mulher a sério. Eu dizia que sim. Não tinha outra escolha senão aceitar que sim. Portanto aceitava, sempre um bocado relutante. Um peito liso, pêlo facial, nada destas curvas, destas formas, desta sensação de ter comichão mas não ter mãos para me coçar. Muitas vezes sentia que estava a ser alvo de uma piada de mau gosto de uma qualquer entidade divina, deixar-me neste corpo, com uma saudade de ter esse outro tipo de corpo que nunca tinha tido como meu. Diziam-me que era um corpo de homem, algo fora do meu alcance. E eu não tinha coragem de dizer que não.

Não invejava os rapazes por serem rapazes. Nunca deixei de fazer nada (exceto quando as condicionantes sociais sexistas se tornavam impeditivas) por ser uma mulher. Muitas vezes encontrava resistência, mas tal só me deixava com mais orgulho daquilo que fazia, de desafiar a norma. Diziam que era uma maria rapaz incorrigível, e eu dizia que sim, com orgulho. Gostava da distância que esse título me dava do conceito de mulher, permitindo-me em simultâneo manter distância do conceito de homem. Continuavam a dizer que era uma mulher, continuavam a tratar-me como tal, mas dava-me algum conforto, nem que fosse apenas em momentos solitários e introspetivos, sentir que conseguia rebeliar-me levemente contra esse conceito que forçavam em cima de mim.

Por outro lado, sentia vergonha nos momentos em que fazia algo que seria interpretado como feminino, como coisa de mulher. Provavelmente por ser mais masculino habitualmente, as pessoas à minha volta gostavam muito de apontar com entusiasmo qualquer quebra dessa minha postura masculina. Não perdiam tempo em dizer que eu era uma mulher, afinal de contas, por muito maria rapaz que fosse. Tais momentos deixavam-me com uma sensação de vergonha, tristeza, angústia até, sem que eu entendesse porquê. A minha reação imediata era esconder-me, tapar o meu corpo, ir para algum sítio onde ninguém me pudesse ver. Nesses momentos as tais comichões intensificavam-se ao ponto de deixarem de ser comichões. Eram queimaduras, apertos no peito, era uma necessidade urgente de me livrar desta pele, destas formas. Hoje em dia chamar-lhe ia apenas disforia.

A certa altura tropecei no conceito de transsexualidade e, por momentos, tudo pareceu fazer sentido. Diziam que era uma mulher, mas na realidade era um homem. Fazia sentido. Fazia? A parte referente à disforia física encaixava bastante bem, mas o sentido parava aí. Muitos dos "pilares" daquilo que me mostravam que era a transsexualidade não se aplicavam a mim. Não me "sentia" homem. Não sabia sequer o que é que isso significava. Não me sentia homem e nunca me tinha sentido menino na infância, época onde, diz quem entende do assunto, a nossa identidade de género se forma e cimenta. Mas eu não me sentia homem, tal como não me sentia mulher. Entretanto fui introduzido aos conceitos de não binarismo de género, pessoas sem género, genderqueer's e afins. Isso já me fazia algum sentido, conseguia rever-me nesses conceitos. Aos poucos, fui descortinando e desconstruindo um monte de bichinhos que tinha na cabeça sobre género, sexo e sobre a transição. Cheguei à conclusão que precisava e beneficiaria imenso de uma transição física no sentido de obter uma anatomia mais próxima do masculino, e tenho andado nessas andanças há cerca de 3 anos. 

Hoje em dia já ninguém diz que sou uma mulher. A minha apresentação já não dá margem para ambiguidades. 



Dizem que sou um homem. Digo que sou. Dizem que sim, Parece que sim.

E eu digo que sim. Podia dizer que não, que era agénero, é o conceito onde sinto que encaixo melhor. Se sentisse que a minha identidade de género fosse uma parte mais relevante do meu ser, provavelmente adotaria esse rótulo. Mas na prática, não me é assim tão importante. Na prática, sou um homem e, como homem, sinto que tenho muito mais poder para modificar esse rótulo, re-definir o que é um homem, moldar esse conceito, desentoxica-lo e torna-lo mais confortável, tanto para mim como para quem mais se encontre cá.

Não sou um homem porque preencho estereótipos de masculinidade - preencho alguns, falho outros.
Não sou um homem porque sinto que sou - não sinto que seja coisa alguma.
Não sou um homem porque tenho o corpo masculino - ainda mantenho características físicas entendidas como exclusivamente femininas, e não tenho planos para as modificar num futuro próximo.

Sou um homem porque me dizem que sou, e sinto-me em paz com isso.
on quinta-feira, 3 de março de 2016
Sinto que se passou uma eternidade desde a última vez que escrevi por aqui. Foram só (quase) dois meses, mas foram tão intensos e preenchidos com trabalho que tenho andado com a sensação que se passou meio ano desde a última vez que tive tempo para relaxar e escrever um bocado. Foram os últimos 2 meses de trabalho para a minha dissertação de mestrado, para a qual ando a trabalhar a sério desde setembro do ano passado. Tem sido uma experiência interessante, não só obviamente pela parte académica, mas também pelo facto de ser a primeira vez em que estou inserido num contexto em que ninguém sabe que sou trans.

Até ter começado este trabalho podia dizer que toda a gente que me conhecia sabia que eu era trans. Familiares, colegas de curso, amigos de infância, amigos de outros círculos, não era segredo para ninguém. Quando cheguei ao local onde iria desenvolver o trabalho para a dissertação, tinha tudo o que é documento já mudado, era socialmente visto como um rapaz, não via qualquer motivo para anunciar que era trans a nenhum dos meus colegas de trabalho. Portanto, não o fiz. E é estranho. Estou tão habituado ao facto de ser trans ser algo banal que me senti alienado e censurado por mim próprio em várias situações. Na língua inglesa existe o termo "stealth" para designar a condição de se ser trans sem que ninguém saiba, como se estivéssemos a "voar debaixo do radar" de deteção das pessoas. No entanto, tenho vindo a descobrir que poucas pessoas possuem tal "radar".

Ocorreram duas situações em que tive um pequeno deslize e acabei por dizer coisas que, achava eu, me iriam "denunciar", ou pelo menos fazer as pessoas suspeitar. O primeiro foi ter comentado que tinha, em tempos, tido cabelo comprido. Agora dito desta forma não parece grande coisa, há montes de homens com cabelo comprido, mas na altura dei uma importância demasiadamente grande a este lapso. Uns tempos mais tarde estava cheio de pressa para sair, tinha de apanhar o autocarro a tempo de apanhar o centro de saúde aberto para poder tratar da injeção das hormonas. Espera, eu disse isto alto e toda a gente ouviu? Oops.

Foram dois pequenos momentos de pânico, até me aperceber que ninguém fez qualquer tipo de ligação entre o que eu disse e a possibilidade de eu ser trans. Desde aí tenho andado a testar as águas, a tentar descobrir quanta informação é que consigo revelar às pessoas até elas dizerem alguma coisa. O que tenho descoberto é precisamente o oposto daquilo que eu pensava que ia acontecer: por muito que eu conte, ninguém suspeita de nada. 

Por esta altura os meus colegas de trabalho já sabem de tudo o que eu fiz durante a minha transição, só não sabem que foi num contexto de transição. Sabem que no passado as pessoas me confundiam com uma rapariga, em grande parte devido ao cabelo comprido que tinha na altura. Sabem que ando a fazer uma terapia hormonal porque o meu corpo não produz testosterona suficiente. Sabem que já tive mamas e que fiz uma mastectomia para as retirar. Sabem que vou fazer uma revisão à mastectomia nos próximos dias. Mas não sabem que sou trans, nunca juntaram as peças.

O que me está a causar estranheza (de uma forma... positiva, suponho?) é a forma como as pessoas reagem a estes pedaços de informação descontextualizada que lhes vou dando. Eu já tinha (e tenho) no passado falado com pessoas cis sobre as cirurgias e procedimentos clínicos que faço ou planeio fazer, explicitando que são num contexto de transição e de transexualidade. Na maioria dos casos, as reações são de estranheza, como se tudo relacionado com a transição fosse alienígena e extraordinário. Na melhor das hipóteses dizem-me que acham tudo isto muito complicado e difícil e dizem ter uma admiração enorme por as pessoas trans terem a coragem de fazer tudo isto e que nunca se imaginariam a passar pelo mesmo; na pior das hipóteses dizem que é tudo muito estranho, confuso e horrível.

Quando omito a parte da transexualidade, as reações são completamente diferentes. De todas as vezes que revelei algo, alguém dizia que tinha um amigo ou familiar (ou eles próprios) que tinha passado por algo semelhante. Uma tinha uma prima que teve um problema nos ovários quando era jovem e agora também toma hormonas para poder ter os níveis hormonais normais. Depois o amigo do outro teve um acidente que o deixou também assim com umas cicatrizes grandes no peito. E a outra ainda comentou que teve de retirar um tumor de uma das mamas e que o procedimento deve ter sido parecido com o meu; o meu foi só um bocado mais "radical", mas no fundo era tudo o mesmo. Subitamente, as pessoas afinal já têm referências às quais comparar aquilo que eu fiz durante a minha transição. Afinal, já não são coisas assim tão extraordinárias, são coisas que acontecem aos amigos, familiares, a nós próprios. Consigo falar com elas sobre a recuperação post-op, sobre os inconvenientes de tomar uma medicação durante toda a vida, sobre como lidar com cicatrizes visíveis - tudo sem receber expressões vazias acompanhadas de "pois, isso é tudo tão estranho, não faço ideia de como será". Subitamente já não me sinto como um "outro", um outlier.

É impressionante, e triste, a forma como a palavra "transexual" nos torna automatica e acriticamente objetos de estranheza com os quais nenhuma "pessoa normal" se consegue identificar. Na realidade, o que nós fazemos não é assim tão diferente. É mesmo uma pena as pessoas só o verem quando lhes omitimos a parte da transexualidade.

Tudo isto me faz pensar no grau de abertura que realmente quero ou não ter em relação à minha condição como pessoa transexual. Se por um lado gosto de ser aberto em relação a isto, confesso que a sensação de ser visto como um ser humano completamente "normal" (na perspetiva da sociedade, claro) e com quem as pessoas se conseguem identificar é extremamente agradável. Eu sempre tinha pensado que nunca conseguiria construir uma relação de amizade com alguém caso omitisse esta parte de quem sou, mas neste momento já não sei. A palavra "transexual" queima muitas pontes e eu já não sei se isso sempre vale a pena ou não.
on quarta-feira, 29 de julho de 2015
Passou-se quase um mês sem que eu tenha escrito nada para este blog. Nem nos 1001 rascunhos que tenho abertos peguei. Para mim é algo estranho, uma vez que este blog tem sido um hobbie que me consome uma parte significativa do meu tempo desde que o iniciei. 

É engraçada a forma como comecei a sentir falta de cá escrever. Quando comecei a escrever aqui fi-lo mais como forma de passar o tempo antes de conseguir iniciar a minha transição clínica. Ler e escrever sobre o assunto fazia-me sentir menos só, como se fizesse parte de algum tipo de "comunidade" e estivesse a contribuir para a mesma. À medida que o tempo foi passando, fui ficando mais exigente comigo próprio em relação ao que escrevia e fui-me apercebendo da minha própria falta de conhecimento sobre imensos temas. 

Quando escrevo alguma peça nova para o blog, tento sempre reunir informação e informar-me sobre os assuntos que abordo (mesmo quando se tratam de artigos de opinião, gosto sempre de ver as várias opiniões e tentar compreender os vários lados de um argumento). É uma tarefa cansativa, muitas vezes acaba por atrasar o desenvolvimento dos meus textos mas no final acaba por ser bastante positivo. Neste momento, a quantidade de texto que leio é muitíssimo maior em relação à quantidade de texto que escrevo sobre um determinado tópico. Tem sido ótimo não só do ponto de vista intelectual, mas também como forma de crescimento pessoal através da troca de experiências, opiniões e informação (na primeira pessoa).

No entanto, nem sempre tenho paciência para o fazer, e durante as últimas semanas ando sem grande cabeça para escrever textos adequados para este blog. Acho que estou numa altura em que questões pessoais relacionadas com a transição esgotam a maior parte da minha disponibilidade psicológica para lidar com assuntos relacionados com questões trans. Para quem tiver curiosidade sobre o que se tem passado, podem visitar um outro blog que tenho onde documento a minha transição de uma forma mais pessoal. 

Entretanto, vou começar a reiniciar o hábito de escrever aqui (mesmo que não publique, a lista de rascunhos do blog tem estado demasiado estática). Stay tuned.
on sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015
Há algumas semanas atrás fui levantar o meu cartão de cidadão novo. Depois de ter pago 200 euros e depois outros 15 na semana anterior, estava em pulgas para finalmente ver o resultado de tanto gasto de dinheiro em tão pouco tempo (na altura tudo o resto - todo o caminho percorrido até ali na transição, as consultas, coming outs, dificuldades variadas - estava meio bloqueado, eu estava mesmo muito ressabiado com o raio do dinheiro). Depois de confirmar a informação toda, lá dei o cartão antigo ao homem que me atendeu na conservatória do registo civil para que fizesse um furo no chip e, para minha surpresa, também um furo na fotografia. Pedi o cartão antigo de volta (está a dar-me jeito para atualizar a informação num monte de sítios diferentes) e saí de lá, finalmente, com alguma paz de espírito.

Mais tarde, numa conversa entre amigos, saquei do cartão novo e do antigo para me gabar de, finalmente, ter resolvido o problema. Ter os dois cartões à beira um do outro é algo que ainda me deixa com algum espanto - dois cartões, dois nomes, duas identidades, no entanto, é a mesma pessoa. Ao ver os dois cartões, uma amiga nota no furo na fotografia do cartão antigo (mesmo no meio da testa, um headshot certeiro) e pergunta-me: "até gostavas de ter sido tu a dar um tiro nesta gaja, não?"

Bem... não. Nem por isso. 

Muita gente parece assumir que todas as pessoas trans têm um ódio enorme ao corpo e à pessoa que "eram" antes da transição. Um ódio tão grande ao ponto de querer 'matar' o nosso 'eu' pré-transição, ou de nem sequer reconhecer essa pessoa como um 'eu' de todo (como um 'outro', como 'essa gaja'). 

Eu não me sinto bem dessa forma. Não guardo rancor em relação à rapariga que fui no passado. Aliás, ainda me é um bocado estranho dizer que "sempre fui um homem" porque, apesar de isso ser tecnicamente verdade, um facto é que vivi a maioria da minha vida até agora a pensar que era uma rapariga, a ser visto como uma rapariga, a viver tudo como uma rapariga (o que quer que "como uma rapariga" signifique). 

Não tenho qualquer tipo de arrependimentos em relação ao meu percurso no que toca à transição. Por vezes, no passado, consumia-me em raiva comigo próprio por um monte de pormenores e situações hipotéticas que colocava a mim mesmo. "e se me tivesse apercebido mais cedo?" "e se não tivesse passado tanto tempo em negação?" "e se tivesse tido coragem daquela vez para ter ido falar com aquela pessoa?" "e se tivesse tido esta conversa de outra forma?"  e se e se e se e se - e se me deixasse de lamentar? (a certa altura cheguei a um ponto em que nem eu próprio podia com a minha autocomiseração)

O meu passado pré-transição demorou exatamente aquilo que devia ter demorado e aconteceu exatamente como devia ter acontecido para que eu chegasse ao ponto que estou agora. Podia passar eternidades a tentar pensar em situações hipotéticas onde o meu passado fosse diferente, mas tal não me serve absolutamente de nada. Tenho vindo a descobrir que é bem mais útil reconhecer o meu passado, aceita-lo e viver com isso. No início foi um bocado complicado fazê-lo, porque em todo o lado somos incentivados a 'enterrar' o nosso passado. Mesmo dentro de espaços exclusivamente trans, existe esta ideia de que devemos deixar o passado de lado, nunca o referenciar, não tocar nele, ignora-lo por completo como se só começássemos a existir quando iniciamos a transição. Durante algum tempo eu interiorizei tudo isto, convenci-me que o meu 'eu' pré-transição era algo para fazer o luto e esquecer. A partir dali era um homem, e nunca tinha sido nada mais que um homem e ponto final. Não há grande espaço para discutir isto, e mesmo quando se discute parece ser algo extremamente taboo. Não quero com isto estar a criticar este tipo de mindset. Para muita gente trans, o passado é algo doloroso e que as pessoas tentam evitar por uma questão de saúde emocional; e há quem genuinamente não reconheça o seu "eu" pré-transição como um "eu" de todo. E está tudo bem com isso. Cada um vive a sua vida à sua maneira e este tipo de experiências são totalmente válidas. No entanto, nem toda a gente é assim. Eu não sou, e já tive conversas com outras pessoas que expressaram o mesmo (estas conversas foram maioritariamente privadas, já que essas pessoas (nas quais me incluo) tinham medo de aborrecer as outras pessoas nos espaços trans).

Durante algum tempo tentei aderir a este tipo de pensamento, mas entretanto cheguei à conclusão que não era para mim. O meu passado não me incomoda assim tanto - incomoda bem mais ter de o descartar e de criar um sofrimento artificial à volta dele só porque é o que "é suposto" para uma pessoa trans. 

Quando era criança brincava muito com os meus amigos do colégio (tanto meninas como meninos). Gostava de jogar às escondidas, ao quarto escuro, andar de bicicleta. Mais tarde veio o game boy e os Pokémons, as figuras de ação e pessoas a tentar impingir-me barbies. Nunca gostei de barbies, por muito estereotípico que isso seja. Por esta altura comecei a ter uma reputação de maria rapaz, e gostava disso. Entretanto meti-me no desporto. Ser melhor atleta que muitos rapazes era das coisas que mais gostava de me gabar. Isso e de ter ganho, durante anos seguidos, o corta-mato e as olimpíadas da ciência da minha escola. Os anos foram passando e eu continuava sempre a maria rapaz de sempre, por muito que me tentassem "corrigir". Dizer-me que os rapazes não gostavam de marias rapazes não só era mentira, como na altura passava-me completamente ao lado (nunca gostei de me dizer "lésbica", portanto assumia o rótulo de "bissexual"). Se bem que, a certa altura, tentei dar-lhes ouvidos e ter uma apresentação mais feminina. Nunca cheguei muito longe, sentia-me mal sempre que tentava ir além de uma camisa um bocado mais justa e uma trança mal amanhada. Passei toda a adolescência a ser visto como uma maria rapaz, depois os anos iniciais da faculdade como uma rapariga meia estranha e introvertida. Durante todo esse tempo era vista como uma rapariga e tratada como tal. Tive rapazes a atirarem-se a mim, taxistas a mandar piropos foleiros na rua, fui perseguido por um homem desde uma ruela estreita até à estação de metro, e depois outra vez passados dois dias e aprendi a não andar por ruelas sem estar acompanhado (curiosamente, há uns tempos atrás voltei a passar nessa mesma rua, depois de a andar a evitar desde essa altura; desta vez senti-me seguro, acho que foi a primeira vez que me apercebi de forma tão óbvia do que é ter privilégio masculino no meu dia-a-dia), vi a minha opinião descartada porque "uma rapariga não entende tanto de [desporto/videojogos/etc]", perguntaram-me se estava "naquela altura do mês" quando me exaltava num debate, etc etc etc. Isto é apenas uma pequena amostra, com ênfase em algumas partes que referenciam diretamente o meu passado "como rapariga". 

Tudo isto (e muito mais) faz parte de quem eu sou. Não deixou de existir a partir do momento em que assumi a minha identidade masculina. Não tenho qualquer intenção de apagar tudo isto nem de dar um metafórico tiro à pessoa que era, porque essa pessoa sou eu. 
on terça-feira, 30 de setembro de 2014
Com a azáfama toda do final das férias, inicio de um novo semestre e novos projetos, quase que não me apercebi que já era setembro - quase outubro, até. Passei o dia a tratar de papelada e acabei por passar imenso tempo em filas com os meus próprios pensamentos e agora sinto-me nostálgico.

Setembro de 2013 marca o início da minha transição. E, não, isto não significa que tive a minha primeira consulta, ou comecei algum tratamento físico, ou contei a alguém em setembro de 2013. Não fiz nenhuma dessas coisas (o máximo poderá ter sido começado a falar disto abertamente com algumas pessoas, não tenho a certeza). Eu defino o início da minha transição como o dia em que comecei ativamente a tentar por-me confortável dentro da minha própria pele. Fosse a experimentar com roupas e cortes de cabelo, ou a tentar negociar com o meu reflexo em frente a um espelho - foi o ponto em que comecei a trabalhar no sentido de me sentir bem. 

Passado um ano, posso orgulhar-me de já ter conquistado um monte de problemas (e ter arranjado outros tantos) - se me dissessem, há um ano atrás, que hoje estaria na situação em que estou, nunca me teria acreditado. Nunca pensei conseguir fazer tantos progressos durante um único ano.

Há alguns dias conversava com outro rapaz trans sobre as dificuldades do início da transição, dos medos, de estratégias para contar às pessoas, lidar com familiares e stress generalizado à volta da transição. Ao longo dessa conversa estava a constantemente com uma sensação de dejá vu, eu já tinha tido aquela conversa antes. A certa altura apercebi-me que, de facto, eu já tinha estado naquela conversa, há mais ou menos um ano atrás, com outra pessoa diferente e num papel diferente. Há um ano, eu era a pessoa cheia de medos e dúvidas, em pânico sem saber por onde ou como começar tudo isto; do outro lado estava um rapaz que já tinha iniciado a sua jornada há algum tempo a tentar ajudar-me. Na altura ajudou bastante, só o facto de ter alguém com quem falar, alguém que já passou pelo mesmo e que nos possa dar alguns conselhos, é uma ajuda enormíssima. Eu lembro-me de, na altura, ter uma admiração enorme por esse rapaz, pela atitude que demonstrava perante a transição, pelo facto de já estar assumido para um monte de gente e pelo facto de estar a tentar ajudar quem precisava de ajuda (naquele caso, eu próprio). Um ano depois, ainda tenho admiração por ele, embora já me tenha apercebido que ele não é o super-herói que eu julgava que ele fosse - não por ele ter descido na minha consideração, mas por me aperceber que muitas das coisas que me levavam a admira-lo são coisas que fazem parte da vida de muitas pessoas trans e eu próprio já me vi confrontado com essas situações. As pessoas trans passaram de "pessoas super corajosas e fortes e incríveis" para "pessoas que fazem o que têm de fazer para sobreviver", não deixando de ter imensa coragem e força para ser quem somos, claro. Somos todos super-heróis, à nossa maneira.

Hoje em dia acho piada à forma como algumas pessoas vêem as pessoas trans como "super corajosas e fortes e determinadas" (quando não nos vêem como doentes mentais ou loucos), principalmente quando se dirigem a mim como se eu fosse tudo isso que elas pensam que sou. Eu adorava conseguir ter metade da força e coragem que algumas pessoas pensam que tenho. Quase tudo o que fiz durante o último ano no contexto da transição teve muito mais de desespero e frustração do que força ou coragem. Eu comecei a contar às pessoas porque me frustrava imenso viver numa mentira constante, eu decidi começar o processo clínico porque não aguentava mais ficar da forma que estava, qualquer modificação que fiz (que até agora ainda nem foi grande coisa) foi motivada pela necessidade urgente de mudança. (Não me estou a queixar, de forma alguma, de ser visto como uma pessoa com todos esses atributos positivos, estou só a pensar alto - todo este post está a ser um enorme rambling, portanto...) 

Em termos de mudanças físicas, muito pouco aconteceu durante este ano - afinal, a transição não é só isso, por muito que a maioria das pessoas goste de obcecar com as questões físicas (já perdi a conta da quantidade de vezes que me perguntaram sobre a operação, ou sobre hormonas, ou sobre outro pormenor qualquer desse género). Apesar disso, não consigo deixar de sentir que mudei imenso durante os últimos meses. Se calhar as mudanças não serão evidentes para as pessoas à minha volta, mas são gigantescas no que toca ao meu bem estar e evolução como pessoa no geral. Aliás, eu sinto que só agora é que consigo começar a evoluir e a conhecer-me a mim mesmo, a desenvolver traços de personalidade e partes de mim que desconhecia por completo. Não que não tivesse personalidade ou vida antes, mas hoje parece-me tudo muito mais vivo, interessante, apelativo e, ás vezes, mais fácil. Viver é mais fácil agora que me assumi como trans, por muito contraditório que isso possa parecer. Provavelmente não é mais fácil, provavelmente eu tenho é mais motivação e energia para viver e para enfrentar os problemas por muito impossíveis que pareçam de resolver... Não sei. 
É quase como quando comecei a usar óculos: antes de os usar não era cego, mas só agora com os óculos é que me apercebo de que antes via mal e que a vida é muito menos desfocada e esborratada do que eu pensava. Hoje em dia não consigo conceber viver sem óculos e não entendo como é que não me apercebi que via mal mais cedo. 

Eu não sei mesmo onde é que este post vai ou porque é que o comecei sequer a escrever. Acho que não queria deixar passar este marco pessoal. Além disso, queria quebrar um bocado o hábito deste blog de ter posts mais informativos e começar a escrever um bocado mais sobre a minha experiência e sobre... cenas. Não vou entrar em detalhes da minha vida pessoal, mas dar um toque mais pessoal ao blog não calhava nada mal. Portanto, aqui fica. 
on sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014
Olá, pessoas. Sejam bem vindas ao meu blog. Eu sou um gajo, que por acaso é trans, e estou aqui para falar de cenas (provavelmente sobre cenas trans e cenas que a mim, como pessoa trans, me fazem pensar, refletir ou ressabiar). 

Mas o que é isso de ser "trans"? Neste contexto, "trans" serve de diminutivo de transexual e transgénero (e quero chamar a atenção para o facto de "transexual" e "transgénero" não serem sinónimos!). Criei este blog porque tenho uma série de cenas, pensamentos, opiniões, etc, que gostava de partilhar e de deixar por aí para que alguém as leia. Quero também começar a tentar preencher um vácuo que tenho vindo a notar que existe há demasiado tempo: textos sobre cenas trans. A transexualidade e o transgenerismo são assuntos muito pouco divulgados e, portanto, muito pouco conhecidos. Provavelmente, uma pessoa só entra em contacto com estes assuntos quando aparece um concorrente na casa dos segredos que diz que "mudou de sexo o ano passado" ou quando ouve falar desta ou aquela pessoa que foi espancada na rua - provavelmente por ser "um homem a usar saias" ou até mesmo "uma prostituta travesti". 

As pessoas trans são quase invisíveis e, nas poucas ocasiões em que são visíveis, estão muito mal representadas. Já me começo a fartar de ver séries de comédia a usar mulheres trans como punchlines de piadas sexistas e (trans)misóginas, ou profissionais de saúde a dizer que todas as pessoas trans odeiam de morte o seu corpo, ou blogs que aparentam ser bem intencionados mas escritos por putos do secundário durante Área de Projeto que não entendem nada sobre realidades trans. E estou farto de ver pessoas trans completamente à deriva, sem saber que opções têm, sem saber para onde se dirigir, à espera durante meses por um médico de família que os ignora por completo e que depois tenta força-los para consultas de psiquiatria, ou que decidem fazer uma transição sem acompanhamento médico por se sentirem marginalizados pelos mesmos médicos que nos deviam ajudar (entre várias outras situações espatafúrdias). 

Portanto, é minha intenção, com este blog, escrever o que me vai na alma e tentar, pelo caminho, talvez mudar uma ou duas mentalidades. Quero desde já dizer que o que se encontra neste blog é a minha, e apenas minha, opinião. Eu não represento mais nenhuma pessoa, além de mim próprio. Eu não falo pela "comunidade" transexual ou transgénera. As minhas opiniões e experiências não refletem as opiniões e experiências de outras pessoas trans. O que eu escrever aqui poderá muitas vezes estar em conflito com as opiniões ou experiências de outras pessoas trans. Fica aqui o disclaimer.

Caso tenham alguma pergunta ou assunto que gostariam de ver abordado (que esteja relacionado com assuntos trans), sintam-se à vontade para me deixar um comentário. 

Dito isto, sejam todxs bem vindxs ao meu blog. Enjoy your stay.