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on sexta-feira, 22 de setembro de 2017
Para ver se ressuscuto este blog, fica aqui o copy-paste de um ressabianço que fiz há uns dias no Facebook, a propósito das parvoíces que alguma malta anda por aí a espalhar sobre uma hipotetica nova lei de identidade de género:

"Ficando farto das mesmas conversas over and over again:
A proposta do BE prevê que seja possível a um menor de 16 anos lutar pelo direito à sua identidade, mesmo quando os seus representantes legais o tentam negar.
Sim, porque há pessoas que com menos de 16 anos já sabem bem que o género que lhes foi atribuído não é o género a que realmente pertencem.
E mesmo que não saibam, mesmo que depois se arrependam, não há crise, porque isto refere-se apenas à mudança de nome no registo civil, processo inteiramente reversível.
"ah, mas os putos vão começar a processar os pais e a mudar de nome para serem rebeldes"
Não, não vão. Ou se forem, estão a ser extremamente idiotas e rapidamente vão voltar atrás nesse ato de "rebeldia". Têem noção do que é viver com documentação incongruente com a vossa presença social? Mostrar o CC é um problema. Mostrar o passe no BUS é um problema. Matrículas em escolas/faculdades/whatever é um problema (já para não falar da informação nos sistemas informáticos das faculdades/escolas, nomes nas pautas, entrega de trabalhos, ter profs e colegas a tratar-nos pelo nome errado, etc). Uma vez até na biblioteca não me queriam deixar levar livros porque insistiam que aquele cartão não era meu. Qualquer merdinha em que tenham de apresentar algum tipo de identificação torna-se numa situação potencialmente desagradável ou até mesmo violenta.
Portanto, okay, sejam rebeldes, mudem de nome à toa. Boa sorte. Vamos ver quantos dias aguentam. Mas há formas mais fáceis de serem rebeldes. Formas que além de vos pouparem complicações legais, também não vos coloca em cima todo o estigma associado às pessoas trans.
Pois, porque ser trans não é fixe (se acham que sim, tirem a cabeça do tumblr e das páginas de memes e falem 5 mins com alguém trans). Nenhum puto de 13 anos vai decidir chamar-se Amélia só para arreliar os pais, quando tal lhe iria trazer todo um convite para ser alvo de bullying por parte dos colegas.
Portanto, não, não vai surgir uma epidemia de crianças a processar os pais para mudar de nome só porque sim.
"ah, mas achas bem fazer uma coisa assim tão cedo?"
Sim, acho. Toda a gente fala sobre o quão prejudicial pode ser para uma criança começar um processo de transição, mas ninguém fala do quão prejudicial pode ser NÃO começar um processo de transição. Para uma criança que já começou a sofrer de disforia, depressão, ansiedade, ideações suicidas, e sabe-se mais lá o quê, é negligente não fazer nada e "esperar que amadureça", porque "é muito cedo".
E por falar sobre ser "prejudicial começar tão cedo", volto a relembrar que esta "polémica" toda gira à volta da mudança de nome no registo civil. Não estamos a falar sequer de intervenções clínicas, apenas da atualização do CC.
E mesmo que estivessemos a falar sobre intervenções clínicas, ditam as normas clínicas internacionais que antes dos 16 podem ser administrados bloqueadores de puberdade (coisa que, tanto quanto sei, ainda não se faz em Portugal), cujos efeitos são também reversíveis. Esse tipo de medicação serve para "comprar tempo" à criança, impedem que os caracteres sexuais secundários se desenvolvam enquando a criança, em conjunto com a sua família e médicos, fica com tempo para entender bem aquilo que é e aquilo que precisa para ficar bem. Se entretanto a criança descobrir que afinal não é trans, no harm done, deixa de tomar a medicação e prossegue a puberdade normalmente. Se entretanto entender que é trans, ótimo, evitou que uma série de mudanças corporais ocorressem e minimizou a disforia e outras possíveis complicações no futuro. Tivesse eu acesso a isso durante a minha puberdade, teria evitado anos em depressão, confusão, e evitava ter hoje duas cicatrizes enormes no peito.
Portanto, essa malta toda raivosa com a discussão de uma nova lei precisa seriamente de CHILL THE FUCK DOWN e de parar de dizer merda sobre um assunto em relação ao qual nada entendem, nem se esforçam por entender. E para os pseudo-jornalistas que andam por aí a espalhar headlines inflamatórias, espero que a vossa série favorita seja cancelada e que o vosso microondas vos deixe sempre a comida a ferver nas bordas e congelada no centro. Shame on you."
on quinta-feira, 24 de setembro de 2015
Caríssimxs humoristas-wannabe,

É com desagrado (mas, infelizmente, sem surpresa) que vejo que ainda se aproveitam de plataformas mediáticas e do disfarce do "humor" para perpetuar ideias discriminatórias e difundir preconceitos. Este fenómeno é algo ainda relativamente raro cá em Portugal (devido, creio, à falta de visibilidade das pessoas transsexuais no país) mas depois de ver uma peça de "humor" sobre o assunto (nem me vou dignar a mencionar exatamente onde, não vos quero dar audiência) não consegui permanecer silencioso.

A peça desenvolvia-se à volta de uma entrevista de uma suposta mulher transsexual, tendo como ponto de partida a situação da Caitlyn Jenner. Invariavelmente, e mesmo sendo uma entrevista fictícia, a coisa focou-se nas operações e na tentativa de retratar a mulher como super-masculina - um homem disfarçado. 

Pode parecer inofensivo atacar uma Caitlyn Jenner - uma mulher rica, famosa, num local onde os comediantes de meia-tigela não se ouvem. Mas nós, a grande maioria das pessoas trans, não somos a Caitlyn Jenner. Não estamos imunes às consequências que este tipo de mensagens passam à população. Somos pessoas que, demasiadas vezes, somos despedidas dos nossos empregos (se os conseguirmos arranjar de todo), abandonadas pelas nossas famílias e ignoradas pelos sistemas de saúde. Há quem se vá safando, hoje em dia são cada vez mais as histórias com finais felizes, mas não deixamos de ser uma população com elevadíssimas taxas de tentativas de suicídio, com alta incidência de depressões, discriminações e - sim - alvos fáceis para piadolas parvas. 

Não é preciso muito trabalho, inteligência ou originalidade para fazer piadas à nossa custa e para transformar as nossas vulnerabilidades em punch-lines. Ninguém quer saber se ofendem "os travecos", se fazem pouco da mulher com voz grave ou se se aproveitam das reações de nojo das pessoas quando confrontadas com as "operações de mudança de sexo". Ninguém quer saber. Mesmo quando são chamados à atenção chovem "justificações": é sátira, não sejam tão sensíveis, é só um bocado de humor!

Isso não é humor, é bullying. 

Fazer piadas que perpetuam o status quo de discriminação de um grupo de pessoas extremamente vulneráveis repetindo os mesmos mantras preconceituosos de sempre não passa de bullying, e quem o faz não passam de pessoas que apenas se deram ao trabalho de encontrar uma presa fácil sem pensar duas vezes nas pessoas que realmente podem estar a afetar.

Ninguém está a salvo do humor, é um facto. Nem estou a defender que não se deva fazer humor à volta das pessoas transsexuais. No entanto, há formas inteligentes de o fazer. É possível fazer humor à volta deste tema sem ser um idiota completo - aliás, é algo que eu tento incorporar no meu ativismo ou até mesmo em momentos mais pessoais, entre amigos e familiares. Eu sou um fã enorme do humor, tanto como entretenimento puro como como forma de intervenção social. Eu adoro fazer piadas comigo próprio, apontar absurdidades do processo de transição ou simplesmente rir-me de situações mais graves como forma de lidar com as coisas. 

O humor pode ser uma ferramenta extremamente útil para a mudança de mentalidades. Ou, no mínimo, pode não ajudar a deitar abaixo um setor da população que já se encontra no fundo da hierarquia social. Tem é de ser bem feito e minimamente inteligente. 

Só para deixar um exemplo:




É possível fazer peças humorísticas que façam as pessoas pensar e questionar. O humor não tem de se ficar pelas gargalhadas vazias, e custa-me ve-lo a ser usado como justificação e meio de perpetuação de ideias que afetam de forma tão negativa as pessoas transsexuais (ou qualquer outra população que calhe de ser o alvo da piada do dia). Eu não gostava de ver o humor à volta das pessoas trans desaparecer, gostava era de não o ver a tornar-se em mais um veículo para a discriminação. Recuso-me a aceitar standards tão baixos ao ponto de considerar um discurso de ódio e ridícularização transfóbica como humor a sério. 

Ao reciclar piadas que reforçam ideias preconceituosas, só vão estar a entreter e a validar pessoas preconceituosas. Eu entretanto fico a aguardar pelo dia em que se torne comum fazer piadas à custa de pessoas e de pseudo-humoristas transfóbicos. 
on sexta-feira, 13 de março de 2015
Pelos vistos, vai sair um novo filme este ano a contar a história de Lili Elbe, uma mulher trans dinamarquesa que foi a primeira pessoa (da qual há registos, pelo menos) trans a fazer, com sucesso, uma cirurgia de reconstrução genital. A forma como algumas pessoas estão a falar do filme como sendo "um filme sobre a primeira trans" mete-me imensa comichão por vários motivos, mas outro pequeno grande pormenor deste filme é algo que, infelizmente, ainda se vê demasiado e que acaba por anular (ou danificar significativamente) os benefícios que este tipo de representação nos poderia dar: a personagem é representada por um homem cissexual.

Seguindo as pisadas recentes de "Dallas Buyers Club" ou da série "Transparent", "The Danish Girl" é mais um filme onde uma mulher trans é representada por um homem cis. Eu podia passar o resto do post a elaborar as razões pelas quais eu acho isto bastante problemático (e vou fazê-lo, num outro post que tenho andado a cozinhar há algum tempo e que vai ser publicado quando estiver pronto), mas para já vou só fazer uma nota sobre as reações às criticas que estas escolhas de atores costumam receber.

Normalmente, quando confrontados com todos os problemas que esta dinâmica de "ator a fazer de mulher trans" levanta, as pessoas tentam defender-se dizendo que as críticas não fazem sentido porque, como atores, o trabalho deles é precisamente interpretar um papel de alguém que não são (neste caso, interpretar o papel de uma mulher). Isto não explica a razão de não terem escolhido uma mulher para interpretar... uma mulher (que por acaso é trans). Um ator ou atriz vai estar sempre a interpretar uma personagem que não é, isso faz parte da definição de "ator" mas, normalmente, os atores ou atrizes não são escolhidos ao acaso. Costuma haver um processo de seleção e, depois disso, o ator/atriz considerado mais "apto" para o papel, fica com ele. Porque é que, aparentemente, nenhuma mulher é considerada como uma boa escolha para fazer o papel de uma mulher trans? E porque é que, quando a personagem não é trans, subitamente afinal as mulheres já podem representa-la e raramente são escolhidos homens para o fazer? (normalmente quando um homem é escolhido para fazer o papel de uma mulher cis, o filme é alguma comédia parva e a escolha é feita pelo valor "cómico" da coisa, porque é hilariante ver um homem vestido de mulher, aparentemente).

No caso deste filme em particular, Eddie Redmayne (o ator que interpreta Lili Elbe) tenta justificar esta situação dizendo:

"But one of the complications is that nowadays you have hormones, and many trans women have taken hormones. But to start this part playing male you’d have to come off the hormones, so that has been a discussion as well. Because back in that period there weren’t hormones."

Isto, além de me por a pensar num passado hipotético em que realmente não existiam hormonas antes do século XX (a humanidade seria toda composta por diabéticos pré-puberescentes - cheira-me que há aqui algures um plot para um filme de sci-fi), está incorreto e continua a não ser uma justificação satisfatória. Estão a tentar convencer-nos que é impossível pegar numa mulher e, recorrendo a todas as técnicas de maquilhagem/preparação/magia hollywoodesca/etc, fazer com que ela tenha um aspeto masculino. Que a única forma de o fazer seria administrar hormonas masculinas às atrizes. Subitamente, toda a conversa de "um ator finge ser quem não é" é deitado pela janela fora, porque é impossível uma mulher conseguir fazer o papel de um homem (ou, neste caso, de uma mulher trans pré-transição). No entanto, um homem consegue fazer o papel de uma mulher, com muita mais facilidade e sem nunca sequer serem mencionados os efeitos das hormonas masculinas ou femininas. 

Em conjunto com esta mentalidade, vem também o "argumento" do "mas somos todos pessoas, independentemente do género, tu é que estás a ser sexista!" - que ignora por completo o facto de a crítica ser dirigida não só àquele filme/série/whatever em particular, mas a todo este mindset que coloca homens no papel de mulheres trans na grande maioria das representações de mulheres trans. Se fosse apenas um filme a fazer isto, okay, realmente era um bocado sexista estar a obcecar com o género do ator ou da personagem. O problema é que isto é uma situação tão comum que nem entendo como é que conseguem acusar-nos a nós (quem critica isto) de sexismo - das duas uma, ou isto revela um enorme desconhecimento da realidade (e então, provavelmente, também uma falha enorme na pesquisa sobre as realidades trans, o que depois se vai manifestar numa má história, num mau guião e numa má preparação do ator para desempenhar o papel) ou é apenas uma desculpa para justificar a transfobia e transmisoginia de quem está a fazer o filme. 

Também existem alguns casos da situação contrária: mulheres cis a intrpretar homens trans. No entanto, são mais incomuns tanto porque, ao todo, as representações de homens trans são menos numerosas e porque, pelo o que tenho pesquisado, é mais comum contratarem um homem para fazer o papel de um homem trans. Este último ponto, por si só, pode gerar imensa discussão sobre a forma como as pessoas vêem as mulheres trans versus como vêem os homens trans e permite fazer alguns comentários interessantes sobre transmisoginia (e apenas misoginia de uma forma mais geral). Isto irá ser explorado num post futuro que, como já mencionei, está ainda a ser elaborado.
on terça-feira, 27 de janeiro de 2015
Ontem apontaram-me para um segmento de um programa na TV nacional onde se falou sobre transsexualidade. Na minha inocência, fui ver o programa na esperança de ser alguma coisa de jeito e que valha a pena recomendar a outras pessoas. Não tive de chegar sequer a meio do programa para me aperceber que não era nada disso, que era apenas mais do mesmo no que toca a programas deste genero.

Apresentadores a fazer perguntas desnecessariamente invasivas aos mesmos convidados de sempre que repetem a mesma narrativa ad nauseam; nada de errado na narrativa das pessoas, mas era bom convidarem outras pessoas, com outras histórias, para que o público não ficasse com a ideia que somos todos um grupo monolítico - o que depois pode gerar problemas caso uma pessoa não obedeça aos 'critérios' e não encaixe na narrativa pré-concebida do que é suposto uma pessoa trans ser. 

Ainda estou para ver um programa deste género que não me faça querer interromper os apresentadores para mandar vir a cada 30 segundos. Da próxima vez, para me entreter um bocado, vou tentar seguir seguir aquilo que eu acabei de inventar e chamar "Drinking Game de Más Representações Trans" (sim, sim, eu sou péssimo a dar nomes a coisas, caso ainda não tivessem reparado pelo título deste blog), que tem as seguintes regras:

1 shot para cada vez que dizem "corpo errado"
1 shot para cada vez que dizem "transformação"
1 shot para cada pergunta relacionada com genitais
1 shot para cada "você podia ser apenas um homem/mulher homossexual" (no caso de mulheres ou homens trans, respetivamente)
1 shot por cada vez que usarem a palavra "transsexual" como um nome ("um transsexual", "uma transsexual")
1 shot por cada "homem num corpo de mulher" ou "mulher num corpo de homem"

1 shot para cada plano onde mostram uma mulher trans a maquilhar-se
3 shots se a cena da maquilhagem for filmada num espelho

1 shot para cada foto da pessoa trans pré-transição
3 shots se a foto mostrar a pessoa numa atividade estereotipicamente masculina ou feminina (nos casos de mulheres ou homens trans, respetivamente)

1 shot por cada "mulher/homem a sério" 
3 shots para a associação entre "mulher/homem a sério" e cirurgias

1 shot para a pergunta "então, você já concluiu a sua transição?"
3 shots se a pergunta for seguida de "e quantas operações teve de fazer?"

1 shot por cada médico ou psicólogo convidado
1 shot por cada vez que disserem "diagnóstico"
3 shots para "têm de ser acompanhados durante 2 anos antes de iniciar o processo"
beber a garrafa toda se disserem que um diagnóstico incorreto leva a que as pessoas - depois de anos em transição - se arrependam

3 shots por cada vez que a apresentadora diz o nome de nascimento da pessoa trans
3 shots para cada vez que alguém diz "mas agora voce é uma mulher/um homem muito bonit@" de forma condescendente
3 shots para cada vez que o apresentador/entrevistador é corrigido mas volta a cometer o mesmo erro passados 2 minutos

beber a garrafa toda se só convidarem mulheres trans e nem mencionarem homens trans
on terça-feira, 30 de dezembro de 2014
Leelah Alcorn, uma rapariga trans de 17 anos dos EUA, suicidou-se hoje (ou ontem? os fusos horários confundem-me). Leelah deixou uma nota de suicídio que pode ser lida na íntegra no seu blog, onde detalha os eventos que a levaram a perder a esperança e a vontade de viver. Para adicionar insulto à injúria, a notícia já apareceu em vários artigos online, quase sempre a reportar a morte de um rapaz de 17 anos que 'parece ter sido' um suicídio ('parece', mesmo com uma nota de suicídio online pode ter sido apenas um acidente, certo...).

É profundamente lamentável o suicídio de mais uma pessoa trans. Ao longo da nota de suicídio podem ler-se menções ao desespero sentido pela Leelah vindo dela própria (o isolamento, o medo de não conseguir fazer uma "transição com sucesso") e, como se isso não bastasse, o desespero foi agravado pelo abuso e intolerância parental, que foi ao ponto de lhe impedir o acesso aos cuidados médicos que ela precisava. Estas situações, infelizmente, são mais comuns do que seria aceitável (se houvesse apenas uma pessoa nesta situação, ainda assim seria inaceitável) e demasiadas pessoas trans continuam a ter de passar por situações destas que, por vezes, culminam no suicídio. Ainda por cima, na maioria dos casos, nunca se chega a saber que a razão do suicídio foi a transfobia porque as identidades e vontades das pessoas trans são rotineiramente ignoradas e/ou apagadas pelos meios de comunicação social ou até pelas famílias das próprias pessoas trans - neste caso, a família de Leelah tem-se recusado a trata-la pelo seu nome e ainda não reconheceram sequer que a sua morte foi um suicídio. 

Há um monte de coisas sobre as quais poderia aqui debruçar-me, mas vou focar-me numa questão que me saltou à vista mas que parece estar a passar ao lado da maioria dos artigos que vejo por aí. 

Quase no final da sua nota de suicídio, Leelah escreveu:
"A única maneira de eu alguma vez descansar em paz é se, algum dia, as pessoas trans não forem tratadas como eu fui, quando forem tratadas como humanos, com sentimentos válidos e direitos humanos. É preciso ensinar sobre o género nas escolas, quanto mais cedo melhor. A minha morte tem de significar algo. A minha morte tem de ser contada no número de pessoas trans que cometeram suicídio este ano. Eu quero que as pessoas olhem para esse número e digam "isto é terrível" e corrijam isto. Corrijam a sociedade." 
(tradução livre)

Leelah pareceu encarar o seu suicídio não apenas como uma decisão pessoal, mas como uma oportunidade para fazer ativismo. Isto provoca-me alguns sentimentos dissonantes entre si... por um lado compreendo que uma pessoa queira dar algum significado à sua vida, mas faze-lo através do término dessa vida parece-me horrendo. O suicídio não é a melhor forma para fazer passar uma mensagem num contexto de ativismo (ou em qualquer outro contexto). O mundo só muda se houver pessoas que lutem para que as mudanças ocorram. É preciso resistência, e não há melhor forma de resistência do que mostrar ao mundo que sobrevivemos a toda a merda que nos atiram à cara diariamente. 

Espero não ser mal interpretado. Não quero com isto criticar os motivos ou desejos da Leelah, mas tinha isto um bocado preso na garganta e queria deixar isto registado algures. Mais do que isto ter aparecido na nota de suicídio dela, preocupa-me a atenção que algumas pessoas parecem estar a dar a este excerto do texto. Ao ler alguns comentários sobre este caso quase que fico com a impressão que estão a glorificar este suicídio em nome do ativismo e da mudança. Por favor, não façam isso. Não há absolutamente nada de inspirador no suicídio de uma jovem de 17 anos, vítima de transfobia.

Vamos tentar tornar o mundo num local em que isto nunca mais volte a acontecer.

Caso estejam a lidar com pensamentos ou ideações suicidas, por favor falem com alguém. Um familiar em que possam confiar, um amigo próximo, alguém. 

Centro SOS Voz Amiga - Ajuda na solidão, angústia, desespero e prevenção do suicídio
21 354 45 45
91 280 26 69
96 352 46 60
Diariamente das 16h às 24h horas
www.sosvozamiga.org

Linha SOS Palavra Amiga
Viseu – 23 242 42 82
Todos os dias, das 21 à 01 horas

APAV - Associação Portuguesa de Apoio à Vítima
Apoio emocional
707 200 077 (chamada com preço independentemente da distância)

Telefone da Amizade
Um amigo nas horas difíceis
22 832 35 35
Todos os dias (16h-23h)

Linha LGBT
21 887 39 22
Quarta a domingo (20h-23h)

Linha Urgência Espaço T
Apoio em momentos de crise e situações de angústia
707 201 076 (chamada com preço independentemente da distância)
Dias úteis das 14h às 18h

Linha SOS Bullying
808 962 006 (2ª a 6ª feira, das 11h às 12h30m e das 18h30 às 20h)
bulialuno@anprofessores.pt

Linha SOS Estudante
Apoio emocional e prevenção do suicídio
808 200 204 ou 96 955 45 45
Das 20h à 1h (chamada local)

S.O.S. Adolescente
800 202 484
on quinta-feira, 14 de agosto de 2014
Hoje encontrei este vídeo, que aborda um bocado a questão da representação trans nos meios de comunicação social. Como achei que está bom e que passa uma boa mensagem, partilho-o aqui convosco. Tentei também fazer uma tradução livre, para quem não se der bem com o inglês.



"Uma ex-promotora de boxe que representou grandes nomes do boxe como Lennox Lewis, fez a transição de homem para mulher. O seu nome é Kellie Maloney e está, por todas as contas, muito feliz por finalmente ser ela própria, depois de décadas a sentir-se profundamente infeliz com o género masculino que lhe foi atribuído. 

Esperançosamente, essa introdução foi clara e fácil de acompanhar. Também espero que tenha sido correta. Eu não a tratei pelo género errado, nem usei terminologia desatualizada e desajeitada tal como "mudança de sexo". Os meios de comunicação social geralmente tratam as pessoas pelo género errado e recorrem a estes termos porque o transgenerismo é um tópico sensível e pouco familiar. Falar sobre isso pode parecer um campo minado, mas clareza e precisão não são mutualmente exclusivos.

Ao "jogar pelo seguro" no que toca a histórias sobre transgenerismo, estamos a conter o progresso e a fazer um desserviço a toda a gente. As pessoas trans são mal representadas e às pessoas que não são trans é-lhes roubada a oportunidade de compreender a profundidade da variância de género.

Eu sou trans portanto, em termos gerais, sei como falar sobre pessoas trans. Mas, ao contrário do meu género, a língua não foi algo com que eu tenha nascido - eu também tive de aprender, eu faço erros. Esses erros não fazem de mim uma má pessoa. Se não fores trans, é ainda mais difícil. Talvez até nunca tenhas considerado antes que o "sexo" é biológico, enquanto o "género" é psicológico porque, para ti, parecem ser a mesma coisa. 

Por isso, muitas pessoas que não são trans vão ver a história da Kellie como algo fascinante, estranho, talvez até um bocado difícil de aceitar. Parece que é deste ponto de vista um bocado confuso e defensivo que os media falam do transgenerismo. É uma pena enorme, porque na realidade não é assim tão difícil.

Kellie Maloney é uma mulher, portanto vamos parar com o "ping-pong" de pronomes: muitos artigos começam a usar "ele" e depois mudam para "ela". Mas a maioria das pessoas trans vêm-se a elas mesmas como sempre tendo pertencido ao género que apresentam após a trasnição. Podemos falar da vida pré-transição sem usar pronomes incorretos. Em vez de falar sobre "tornar-se uma mulher", digam que ela se assumiu como transgénero. Ela não está a viver "como uma mulher" - isto implica algum tipo de role-play. E, por fim, não existe tal coisa como uma "mudança de sexo" - chama-se "transição". Chamar à transição uma "mudança de sexo" é como chamar à puberdade uma "mudança de corpo"; soa um bocado pateta e redutor, não soa?

A nossa suposição de que a Kellie era um homem é totalmente compreensível. Não precisamos de nos sentir mal ou pedir desculpa, só temos de tornar mais fácil para que outras pessoas como ela consigam assumir a sua identidade mais cedo. 

Aqui está um próximo passo: quando ouvires algo sobre uma pessoa trans, pensa nela como uma pessoa a assumir a sua identidade, não como uma pessoa a tornar-se uma pessoa diferente ou a mudar de género. A Kellie é a mesma pessoa, é agora mais genuína a ela mesma do que alguma vez foi. Quando usamos hormonas na nossa transição, é como passar por uma segunda puberdade, o que é verdade porque estamos, de facto, a tornarmo-nos quem realmente somos. Algumas pessoas, eu incuído, sentem que finalmente cresceram. O que me trás à melhor parte de tudo isto: quando conseguimos ser nós mesmos tornamo-nos, geralmente, mais felizes, mais confiantes. 

As regras comuns de cortesia e privacidade aplicam-se na mesma, mas falar sobre assuntos trans é algo que geralmente fazemos, se ajudar as pessoas a compreender melhor aquilo pelo o que passamos. Basta usar senso comum e julgar a conversa de acordo com o grau de confiança que temos com a pessoa com quem estamos a falar. É um estranho? Provavelmente não devem começar a conversa com questões íntimas sobre a sua história pessoal; aliás, não lhe perguntem nada pessoal, é um estranho. É um amigo vosso? Foi ele que iniciou a converesa? Então é, provavelmente, aceitável fazer perguntas mais diretas; apenas não "entrem a matar" como se nunca tivessem socializado com outros seres humanos antes. Nunca partilhem detalhes pessoais do vosso amigo com outras pessoas, nem falem sobre ele nas suas costas. É apenas uma questão de ser uma pessoa correta. É sempre boa ideia perguntar que pronomes é que a pessoa prefere, e é sempre aceitável cometer erros. É constrangedor, mas é a vida. As intenções é que importam. 

A pior coisa que podemos fazer nos meios de comunicação social, é reforçar o status quo negativo no que toca a assuntos trans. Não é apenas umm questão de respeito. Quando chegarmos ao ponto de fazer justiça a uma história como a da Kellie, poderemos focar-nos mais no que realmente interessa. Podemos falar na violência e discriminação desproporcional que as pessoas trans enfrentam. Podemos trabalhar no sentido de melhorar a enorme taxa de suicídio, pobreza e falta de abrigo dentro da comunidade. E podemos assegurar que, quando falamos sobre igualdade social e legal para pessoas LGBT, realmente englobamos o L, o G, o B e o T. "

fonte do vídeo: The Guardian


Notas:

) eu tenho zero experiência a traduzir textos ou vídeos, portanto de certeza que há por aí alguns erros. Se alguém tiver alguma sugestão para melhorar a tradução, sintam-se à vontade para deixar um comentário;
) eu traduzi sempre a palavra "transgender" para "transgénero" apesar de sentir que, em alguns casos, "transexual" encaixaria melhor na mensagem. A língua inglesa tem esta mania chata de usar quase exclusivamente a palavra "transgender", tanto para se referir ao transgenerismo como à transexualidade.
on sábado, 10 de maio de 2014
Eu nunca fui pessoa de ligar muito ao Festival Eurovisão da Canção. Música pop (e uso uma definição muito abrangente de "pop"), nacionalismo e concursos de popularidade entre países nunca me foram muito apelativos. Já ouvi várias teorias sobre o festival estar bastante ligado à população LGBT, embora nunca tenha entendido bem porquê - sempre pensei que fosse por existir aquele estereótipo de os gays gostarem de divas pop ou algo assim. 

Este ano o festival chamou-me um bocado a atenção por causa da concorrente Austríaca, Conchita Wurst ou, como já ouvi várias vezes, "aquela mulher com barba". E soube hoje que, pelos vistos, foi precisamente essa mulher barbuda que ganhou o concurso este ano. 

Já desde a primeira vez que ouvi falar da concorrente fiquei com um misto de apreensão e entusiasmo. Por um lado, é bom ver pessoas a quebrar visivelmente normas de género num evento tão grande como a Eurovisão. Por outro lado, fiquei com medo de ver como é que os meios de comunicação social iam lidar com esta pessoa e, pior ainda numa vertente mais pessoal, fiquei com medo de voltar a ver amigos e conhecidos a dizer tretas transfóbicas, piadas sobre "travecas" e coisas do género (uma espécie de sequela das tretas que vi a propósito do concorrente transexual da última edição da casa dos segredos). Ver pessoas com quem lido diariamente a dizer barbaridades transfóbicas afeta-me mais do que aquilo que eu gosto de admitir. 

De qualquer forma, não pude ficar indiferente a toda esta situação, ainda mais agora que, sendo a vencedora do concurso, a Conchita vai atrair imensa atenção dos media. E, como eu não confio nos media, fui eu próprio tentar perceber quem é esta pessoa, Conchita Wurst, a mulher barbuda que ganhou o Festival Eurovisão da Canção.

Uma pesquisa rápida no google informou-me que o nome desta pessoa é Thomas Neuwirth, sendo a Conchita apenas um "stage name", o nome da sua performance de drag. Para quem não está familiarizado com o termo, "drag" refere-se a uma arte de performance, normalmente com música e/ou dança, durante a qual uma pessoa se veste e apresenta como uma versão exagerada do sexo oposto. Drag pode ser considerado uma forma de travestismo associado à arte e ao espetáculo. 

Apesar desta informação estar disponível facilmente, continuo a reparar que imensa gente ainda não percebe bem se Conchita é uma pessoa "real", se é uma personagem, se aquela pessoa é um homem, uma mulher, um travesti ou uma pessoa transexual. Muitas pessoas parecem achar que esta pessoa é um travesti e uma mulher transexual (sim, ambos...), o que está apenas parcialmente correto.

Para quem ainda tem dúvidas e, como eu, não confia nos media nem na wikipedia, nada melhor do que ouvir a própria pessoa a explicar a sua identidade. Fui procurar vídeos de entrevistas para tentar esclarecer este assunto definitivamente, e foi isto que encontrei...

Nesta entrevista, parece dar a entender que a Conchita é uma "persona" que o cantor inventou por volta de 2007 quando estava a tentar entrar no show bussiness, mas fora do palco é apenas "the lazy Tom". Aqui, menciona ter "criado" a mulher com barba com o objetivo de mostrar ao mundo que podemos ser o que quisermos, independentemente da cor de pele, nacionalidade, etc. A certa altura menciona também ser um "drag artist". 

Encontrei também uma entrevista durante a qual parece mencionar que se identifica não como homem ou mulher, mas como algo algures no meio: "there are people out there who are in between, you know?" e faz uma analogia onde se coloca no meio entre o masculino e o feminino.

As dúvidas dissipam-se totalmente quando, perguntado diretamente se a Conchita é uma expressão artística ou uma identidade de género, a resposta é "I's more of an artistic expression, and sometimes people confuse it with being a transgender person and it's definitely not. I'm a drag artist, I'm not a transgender person", sendo a Conchita um outlet que Thomas encontrou para se exprimir artisticamente. 

Recapitulando: a Conchita Wurst é a personagem inventada por Thomas Neuwirth para usar durante as suas performances de drag. Thomas não se considera transgénero e usa apenas a sua persona feminina em palco. 

A razão pela qual andei a vasculhar pelo youtube por estas entrevistas e a compilar alguma informação sobre o assunto aqui é porque gostava que as pessoas entendessem que esta pessoa, Conchita Wurst, não é transexual e, portanto, não representa a população transexual. 

Por favor, não usem esta pessoa para perpetuar as ideias erradas sobre a população transexual ser toda andrógina, confusa e excêntrica. Não que eu ache que exista nada de mal nas pessoas (trans ou cis) que são androginas ou excêntricas (seria um enorme self-hating hipócrita se o fizesse, ah), mas em casos destes é extremamente fácil as pessoas ficarem com a ideia errada e caírem no erro de começar a associar este tipo de excentricidade à população transexual. 

Espero com isto não ser mal interpretado. Como disse no início, acho ótimo começar a haver mais representação de pessoas que não se conformam com as normas de género. Enquanto estava a ver as entrevistas, não conseguia deixar de sentir uma admiração enorme pela Conchita, pela forma como ela se apresentava, pelas suas atitudes e pela mensagem de tolerância que transmitia. Acho ótimo uma pessoa como ela estar a ter toda esta atenção mediática porque parece-me que é uma pessoa bastante humilde, inteligente e "down to earth", uma ótima embaixadora pela tolerência e pela diversidade. 

O meu problema não é com a Conchita, mas sim com os meios e comunicação social e com a forma como estes distorcem a personagem e a pessoa por trás dela o que, invariavelmente, gera confusão entre a população.

Mas, enfim, a forma como a população transexual e trangénera é apresentada pelos media é daqueles temas que me deixava a escrever durante o resto da noite. Vou ter de deixar esse tema para uma outra ocasião. Antes disso deixo apenas o apelo para que, quando virem assuntos trans a aparecer nos meios de comunicação social, aceitem a informação com um grãozinho de sal. Os media são péssimos a retratar estes assuntos e, provavelmente, acabam por espalhar mais desinformação do que informação.

P.S: se estão curiosos sobre o título deste post, googlem "Dana International"