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on quinta-feira, 22 de outubro de 2015
Antes de começar: quero frisar que eu não sou médico e não tenho formação em medicina. A informação aqui contida deve ser usada apenas para fins educacionais e nunca em substituição de consultas com médicos qualificados. Se tiverem qualquer dúvida clínica, perguntem ao vosso médico. 

Dito isto, gostava de partilhar um bocado da informação que fui acumulando sobre e terapia hormonal com testosterona e sobre hormonas em geral. 

Começando pelo básico - o que é uma hormona? 
Uma hormona é uma molécula sinalizadora, ou seja, serve para transportar sinais pelo corpo. As hormonas são produzidas por glândulas e viajam através do sistema circulatório (veias e artérias) até ao local onde têm de deixar a sua mensagem. 
Exemplos de glândulas que produzem hormonas incluem: tiróide, hipófise, glândulas suprarrenais e gónadas (testículos ou ovários). 

Existem imensos tipos de hormonas diferentes e que regulam imensos fenómenos, entre os quais: metabolismo, crescimento, sono, humor, reprodução, etc. O conjunto de todas as hormonas e das glândulas que as secretam é conhecido como o sistema endócrino.

Mas como é que as hormonas sabem onde é que têm de entregar as suas mensagens? 
Cada hormona tem um tipo de recetor específico e que só existe em locais específicos do corpo. Esses recetores são moléculas que se encontram, normalmente, na superfície das células. Quando uma hormona se liga a um recetor, vai desencadear uma série de mudanças na célula que culminam em algum tipo de efeito a curto, médio ou longo prazo. As hormonas só podem fazer os seus efeitos se se ligarem aos recetores adequados - ou seja, se esses recetores por alguma razão estiverem todos ocupados, indisponíveis ou ausentes, as hormonas não fazem efeito nenhum. 

Ilustração da interação hormona-recetor


Há hormonas que se podem ligar a recetores diferentes, e há recetores que podem reconhecer diferentes hormonas. No entanto, os efeitos em cada caso podem ser diferentes. Por exemplo, se a hormona "A" se ligar ao recetor "1" pode induzir efeitos diferentes caso a mesma hormona se ligasse ao recetor "2". Da mesma forma, se o recetor "1" receber a hormona "A" vai causar efeitos diferentes de que se tivesse recebido a hormona "B". Existem imensas hormonas e imensos recetores diferentes, pelo que a combinação de diferentes hormonas com diferentes recetores dá origem a um número enorme de interações e efeitos induzidos pelas hormonas. 

A especificidade das hormonas e recetores é mediada, principalmente, pela forma e geometria, embora possa haver alguma adaptação e variação.


E como é que o corpo sabe que hormonas é que tem de produzir?
O nosso corpo tem sistemas de auto-regulação hormonal, a maioria funciona como um mecanismo de feedback negativo. Pensem neste mecanismo como a regulação de uma torneira quando estão a tomar banho: se se sentirem a escaldar, desligam um bocado a torneira da água quente. Quando começam a sentir frio, ligam a quente até estarem confortáveis com a temperatura do vosso chuveiro.

Ou seja, quando o corpo deteta que tem quantidades de hormona "A" a mais, deixa de a produzir (ou produz níveis mais baixos). Da mesma forma, se detetar que não há hormona "A" suficiente no sangue, começa a produzir mais. As formas como o corpo deteta os níveis hormonais são complexas e não completamente compreendidas atualmente, mas sabe-se que funcionam e que nos mantêm saudáveis (na ausência de condições patológicas, claro). 

Testosterona e Estrogénio - Esteróides Sexuais
Esteróides sexuais são as hormonas que interagem com recetores de androgénios ou estrogénios. Incluem os androgéneos, estrogénios e progestágenos. Dessas, as mais "famosas" são, respetivamente, a testosterona, o estradiol e a progesterona. Estas hormonas são produzidas, principalmente, nos gónadas (testículos ou ovários), mas também são produzidas em menores quantidades nas glândulas suprerrenais, tecido adiposo, fígado e em outros tecidos. 

Uma nota sobre esteróides: muita gente parece ficar alarmada quando ouve dizer que a testosterona e o estrogénio são esteróides. Existe algum estigma em relação a esta palavra por causa das notícias que reportam o abuso de esteróides por atletas. Na realidade, "hormona esteróide" significa apenas que é uma hormona que é fabricada a partir do colesterol. Outros exemplos de hormonas esteróides são os glicocorticóides (participam na regulação do sistema imunitário) ou a aldosterona (contribui para o bom funcionamento dos rins). 

Comparação entre as moléculas de colesterol, testosterona e estradiol.Como podem ver, são bastante parecidas entre elas


Apesar de se dizer que a testosterona é a "hormona masculina" e que o estradiol é a "hormona feminina", toda a gente produz alguma quantidade de ambas as hormonas. A proporção entre uma e outra é que acaba por ser bastante diferente de acordo com o tipo de gónadas que uma pessoa tem. Aquando da puberdade, uma pessoa vai começar a produzir testosterona ou estradiol em maiores quantidades conforme tenha testículos ou ovários, respetivamente.

Um ponto importante sobre estas hormonas é o facto de toda a gente, independente do sexo, ter recetores para ambas as hormonas no seu corpo.

O Papel dos Esteróides Sexuais
Os esteróides sexuais têm um papel crucial no desenvolvimento das características sexuais secundárias de uma pessoa. 

Características sexuais secundárias são características que se desenvolvem a partir da puberdade devido ao efeito dos esteróides sexuais. No entanto, não têm nenhum papel direto na reprodução. Exemplos incluem: crescimento de pêlo facial ou corporal, mamas, o timbre da voz, o padrão de distribuição da gordura corporal, etc. 

Características sexuais primárias são aquelas que estão presentes desde a nascença, desenvolvem-se mais na puberdade e intervêm diretamente na reprodução. Basicamente, são os órgãos genitais externos e os gónadas (e todas as estruturas associadas aos mesmos). 

Durante a puberdade, os androgénios vão induzir mudanças como o aumento da pilosidade facial e corporal, o abaixamento do timbre da voz, desenvolvimento da massa muscular, etc. Ou seja, características geralmente associadas ao sexo masculino.

Por sua vez, os estrogénios vão causar o crescimento de mamas, o início do ciclo menstrual (se a pessoa tiver os órgãos internos necessários para que tal aconteça) e todas as características geralmente associadas ao sexo feminino. 

Como é que o corpo decide se deve produzir mais testosterona ou estradiol?
Como já referido, estas hormonas são produzidas nos gónadas. No entanto, não são os gónadas que "decidem" em relação à quantidade de hormonas que o corpo produz. A regulação destas hormonas é um trabalho de equipa entre os gónadas e o hipotálamo. 

O hipotálamo é uma região do cérebro que é extremamente importante na regulação hormonal - não só das hormonas sexuais. A temperatura corporal, fome, sede ou sono são tudo coisas controladas pelo hipotálamo. É uma ponte de ligação entre o sistema nervoso e o sistema endócrino.



Localização do hipotálamo. Imagem roubada daqui » http://brainmadesimple.com/hypothalamus.html

Quando o hipotálamo deteta níveis baixos de testosterona ou estrogénio no sangue, liberta uma hormona chamada Gonadotropin-releasing hormone (GnRH), que viaja até à hipófise (uma glândula que fica muito perto do hipotálamo). Esta hormona tem como função, tal como o seu nome sugere, estimular a libertação de gonadotropinas. 

Existem duas gonadotropinas: hormona luteinizante (LH) e a hormona folículo-estimulante (FSH, do inglês Follicle-stimulating hormone). Tanto a LH como a FSH são produzidas na hipófise e viajam até aos gónadas. Lá, a FH estimula a produção de testosterona ou estrogénio (conforme a pessoa tenha testículos ou ovários, respetivamente). A FSH promove a iniciação da maturação dos gâmetas (espermatozóides ou ovócitos).

No caso contrário, caso o hipotálamo detete níveis elevados de testosterona ou estrogénio, inibe a libertação de GnRH, o que por sua vez vai inibir a libertação de LH e FSH para o sangue, diminuindo assim a produção de testosterona ou estrogénio. 

(1) os gónadas produzem pouca testosterona ou estrogénio
(2) o hipotálamo, em resposta aos níveis hormonais baixos, produz GnRH, que é enviado para a hipófise
(3) a hipófise liberta LH e FSH para a corrente sanguínea
(4) a produção de testosterona ou estrogénio é aumentada 


E como é que isto tudo interage com a terapia hormonal com testosterona?
Durante a terapia hormonal com testosterona, estamos a introduzir testosterona no nosso corpo. Isto, por si só, vai causar o desenvolvimento das características sexuais secundárias. Como dito anteriormente, todas as pessoas têm recetores para todas as hormonas, daí a testosterona conseguir exercer os seus efeitos num corpo que, naturalmente, teria níveis de testosterona muito mais baixos. 

As mudanças induzidas pelas hormonas podem acontecer a curto, médio ou longo prazo. Por exemplo, um dos efeitos da testosterona é a estimulação dos folículos pilosos (responsáveis pelo crescimento de pêlo). Isto, normalmente, demora bastante tempo (meses ou anos) porque acontece pela mudança da expressão genética das células dos folículos, e tudo o que envolva mudar a forma como os nossos genes se comportam demora bastante tempo. 

Algo importante a considerar é o facto de existir um número limitado de recetores hormonais no nosso corpo. Se houver mais moléculas de testosterona do que recetores, as moléculas extra não estão lá a fazer nada, porque não têm forma de se ligar a lado nenhum. Isto significa que existe um ponto a partir do qual não adianta aumentar a dose da medicação que tomamos na nossa terapia hormonal. Os efeitos das hormonas e o timming com que aparecem não é algo estritamente linear. 

Aliás, a partir de certo ponto pode ser contraproducente aumentar a quantidade de testosterona que introduzimos no nosso corpo, uma vez que parte dela pode ser convertida de volta a estrogénio. Este é outro mecanismo de regulação hormonal que o nosso corpo pode accionar caso detete níveis demasiado elevados de testosterona. Existe uma molécula chamada aromatase que é importante para a síntese de estradiol. Essa molécula pega numa molécula de testosterona e transforma-a em estradiol. Portanto, ao achar que estamos a aumentar o nosso nível de testosterona, podemos estar é a aumentar o nível de estradiol.

Mecanismo geral da conversão de testosterona em estradiol. Imagem roubada da Wikipédia.


Ao fim de algum tempo da terapia hormonal, o equilíbrio hormonal no nosso corpo começa a mudar e o hipotálamo começa a aperceber-se de que já existe uma quantidade considerável de esteróides sexuais em circulação. Isto vai desencadear o processo de feedback negativo descrito acima, a produção de GnRH vai diminuir, o que por sua vez vai culminar numa diminuição da produção de estrogénio e na interrupção do ciclo menstrual. Isto costuma acontecer dentro dos primeiros 6 meses da terapia hormonal (mas este prazo pode variar consoante a pessoa). 

Uma nota/curiosidade em relação à regulação do mecanismo de feedback: cá em Portugal, tanto quanto sei, ainda não se usam os chamados "bloqueadores de puberdade". Estes são compostos que podem ser dados a uma pessoa que ainda não tenha entrado (ou que esteja ainda nas fases iniciais) na puberdade. O que essa medicação faz é bloquear os recetores de GnRH de forma a que a hipófise não receba esse sinal e nunca produza as gonadotropinas, o que por sua vez vai inibir a produção dos esteróides sexuais e assim atrasar o início da puberdade. Daí esses compostos também serem conhecidos como "bloqueadores de GnRH" ou "análogos de GnRH".

Fica aqui as bases para começar a compreender melhor o funcionamento da terapia hormonal com testosterona (ou com estrogénio! Os princípios básicos aplicam-se na mesma, embora existam algumas diferenças; poderá ser algo a explorar neste blog no futuro). Num post futuro vou continuar a elaborar mais sobre os efeitos da testosterona e sobre os tipos de medicação usados mais frequentemente.
on terça-feira, 2 de junho de 2015
Esta página serve como referência rápida sobre vários termos que vou usando ao longo do blog. As definições que aqui se encontram não são exaustivas ou absolutas e estão abertas a discussão. 

Se tiverem sugestões de mais palavras para incluir, sugestões de melhoramentos, ou se quiserem esclarecimentos em relação a alguma das palavras aqui contidas, fiquem à vontade para me contactarem.


(uma nota em relação à palavra "oposto": em algumas definições uso a expressão "género oposto", estando subentendido que existe uma oposição entre apenas dois géneros. Eu não acredito neste tipo de binarismo absoluto de género, mas a sociedade em geral enforça esta ideia, o que acaba por se manifestar nas palavras que usamos e nas definições das mesmas. Há palavras cuja existência parte logo do pressuposto que só existem dois géneros, tornando-se impossível defini-las sem referenciar um género "oposto" porque as definições são referentes à realidade em que estamos inseridos, que não reconhece mais géneros além dos dois "feminino/masculino". Portanto, uso a palavra "oposto" apenas quando não encontro uma forma melhor de definir algumas das palavras, não sendo minha intenção ignorar ou negar a existência de mais géneros além dos dois tradicionalmente aceites na sociedade em que estamos inseridos)

Androginia: expressão de género que não é claramente masculina ou feminina [ver: Expressão de género]

Binário de género: sistema de classificação de géneros no qual só existem duas classificações possíveis e mutuamente exclusivas: género feminino ou género masculino. É o sistema mais amplamente aceite na sociedade atual.

Bloqueadores de puberdade: medicação usada para parar a puberdade em crianças ou jovens adolescentes. Os bloqueadores de puberdade inibem temporariamente a produção de hormonas sexuais e o desenvolvimento dos órgãos reprodutores. Não confundir com inibidores hormonais [ver: Inibidores hormonais, Estrogénio, Testosterona]

Características sexuais primárias: elementos do corpo de um indivíduo que estão diretamente relacionados com funções reprodutoras (pénis, testículos, vagina, útero, ovários, etc)

Características sexuais secundárias: características que surgem num indivíduo quando este atinge a puberdade; são diferentes para indivíduos do sexo masculino ou feminino, embora não intervenham diretamente na reprodução (pêlo facial, mamas, voz, etc).

Cirurgias de reconstrução genital: conjunto de intervenções cirúrgicas que têm como objetivo modificar os genitais de uma pessoa de forma a que estes se assemelhem em função e aparência aos genitais associados ao sexo com o qual a pessoa se identifica. Não existe apenas uma única cirurgia, mas sim um conjunto de cirurgias, técnicas e opções que podem variar de acordo com as necessidades de cada pessoa [ver: Transição clínica]

Cisgénero: sinónimo de cissexual. Indivíduo que se identifica com o género associado ao sexo que lhe foi atribuído à nascença. 

Cis: diminutivo de cisgénero ou cissexual. [ver: Cisgénero]

Cisnormatividade: enviesamento social e legal a favor das pessoas cisgénero; assumção de que as identidades de género das pessoas cis são mais legítimas e reais do que as das pessoas trans e de que as pessoas cis são superiores às pessoas trans. [ver: Cisgénero, Trans]

Coming-Out: sinónimo de "sair do armário". Expressão que significa revelar a orientação sexual ou identidade de género a outras pessoas. Pode também significar a revelação a outras pessoas da nossa condição como trans (caso tal não seja óbvio). 

Cross-dresser: indivíduo que, por gosto, prazer ou entretenimento, usa roupas associadas ao género oposto ao género com o qual se identifica. Não está relacionado com a identidade de género de um indivíduo. [ver: Papéis de género]

Despatologização: ato de despatologizar. Quando usado sob a forma "despatologização trans" refere-se a uma ideologia e movimento (não formalmente definido) que reivindica a cessação da patologização das pessoas trans, a retirada da transsexualidade dos manuais de doenças psiquiátricas e o abolimento da necessidade de um diagnóstico clínico para dar acesso à transição clínica. [ver: Disforia, Transição clínica]

Disforia: sinónimo de "descontentamento" ou "insatisfação". Quando usado sob a forma "disforia de género" refere-se aos sentimentos de descontentamento e/ou dissociação em relação ao sexo ou ao género associado ao sexo que foi atribuído à nascença de uma pessoa. É o fator motivador principal das pessoas que fazem a transição. É também o nome do atual disgnóstico que se faz às pessoas trans que queiram iniciar a transição clínica [ver: Sexo atribuído à nascença, Transição]

Drag: performance durante a qual um indivíduo usa roupas, acessórios e adota maneirismos (geralmente de forma exagerada) associados ao sexo oposto ao qual se identifica. As performances de drag incluem cross-dressing, mas nem todos os cross-dressers fazem performances de drag. Não está relacionado com a identidade de género de um indivíduo. [ver: Cross-dresser]

Estrogénio: grupo de hormonas sexuais associadas ao sexo feminino. São produzidas principalmente pelos ovários e, em menores quantidades, pela glândula suprerrenal, fígado ou outros tecidos. O estradiol, um dos tipos de estrogénio, é a hormona mais usada na terapia hormonal feita pelas mulheres trans [ver: Terapia hormonal]

Expressão de género: manifestações externas do género de um indivíduo. Podem tomar a forma de estilos de roupa, maneirismos, posturas, nome próprio, pronomes, etc. Servem para comunicar à sociedade o nosso género (podendo estar, ou não, de acordo com os papéis de género que uma dada sociedade atribui a cada um dos géneros). [ver: Papéis de género, Identidade de Género, Género] 

FTM: Female-To-Male. Sinónimo de homem/rapaz trans. [ver: Homem/rapaz trans]

Genderqueer: termo usado por algumas pessoas que não se identificam com nenhum dos dois géneros tradicionalmente aceites socialmente (homem ou mulher). Também usado por indivíduos que rejeitam por completo o binário de género e se recusam a definir-se com base neste. Pode ser usado (consoante a pessoa) como sinónimo de género não binário. [ver: binário de género, Género não binário]

Género: localização de um indivíduo relativamente aos eixos da identidade de género e sexo. [ver: Identidade de género, Sexo] 

Género não binário: categoria de género que não se enquadra dentro dos dois géneros pré-definidos pelo sistema de género binário em vigor na sociedade atual. Os indivíduos que pertencem a um género não binário não se conseguem identificar como nenhum dos dois géneros de forma exclusiva ou de todo, podendo até rejeitar por completo o sistema binário e definirem-se independentemente dos dois referenciais binários [ver: Binário de género, Genderqueer]

Homem/rapaz trans: indivíduo cujo sexo atribuído à nascença foi o sexo feminino, mas que se identifica como pertencente ao sexo masculino. Sinónimo de FTM. [ver: FTM]

Identidade de género: identificação pessoal, subjetiva e autonomamente determinada que cada indivíduo tem relativamente ao seu género. Pode, ou não, estar de acordo com o género associado ao sexo que lhe foi atribuído à nascença [ver: Sexo atribuído à nascença, Papéis de género, Género].

Inibidores hormonais: medicação usada para inibir o efeito das hormonas sexuais. São usados, principalmente, durante a terapia hormonal feita pelas mulheres trans para bloquear a ação da testosterona. Não confundir com bloqueadores de puberdade [ver: Bloqueadores de puberdade, Estrogénio, Terapia hormonal] 

Intersexo: indivíduo portador de diferenças congénitas nas características sexuais físicas (relativamente às características associadas ao sexo masculino ou feminino). Pode manifestar-se como variações cromossómicas, variações na expressão genética, variações hormonais ou nos órgãos reprodutores do indivíduo. (adaptado de: Organization Intersex International - What is intersex? )

Marcador de sexo: referência, em documentação variada ou formulários, ao sexo atribuído (ou re-atribuído) a um indivíduo. Em Portugal apenas são permitidos os marcadores M (masculino) ou F (feminino). [ver: Transição legal]

MTF: Male-To-Female Sinónimo de mulher/rapariga trans. [ver: Mulher/rapariga trans]

Mulher/rapariga trans: indivíduo cujo sexo atribuído à nascença foi o sexo masculino, mas que se identifica como pertencente ao sexo feminino.

Orientação sexual: refere-se ao(s) género(s) pelo(s) qual(is) uma pessoa se sente atraída. Não tem qualquer intervenção da identidade de género de uma pessoa. [ver: Identidade de Género]

Papéis de género: conjunto de características, traços de personalidade, gostos ou estilos associados (e culturalmente impostos) a um género. Variam muito consoante a localização geográfica e temporal de uma dada sociedade/cultura. [ver: Género]

Queer: rótulo que pode englobar qualquer variação da orientação sexual, identidade de género, expressão de género ou vivência que, de alguma forma, rompa com as normas e pressupostos da sociedade em relação à forma como as relações inter-pessoais (principalmente afetivas, românticas e/ou sexuais) são vividas. Devido à abrangência extrema deste rótulo, é impossível defini-lo de forma mais concreta.

Sexo: sistema de classificação tendo como base características geno ou fenotípicas de um indivíduo. Os indivíduos podem ser classificados, geralmente, como sendo do sexo masculino ou feminino. 

Sexo atribuído à nascença: refere-se à classificação que é imposta a um indivíduo, no momento do seu nascimento, como pertencente ao sexo masculino ou sexo feminino. Esta classificação é feita, na maior parte dos casos, com base na aparência dos órgãos genitais visíveis externamente. 

Perturbação de identidade de género: nome do diagnóstico que se fazia formalmente às pessoas trans que queriam iniciar a transição clínica. Este termo ainda é usado por alguns profissionais de saúde, apesar de já ser considerado desatualizado, tendo sido substituído pelo termo "disforia de género" [ver: Disforia, Transição clínica]

Terapia hormonal: utilização de hormonas em contexto clínico/terapêutico. É bastante comum entre a população transsexual, sendo usada com o objetivo de desencadear mudanças físicas que aproximem o corpo da pessoa ao corpo correspondente ao género com o qual a pessoa se identifica. 

Testosterona: hormona sexual associada ao sexo masculino. É secretada principalmente pelos testículos e, em menores quantidades, pelos ovários e pela glândula suprarrenal. É a hormona usada na terapia hormonal feita pelos homens trans [ver: Terapia hormonal]

Trans: diminutivo de transgénero ou transsexual. Normalmente (mas nem sempre) usado como sinónimo de transgénero.[ver: Transgénero, Transsexual]

Transfobia: medo, aversão e/ou intolerância em relação a pessoas trans ou percecionadas como tal. É o principal fator responsável pela discriminação e violência dirigida a pessoas trans.

Transgénero: termo abrangente que inclui qualquer pessoa que, por qualquer razão, não se identifica com o género associado ao sexo que lhe foi atribuído à nascença. Pode, ou não, fazer algum tipo de transição [ver: Sexo atribuído à nascença, Transição]

Transição: conjunto de etapas que uma pessoa trans faz com o objetivo de aliviar a sua disforia e poder viver como um indivíduo pertencente ao género com o qual se identifica. Pode envolver etapas clínicas, sociais e/ou legais. [ver: Trans, Disforia, Transição clínica, Transição legal, Transição social]

Transição Clínica: conjunto de etapas clínicas feitas no âmbito de uma transição. Pode incluir apoio psicológico, intervenções hormonais, intervenções cirúrgicas ou outro tipo de procedimentos médicos que tem como objetivo aliviar a disforia de uma pessoa trans. [ver: Transição, Terapia hormonal, Cirurgias de reconstrução genital, Disforia]

Transição legal: mudança de nome próprio e do marcador de sexo no registo civil, obtenção de um novo assento de nascimento com o nome corrigido e modificação de quaisquer documentos que tenham de ser atualizados com o nome e/ou marcador de sexo corrigidos. [ver: marcador de sexo]

Transição social: conjunto de etapas que uma pessoa trans faz com o objetivo de poder viver socialmente como uma pessoa pertencente e aceite socialmente como pertencente ao género com o qual se identifica. Pode incluir a adoção de um novo nome próprio, mudança dos pronomes usados para se referenciar a si própria, mudanças na aparência, estilos de roupa, maneirismos (de forma a ficarem congruentes com os papéis de géneros associados ao género com o qual a pessoa se identifica), etc. [ver: Papéis de género]

Transsexual: indivíduo que não se identifica com o género associado ao sexo que lhe foi atribuído à nascença. Frequentemente descrevem sentir disforia de género e fazem algum tipo de transição com o objetivo de aliviar essa disforia. [ver: Sexo atribuído à nascença, Disforia, Transição]


on domingo, 12 de abril de 2015
Aqui está a 2ª parte da série "Perguntas Frequentes". Podem consultar a 1ª parte, referente a questões mais ligadas à transição clínica e legal, aqui. 

Só depois de ter acabado de redigir este post é que me ocorreu que a ordem dos posts das "Perguntas Frequentes" devia ter sido ao contrário. Este contém mais perguntas vindas de pessoas que ainda estão na fase de questionamento e descoberta da sua identidade, só avançando para a transição propriamente dita (que é o tema da primeira parte desta série) mais tarde. Mas pronto, agora fica assim.

Também me lembrei que, sendo um homem, frequento maioritariamente espaços para homens trans. Podem haver questões que surjam com mais frequência entre as mulheres trans, mas eu nao tenho acesso a isso porque não costumo frequentar espaços exclusivamente femininos. Portanto acho importante deixar esta nota e reconhecer o enviesamento na minha perceção do que são as perguntas mais frequentes.



Comecei a pedir às pessoas para mudarem o nome e pronomes que usam comigo, mas sinto-me mal/constrangido quando o fazem. O que é que isto significa?
Significa que velhos hábitos são difíceis de ultrapassar. Depois de passarmos uma vida inteira a sermos tratados por um nome, é estranho de repente isso mudar. Podemos estranhar o novo nome (mesmo sendo um nome que nós próprios escolhemos), podemos sentir que as pessoas só o usam para nos "fazer o favor", podemos sentir que é algo forçado e que estamos a ser um inconveniente para as outras pessoas. Tudo isto é normal e passa com o tempo, à medida que nos habituamos. 
Normalmente as pessoas que colocam esta questão estão preocupadas porque pensam que isto pode significar que, na realidade, mudar o nome foi um erro e que não são mesmo transexuais. Isto pode corresponder à realidade em alguns casos, caso não se sintam bem com qualquer um dos passos da vossa transição, parem e pensem bem se é aquilo que vos faz sentir bem antes de avançar mais. No entanto, na maioria dos casos que vejo, é apenas uma questão de insegurança e dificuldade em ultrapassar o hábito do antigo nome. Passado algum tempo as pessoas já me dizem que afinal está tudo bem e que se sentem mal é quando alguém lhes trata pelo nome anterior.


Não planeio fazer qualquer modificação aos meus genitais. Será que sou mesmo trans?
relacionada com:
Ainda não modifiquei os meus genitais, mas consigo ter relações sexuais/masturbar-me, ter prazer e atingir o orgasmo. Significa isto que na realidade não serei mesmo trans?
ou, mais genericamente:
Eu não rejeito por completo o meu corpo. Serei mesmo trans?
Sim, é possível estarmos bem com os nossos genitais (ou outras partes do nosso corpo) e ser transexual. Ao contrário do que é divulgado em quase tudo o que é sítio, ser transexual não significa que odiamos o nosso corpo, ou que sintamos que estamos no "corpo errado". Há pessoas que se identificam com este tipo de narrativa, mas não é uma regra, e há cada vez mais pessoas trans que parecem rejeitar este tipo de descrição para si próprias. Este tipo de ideia continua a ser reforçado hoje em dia porque é uma forma "fácil" de a população cis compreender e normalizar a nossa existência - é mais fácil dizer que as pessoas trans estão no corpo errado do que admitir que nem todas as pessoas encaixam nas expectativas anatómicas do que é um homem ou uma mulher. É o mesmo problema associado à palavra "disforia" que é descrita como um "ódio ao corpo", quando na realidade é algo mais complexo e com mais tons de cinza do que isso.
Na realidade, cada pessoa trans tem a sua própria relação com o seu corpo. Há quem sinta que realmente está num corpo totalmente errado, mas também há quem não rejeite por completo todas as características sexuais primárias ou secundárias. 


Eu tenho gostos muito femininos/masculinos, será que sou mesmo um homem/mulher trans?
Os nossos gostos pessoais nada têm a ver com a nossa identidade de género. É possível um homem gostar de usar vestidos cor-de-rosa e uma mulher entender imenso de mecânica automóvel. Esse tipo de papeis de género é algo completamente artificial e que não revela nada sobre a nossa identidade nem retira legitimidade à nossa masculinidade ou feminilidade. Não há nada de errado em gostar de coisas que a sociedade define como sendo do "sexo oposto", e não é por sermos transexuais que temos de obedecer a essas regras artificiais e arbitrárias. 


Tenho imensas dúvidas em relação a aquilo que preciso (ou não) na transição. Sinto que essas dúvidas retiram legitimidade à minha identidade. Serei mesmo trans?
Esta é das questões que mais me faz ferver o sangue - não por causa da pessoa que colocou a pergunta, mas pelo o que levou a pessoa a ter esta dúvida. Não, ninguém é "menos" trans por ter dúvidas. Ter dúvidas é extremamente normal e expectável, e é horrível existir este mindset de que nós temos de ter 100% de certeza de tudo o que precisamos para nos sentirmos "legítimos". Ter dúvidas, por si só, pode ser algo que nos consome e aterroriza durante este processo, mas pior que isso é começarmos a questionar a nossa própria identidade porque "não é suposto" termos dúvidas. É normal ter dúvidas em relação à nossa identidade, em relação à terapia hormonal, em relação às cirurgias, em relação a qualquer passo do processo de transição. A transição é algo sério e que muda a nossa vida, por vezes de forma irreversível - estranho seria se não tivéssemos dúvidas! Duvidar é bom, faz-nos pensar, ponderar bem e procurar as melhores soluções para os problemas. 
Portanto, se tiverem dúvidas, não se sintam inibidos. Falem com as pessoas, procurem informação e mantenham a mente aberta para as respostas que forem descobrindo. 


Quando era criança não sabia que era trans/não insistia com os meus pais que pertencia ao sexo oposto/tinha comportamentos típicos do género que me foi atribuído. Serei mesmo trans?
Nem todas as pessoas trans sabem que o são desde a infância. Normalmente este "estereótipo" da pessoa que sabe que é trans e que reza a deus para que lhe cresça (ou caia) a pilinha desde os 5 anos é apenas isso - um estereótipo. É algo que aparece em quase tudo o que é reportagem ou documentário sobre o assunto porque é muito mais fácil criar empatia por uma criança (cuja transexualidade é vista como algo inquestionavelmente inato e inocente) do que por um adulto (que é visto como um pervertido ou mentalmente perturbado). Já vi também algumas pessoas trans a confessarem que, embora não saibam desde pequeninas, dizem às pessoas o contrário numa tentativa de tentar ser mais facilmente aceites pelas pessoas à sua volta. Portanto, este é um estereótipo que parece conservar-se a si mesmo, não por corresponder à realidade, mas porque as pessoas confirmam-no mesmo que não se identifiquem com ele. 
Tudo isto para dizer que não, não é por não sabermos ou não insistirmos com os nossos pais desde crianças que deixamos de ser transexuais. 


Tenho medo que os médicos e psicólogos não me deixem avançar para a transição. Devo mentir-lhes para que me facilitem a vida?
Não. Mentir aos profissionais de saúde nunca é uma boa ideia e acaba por ser contraproducente. Existem relatos de casos em que os médicos se revelaram uns enormes idiotas e atrasaram imenso a vida a algumas pessoas mas, felizmente, esses relatos parecem ser cada vez menos e as alternativas cada vez mais. Os relatos que vejo de casos de médicos-bestas envolvem sempre o médico a "avaliar" a pessoa de acordo com critérios absurdos de masculinidade ou feminilidade, o que significa que a única forma de os persuadir seria criar uma fachada enorme que correspondesse ao que esse médico entende que é um homem ou mulher "a sério". Caso não tenham mais nenhuma alternativa, então façam o que tiverem a fazer para ultrapassar esse médico. No entanto, ao faze-lo estão a colaborar com uma pessoa que não tem o vosso melhor interesse em mente e que, caso um dia precisem mesmo da ajuda dele, provavelmente não a terão. Muito melhor será desistirem desse médico e procurarem outro. Hoje em dia já não vivemos tão isolados uns dos outros, é mais fácil encontrarmos informações sobre outros médicos e sobre opiniões dos utentes em relação aos mesmos, não precisamos de nos (nem devemos) prender a maus profissionais de saúde. 


Estou à espera para começar a terapia hormonal há imenso tempo. Há alguma alternativa que possa tomar enquanto espero?
Esta pergunta muitas vezes vem associada a "remédios caseiros" ou "suplementos naturais" que dizem aumentar os níveis de testosterona ou estrogénio da pessoa. Eu não sei até que ponto esses suplementos realmente fazem o que dizem, mas mesmo que tenham algum efeito esse será residual e nunca se comparará aos efeitos da terapia hormonal. E, provavelmente, serão caros. O melhor é não gastar dinheiro e expectativas com esse tipo de alternativas.


Posso, legalmente, usar o WC concordante com o género com o qual me identifico?
Em Portugal não há nenhuma lei que regule esta questão. O ideal para escolher o WC onde vamos é usar senso comum. Quem é visto pelas outras pessoas, consistentemente, como o género com o qual se identifica poderá frequentar espaços específicos do género com o qual se identifica (ex: as pessoas vêm-me como um homem, portanto eu posso ir ao WC masculino sem problemas). No entanto, se a maioria das pessoas não vos vir como pertencentes ao vosso género, entrar num WC concordante com o vosso género pode ser perigoso.


Ás vezes as pessoas (amigos, familiares) fazem-me perguntas invasivas. Como é que respondo a isto?
Responde da forma que te sentires mais confortável. No entanto tem em conta que, lá por sermos transexuais, não temos a obrigação de sermos um recurso de informação sempre disponível para as outras pessoas. Temos as nossas próprias reservas e limites de paciência para responder e explicar as nossas vidas ou escolhas a outras pessoas. Nós não temos de nos justificar a toda a gente, não temos de ter a validação de toda a gente nem temos de ser ativistas se não quisermos. Portanto, cabe a cada um decidir que informação quer revelar sobre si próprio ou sobre a questão da transexualidade em geral. 
on quinta-feira, 9 de abril de 2015
Já faz alguns anos desde que comecei a interagir com outras pessoas trans, maioritariamente via online. A maioria dos locais que existem são locais de apoio e inter-ajuda, sítios onde as pessoas podem colocar as suas dúvidas e expor problemas que tenham relacionados com a sua transição. Ao longo do tempo, fui-me apercebendo que algumas questões surgem com mais frequência que outras. Vou deixar aqui uma compilação das perguntas e dúvidas que vejo mais vezes colocadas, em nenhuma ordem em particular.

Nota: este post está dividido em 2, um com questões mais "práticas" referentes ao processo clínico e legal, e outro com questões mais relacionadas com a identidade da pessoa ou com a forma como cada um experiencia a sua vida como pessoa trans.
Este post refere-se aos aspetos práticos da transição. O segundo post chegará dentro dos próximos dias (*) O segundo post pode ser lido aqui. 



Como é que é o processo clínico? E como é que o inicio?
O percurso de cada pessoa pode variar de acordo com as necessidades de cada um mas, no geral, segue uma ordem do tipo: avaliações, hormonas, cirurgias.
A primeira coisa a fazer para iniciar tudo é marcar uma consulta de sexologia num hospital ou clínica que ofereça esse serviço. Para tal, servem hospitais e clínicas privadas ou, caso queiram ir pelo Serviço Nacional de Saúde (SNS), precisam de ser referidos para lá por outro profissional de saúde (um médico de família, por exemplo).


No SNS, os hospitais que têm consultas de sexologia são:
- em Lisboa: Hospital de Sta Maria, Hospital Júlio de Matos
(podem encontrar mais alguma informação aqui)


O que se segue são consultas de sexologia clínica com um psicólogo e/ou um psiquiatra para avaliar a vossa situação pessoal, fazer as avaliações psico-técnicas necessárias e, após ser concluído o diagnóstico, é-vos dado o relatório e facilitado o acesso aos passos seguintes.

Normalmente o passo seguinte (ou em simultâneo com as avaliações, em alguns casos) é a terapia hormonal. Para tal, precisam de ir a um endocrinologista. Este pode pedir-vos um ou dois relatórios; caso peça dois, estes têm de ser elaborados por duas equipas diferentes. Após alguns exames fisicos e análises, é-vos receitada a medicação necessária para a terapia hormonal (testosterona no caso dos homens, ou estrogénio e inibidores de testosterona no caso das mulheres) e podem começa-la de imediato.

Depois de tudo isto, vêem as cirurgias. Dependendo da cirurgia que querem e do vosso cirurgião de eleição, os timmings e requisitos podem variar. Por exemplo, há quem faça mastectomias sem exigir que a pessoa esteja a fazer terapia hormonal, e há quem só as faça após um tempo definido (ex: 6 meses) após o início da terapia hormonal. Cada cirurgião tem os seus critérios e as suas razões. O ideal nesta fase é procurar informação sobre as opções que têm e entrar em contacto direto com os cirurgiões para tirar as dúvidas que tiverem. 

Esta "ordem" não é universal. Há quem faça algumas partes do processo por outra ordem, há quem "salte" passos, há quem nunca faça alguns deles. A transição (os procedimentos e os timmings entre eles) deve ser moldada às necessidades de cada um.


O que é que preciso de fazer para mudar de nome?
Precisas de ter nacionalidade portuguesa, ser maior de idade e ter um diagnóstico de "perturbação de identidade de género". São esses, basicamente, os requisitos impostos pela atual lei de identidade de género. Os dois primeiros pontos são fáceis, a parte do diagnóstico é que costuma causar alguns problemas. A lei exige que apresentemos um relatório clínico que comprove esse diagnóstico, sendo que o relatório tem de ser subscrito por, pelo menos, um médico e um psicólogo. Isso significa que temos de andar em consultas e fazer as avaliações que nos exigirem, até que a equipa que nos acompanha considerar que já podemos mudar de nome; este passo pode ser fácil ou não, dependendo muito da situação pessoal de cada um e dos profissionais de saúde que nos acompanham.

A lei também menciona um requerimento de alteração de sexo e nome próprio, mas esse documento, normalmente, pode ser elaborado pelo pessoal da conservatória onde forem. 

Tendo esse diagnóstico feito, basta pegar no relatório (que vos deve ser dado pela equipa que vos acompanha), dirigirem-se a qualquer conservatória do registo civil e fazem o pedido, que deve ser respondido dentro dos 8 dias seguintes.


Que cirurgias é que tenho de fazer para poder mudar de nome?
Nenhuma. A lei de identidade de género não menciona, em local nenhum, a necessidade de cirurgias ou outras intervenções clínicas. Só precisas mesmo de ter o relatório que comprove que tens um diagnóstico de "perturbação de identidade de género".


O que é que preciso para iniciar a terapia hormonal?
Precisas de ter acesso a um endocrinologista e, pelo menos, uma avaliação concluída. Alguns endocrinologistas exigem duas avaliações, outros apenas uma. Caso sejas encaminhado para endocrinologia diretamente das consultas de sexologia, não deves ter de te preocupar com isso, uma vez que essa informação deve chegar ao endocrinologista facilmente. 


Quanto tempo é que demora entre o início do processo e a terapia hormonal?
Depende muito de caso para caso. O maior fator de atraso costuma ser as avaliações com a equipa de sexologia (ou, no caso do SNS, as filas de espera que podem durar meses). Sem a autorização dessa equipa, não podemos avançar. Há quem consiga concluir essa etapa em poucos meses, há quem demore até 2 anos. Felizmente, a convenção de nos obrigar a esperar 2 anos começa a desaparecer, mas ainda vejo algumas pessoas a dizer que tiveram de passar por isso recentemente. 


Quanto tempo dura a terapia hormonal?
Não existe tempo limite para a terapia hormonal. Para a maioria das pessoas, é algo que dura a vida inteira. As razões para isto são: 
1) só assim é possível manter todos os efeitos masculinizantes ou feminilizantes, uma vez que há efeitos que revertem caso paremos a terapia hormonal;
2) caso optemos por remover os gónadas (ovários ou testículos), torna-se imperativo continuar a terapia hormonal, uma vez que sem ela o nosso corpo fica desprovido de qualquer hormona sexual, o que pode ter consequências graves para a nossa saúde a médio e longo prazo.


A medicação da minha terapia hormonal é injetável, quem é que me pode dar a injeção?
Qualquer pessoa que tenha treino para dar injeções intramusculares pode ajudar-vos neste aspeto. Normalmente, as pessoas dirigem-se a:
) centros de saúde, onde podem marcar consultas de enfermagem;
) quartéis de bombeiros: já vi pessoas a dizer que lá também o fazem, algumas pessoas reportam que não pagam nada, outras dizem que pagam um preço simbólico pelo serviço;
) familiares: quem tem médicos ou enfermeiros na família resolve o problema facilmente;
) elas próprias: há quem peça a algum profissional de saúde que lhes ensine a fazer as injeções em casa e, depois de algum treino, fazem-nas sem intervenção de mais ninguém.


O que é que preciso para fazer as cirurgias?
Como mencionei mais acima, a resposta a esta pergunta vai depender do tipo de cirurgia e do cirurgião. O ideal é falar com os cirurgiões e perguntar-lhes diretamente o que é que é preciso fazer.

No entanto, caso queiram seguir pelo SNS, vão precisar da autorização da ordem dos médicos para poderem avançar para as cirurgias de reatribuição sexual. Para tal, devem ter dois relatórios clínicos, elaborados por duas equipas de sexologia diferentes. A equipa que vos acompanha deverá ajudar-vos a fazer o pedido para a ordem dos médicos.  


Quanto é que tenho de pagar durante o processo?
A transição é considerada como algo necessário para as pessoas trans e, portanto, é comparticipada pelo estado português. As consultas de sexologia e as avaliações são gratuítas, assim como as consultas de endocrinologia e as cirurgias (temos de pagar as taxas moderadoras, mas tudo o resto está coberto pelo estado). 

A medicação é apenas parcialmente comparticipada, mas é barata. No caso dos homens, normalmente usa-se Testoviron Depot ou Sustenon, ambos com o preço de €4.01 por dose de 1mL (que normalmente é administrada a cada 3 ou 4 semanas - ou seja, só gastamos €4.01 a cada 3 ou 4 semanas). Existem outros tipos de medicação, nomeadamente formulações de testosterona em gel, que são mais caras (ficando a cerca de €46.36 por mês), mas são muito menos comuns.
Em relação à medicação para as mulheres, não tenho a certeza de quanto custará por mês. Uma pesquisa no site da Infarmed diz-me que uma caixa de Estrofem fica a €2.49 por mês, mas não sei ao certo se é esse que se usa com mais frequência em Portugal, nem faço ideia do que usam como inibidor de testosterona. Se alguém tiver informação sobre isso pode deixar um comentário e eu tratarei de atualizar essa info aqui. 

O que fica mais caro costuma ser a mudança de nome, que exige um pagamento de €200. É possível evitar este pagamento, caso tenham um atestado de insuficiência financeira passado pela vossa junta de freguesia.


Devo seguir pelo sistema nacional de saúde ou pelo privado?
Depende do dinheiro que tenhas disponível versus o tempo que estás disposto a esperar. Pelo SNS, o processo costuma ser bastante mais lento, as filas de espera são grandes, no entanto é quase tudo gratuito. Por outro lado, caso tenhas dinheiro para pagar consultas num hospital ou clínica privada, consegues fazer tudo com maior brevidade.




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(*) sim, eu sei que, post sim post não, digo que vou fazer outro post relacionado com aquele que estão a ler no momento. Isto tem vindo a tornar-se um vício, mas é algo que não consigo evitar. Os assuntos puxam sempre outros assuntos, e seria impraticável dar asas a todos os assuntos relacionados ou tangentes que vou tocando. Os posts que eu tenho dito que "vão ser feitos no futuro" estão, efetivamente, a ser feitos. Só que são tantos que vão aparecendo lentamente. 




on domingo, 16 de novembro de 2014
Há dois dias mostraram-me um artigo de 'opinião' publicado na edição online de um jornal nacional que, volta e meia, não é opinião coisíssima nenhuma - é pouco mais do que um vómito de preconceitos do autor. Se alguém quiser ler esse atestado de ignorância, pode lê-lo aqui (não se preocupem que ao clicar nesse link não estão a dar mais tráfego ao site do jornal). Eu pensei em fazer um post ressabiado a criticar cada frase desse artigo, mas vou tentar fazer algo mais útil e atacar a raiz do problema.

O grande problema aqui parece ser o velho problema que sempre existiu entre a população em geral em relação à transexualidade: não nos vêem como homens ou mulheres e portanto consideram a transição como algo que, na melhor das hipóteses é apenas estético, na pior das hipóteses é uma mutilação e que nós devíamos é ser todos internados num hospital psiquiátrico. 

Começando pelas bases: um homem trans é um homem, uma mulher trans é uma mulher, independentemente da sua anatomia, expressão, personalidade, ou qualquer outro fator (o mesmo se aplica para pessoas fora dessas duas opções). Não faz sentido sequer questionar uma coisa destas porque não existe maneira de "medir" a identidade de uma pessoa, não existem critérios objetivos para avaliar a masculinidade ou feminilidade de alguém. As tentativas de "desenrrascar" esses critérios normalmente caem no determinismo biológico - "se nasces com um genótipo ou fenótipo normativamente masculino, és um homem e ponto final" - o que, além de ignorar toda a diversidade natural dentro da nossa espécie, é um critério arbitrário e obosleto. Não havendo critérios, a única opção é confiar na pessoa que declara a sua identidade como masculina/feminina/outra, tendo em conta que mais ninguém conhece melhor aquela pessoa do que ela própria. 

A identidade de género de alguém não é mensurável e, mesmo que fosse, não haveria qualquer interesse em pôr isso em causa porque é algo que apenas diz respeito à própria pessoa. 

No entanto, uma enorme parte do problema que as pessoas têm com a população trans estende-se não apenas à identidade por si só, mas ao que a pessoa trans decide fazer em relação a isso. Tudo à volta da transição é algo completamente alienígena e estranho à maioria das pessoas, portanto a maioria limita-se a ficar na ignorância e cede aos seus próprios preconceitos para formar uma "opinião" sobre o assunto. 

Por muito que as pessoas achem estranho, um facto é que a transição não é algo apenas estético, não é um capricho nem uma "maluqueira" que passa pela cabeça das pessoas trans. Se a palavra das próprias pessoas trans não for totalmente convincente (raramente o é, infelizmente), existem várias entidades médicas que reconhecem a transição como uma necessidade médica: a American Psychological Association "reconhece a eficácia, vantagens e necessidade médica da transição de género" e acrescenta que apoia a facilitação do acesso destas pessoas a cuidados médicos apropriados (ex: incentivando as seguradoras e o estado a cobrirem estes cuidados), à mudança da identidade legal, à não discriminação e à integração das pessoas trans na sociedade. A American Medical Association tem uma opinião semelhante, dizendo que existem provas suficientes para considerar a transição (incluindo tratamentos hormonais, cirurgias, etc) com algo benéfico e necessário às pessoas trans. O mesmo diz a American Psychiatric Association, a World Professional Association for Transgender Health, entre outros.

Relacionado com este ponto está o mito que diz que a transexualidade é uma doença mental. Tal também não é suportado pela maioria das entidades médicas já mencionadas. O Parlamento Europeu também concorda que a considerar a transexualidade uma doença psiquiátrica é condenável e apela aos países membros para mudarem essa classificação das vivências e identidades trans, para que simplifiquem o acesso à mudança de nome e para que os custos associados à transição sejam cobertos pelas seguradoras ou pelo estado. Está também explicitado no princípio 18 dos Princípios de Yogyakarta que a identidade de género nunca pode ser considerada uma patologia. A discriminação sofrida pelas pessoas trans pode estar relacionada com perturbações de ansiedade, depressão ou outras condições, mas isto é fruto da discriminação, não da identidade da pessoa [1]. 

A crença de que a transexualidade é uma doença mental muitas vezes leva as pessoas a pensar que é possível "curar" a transexualidade de alguém através de "terapias reparativas" ou persuadindo a pessoa trans a simplesmente "aprender a aceitar a sua identidade" (o seu género atribuído à nascença). Uma coisa que essas pessoas parecem ignorar é o facto de muitas pessoas trans terem tentado fazer precisamente isso: aceitar a sua "identidade", aprender a viver como um homem ou mulher, tentar convencer-se que não precisam de fazer a transição, que isso era uma ideia parva e que só iam estar a alimentar ilusões criadas por elas próprias. Não é algo pelo qual todas as pessoas passam, mas já vi este tipo de narrativa a ser descrito com alguma frequência entre pessoas trans (eu próprio passei por uma fase dessas). Portanto, essa ideia de "tentar aceitar o género que nos foi atribuído" não é nenhuma ideia genial, não é nada de novo nem de revolucionário e costuma ser das primeiras "soluções" que as pessoas tentam arranjar - por causa disto ainda fico admirado quando alguém propõe esta "solução" como se a ideia nunca tivesse surgido antes e nunca tivesse sido testada. 

Normalmente estas "terapias reparativas" são as mesmas que se fazem/faziam para curar a homossexualidade, e têm a mesma taxa de sucesso destas: zero. O máximo que pode acontecer é a pessoa trans reprimir a sua identidade e ficar assim "curada" de querer fazer uma transição, mas na realidade a identidade da pessoa não mudou. Esta "solução" entra diretamente em conflito com o que já foi mencionado acima sobre a transição ser algo eficaz e benéfico para as vidas das pessoas trans. Estas terapias têm sido repetidamente desacreditadas entre a comunidade médica uma vez que não nunca mostraram ser eficazes e, muitas vezes, constituem um atentado à dignidade da pessoa a ser "tratada" [2] [3] [4]. Sendo assim, essas terapias são contra-indicadas para a população trans, da mesma forma que o são para a população LGB (podendo até ser considerado como abuso de menores, caso o "alvo" da terapia seja uma criança). 

Finalmente, um dos "argumentos" que também vejo muito a ser feito por quem se opõe à transição é o dilema do "mas e se te arrependes?". Este é o único argumento para o qual eu ainda tenho alguma paciência porque não é baseado em preconceitos e por vezes é um medo real para as próprias pessoas trans. "E se eu chego a meio disto e quiser voltar para trás?" foi uma questão que me assombrou durante bastante tempo. No entanto, usar relatos de outras pessoas que se arrependeram como exemplo não é correto, uma vez que essas situações não são as mais comuns (embora recebam imensa atencão mediática, porque mais estranho do que alguém que "muda de sexo" é alguém que o faz duas vezes e que ainda dá "credibilidade" aos preconceitos da população). Na realidade, a percentagem de arrependimento é muitíssimo baixa. Por exemplo, num estudo que acompanhou 232 mulheres trans, nenhuma expressou arrependimento (dizendo até que estavam mais felizes). Aqui, entre mais de 400 pessoas, a grande maioria reportou que não se arrepende de nenhum dos passos da transição (sendo que as 3 pessoas que se arrependeram de algum passo, arrependeram-se de fazer uma histerectomia ou eletrólise, mas não se arrependeram dos outros passos). Na Europa ocidental, a taxa de arrependimento após o início do tratamento hormonal ou cirurgias ronda os 1.83%, sendo que os autores do estudo notaram é difícil distinguir entre quem se arrependeu por ter chegado à conclusão que afinal não era trans, e quem se arrependeu devido a pressões sociais, familiares e discriminação em geral. 

Ao longo deste texto tentei ir citando fontes credíveis para justificar o que disse (os sites e artigos são quase todos acessíveis ao público e, os que não são, têm a informação citada disponível no abstract) porque considero importante ter alguma fundamentação quando tento construir um argumento com pés e cabeça. Não podemos confiar nas opiniões de gente ignorante e que não faz qualquer esforço real para se informar mas que, apesar disso, age como se tivesse conhecimento ou opiniões relevantes nesta discussão. 

Eu também ia abordar outros temas relacionados com as várias intervenções médicas ou tratamentos hormonais (visto que também ainda existe uma quantidade enorme de desinformação a circular sobre os mesmos) mas este post está a ficar demasiado grande. Portanto, fica aqui o lembrete para o fazer num post futuro. 

Entretanto, caso queiram opiniões relevantes e factos sustentados e verificáveis, tentem entrar em contacto com pessoas trans ou associações sérias que lidem com o assunto. Além disso, o google é vosso amigo (sempre com uma pitada de bom senso e espírito crítico) e se estiverem à procura de factos palpáveis e estudos científicos sobre o assunto, o Scholar pode ser bastante útil. Deixo também esta lista bastante grande de literatura caso alguém tenha vontade e paciência para ir lendo o que lá se encontra.