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on quinta-feira, 16 de abril de 2015
Desde que o publiquei, o post "Marterpost: Binders" tem sido, consistentemente, o post que recebe mais visitas deste blog.


Por esse motivo, decidi tornar o conteúdo desse post mais facilmente acessível e partilhável offline, transformando-o num guia que podem descarregar em formato pdf (o link encontra-se no final deste post). A versão pdf foi revista e expandida (o post original deverá ser atualizado em breve) e será atualizada à medida que mais informação e/ou correções forem aparecendo. 

Se detetarem algum problema com os links de download, deixem aqui um comentário!


Download:
Guia Binders v.1 [pdf] - [preview]


on quinta-feira, 9 de abril de 2015
Já faz alguns anos desde que comecei a interagir com outras pessoas trans, maioritariamente via online. A maioria dos locais que existem são locais de apoio e inter-ajuda, sítios onde as pessoas podem colocar as suas dúvidas e expor problemas que tenham relacionados com a sua transição. Ao longo do tempo, fui-me apercebendo que algumas questões surgem com mais frequência que outras. Vou deixar aqui uma compilação das perguntas e dúvidas que vejo mais vezes colocadas, em nenhuma ordem em particular.

Nota: este post está dividido em 2, um com questões mais "práticas" referentes ao processo clínico e legal, e outro com questões mais relacionadas com a identidade da pessoa ou com a forma como cada um experiencia a sua vida como pessoa trans.
Este post refere-se aos aspetos práticos da transição. O segundo post chegará dentro dos próximos dias (*) O segundo post pode ser lido aqui. 



Como é que é o processo clínico? E como é que o inicio?
O percurso de cada pessoa pode variar de acordo com as necessidades de cada um mas, no geral, segue uma ordem do tipo: avaliações, hormonas, cirurgias.
A primeira coisa a fazer para iniciar tudo é marcar uma consulta de sexologia num hospital ou clínica que ofereça esse serviço. Para tal, servem hospitais e clínicas privadas ou, caso queiram ir pelo Serviço Nacional de Saúde (SNS), precisam de ser referidos para lá por outro profissional de saúde (um médico de família, por exemplo).


No SNS, os hospitais que têm consultas de sexologia são:
- em Lisboa: Hospital de Sta Maria, Hospital Júlio de Matos
(podem encontrar mais alguma informação aqui)


O que se segue são consultas de sexologia clínica com um psicólogo e/ou um psiquiatra para avaliar a vossa situação pessoal, fazer as avaliações psico-técnicas necessárias e, após ser concluído o diagnóstico, é-vos dado o relatório e facilitado o acesso aos passos seguintes.

Normalmente o passo seguinte (ou em simultâneo com as avaliações, em alguns casos) é a terapia hormonal. Para tal, precisam de ir a um endocrinologista. Este pode pedir-vos um ou dois relatórios; caso peça dois, estes têm de ser elaborados por duas equipas diferentes. Após alguns exames fisicos e análises, é-vos receitada a medicação necessária para a terapia hormonal (testosterona no caso dos homens, ou estrogénio e inibidores de testosterona no caso das mulheres) e podem começa-la de imediato.

Depois de tudo isto, vêem as cirurgias. Dependendo da cirurgia que querem e do vosso cirurgião de eleição, os timmings e requisitos podem variar. Por exemplo, há quem faça mastectomias sem exigir que a pessoa esteja a fazer terapia hormonal, e há quem só as faça após um tempo definido (ex: 6 meses) após o início da terapia hormonal. Cada cirurgião tem os seus critérios e as suas razões. O ideal nesta fase é procurar informação sobre as opções que têm e entrar em contacto direto com os cirurgiões para tirar as dúvidas que tiverem. 

Esta "ordem" não é universal. Há quem faça algumas partes do processo por outra ordem, há quem "salte" passos, há quem nunca faça alguns deles. A transição (os procedimentos e os timmings entre eles) deve ser moldada às necessidades de cada um.


O que é que preciso de fazer para mudar de nome?
Precisas de ter nacionalidade portuguesa, ser maior de idade e ter um diagnóstico de "perturbação de identidade de género". São esses, basicamente, os requisitos impostos pela atual lei de identidade de género. Os dois primeiros pontos são fáceis, a parte do diagnóstico é que costuma causar alguns problemas. A lei exige que apresentemos um relatório clínico que comprove esse diagnóstico, sendo que o relatório tem de ser subscrito por, pelo menos, um médico e um psicólogo. Isso significa que temos de andar em consultas e fazer as avaliações que nos exigirem, até que a equipa que nos acompanha considerar que já podemos mudar de nome; este passo pode ser fácil ou não, dependendo muito da situação pessoal de cada um e dos profissionais de saúde que nos acompanham.

A lei também menciona um requerimento de alteração de sexo e nome próprio, mas esse documento, normalmente, pode ser elaborado pelo pessoal da conservatória onde forem. 

Tendo esse diagnóstico feito, basta pegar no relatório (que vos deve ser dado pela equipa que vos acompanha), dirigirem-se a qualquer conservatória do registo civil e fazem o pedido, que deve ser respondido dentro dos 8 dias seguintes.


Que cirurgias é que tenho de fazer para poder mudar de nome?
Nenhuma. A lei de identidade de género não menciona, em local nenhum, a necessidade de cirurgias ou outras intervenções clínicas. Só precisas mesmo de ter o relatório que comprove que tens um diagnóstico de "perturbação de identidade de género".


O que é que preciso para iniciar a terapia hormonal?
Precisas de ter acesso a um endocrinologista e, pelo menos, uma avaliação concluída. Alguns endocrinologistas exigem duas avaliações, outros apenas uma. Caso sejas encaminhado para endocrinologia diretamente das consultas de sexologia, não deves ter de te preocupar com isso, uma vez que essa informação deve chegar ao endocrinologista facilmente. 


Quanto tempo é que demora entre o início do processo e a terapia hormonal?
Depende muito de caso para caso. O maior fator de atraso costuma ser as avaliações com a equipa de sexologia (ou, no caso do SNS, as filas de espera que podem durar meses). Sem a autorização dessa equipa, não podemos avançar. Há quem consiga concluir essa etapa em poucos meses, há quem demore até 2 anos. Felizmente, a convenção de nos obrigar a esperar 2 anos começa a desaparecer, mas ainda vejo algumas pessoas a dizer que tiveram de passar por isso recentemente. 


Quanto tempo dura a terapia hormonal?
Não existe tempo limite para a terapia hormonal. Para a maioria das pessoas, é algo que dura a vida inteira. As razões para isto são: 
1) só assim é possível manter todos os efeitos masculinizantes ou feminilizantes, uma vez que há efeitos que revertem caso paremos a terapia hormonal;
2) caso optemos por remover os gónadas (ovários ou testículos), torna-se imperativo continuar a terapia hormonal, uma vez que sem ela o nosso corpo fica desprovido de qualquer hormona sexual, o que pode ter consequências graves para a nossa saúde a médio e longo prazo.


A medicação da minha terapia hormonal é injetável, quem é que me pode dar a injeção?
Qualquer pessoa que tenha treino para dar injeções intramusculares pode ajudar-vos neste aspeto. Normalmente, as pessoas dirigem-se a:
) centros de saúde, onde podem marcar consultas de enfermagem;
) quartéis de bombeiros: já vi pessoas a dizer que lá também o fazem, algumas pessoas reportam que não pagam nada, outras dizem que pagam um preço simbólico pelo serviço;
) familiares: quem tem médicos ou enfermeiros na família resolve o problema facilmente;
) elas próprias: há quem peça a algum profissional de saúde que lhes ensine a fazer as injeções em casa e, depois de algum treino, fazem-nas sem intervenção de mais ninguém.


O que é que preciso para fazer as cirurgias?
Como mencionei mais acima, a resposta a esta pergunta vai depender do tipo de cirurgia e do cirurgião. O ideal é falar com os cirurgiões e perguntar-lhes diretamente o que é que é preciso fazer.

No entanto, caso queiram seguir pelo SNS, vão precisar da autorização da ordem dos médicos para poderem avançar para as cirurgias de reatribuição sexual. Para tal, devem ter dois relatórios clínicos, elaborados por duas equipas de sexologia diferentes. A equipa que vos acompanha deverá ajudar-vos a fazer o pedido para a ordem dos médicos.  


Quanto é que tenho de pagar durante o processo?
A transição é considerada como algo necessário para as pessoas trans e, portanto, é comparticipada pelo estado português. As consultas de sexologia e as avaliações são gratuítas, assim como as consultas de endocrinologia e as cirurgias (temos de pagar as taxas moderadoras, mas tudo o resto está coberto pelo estado). 

A medicação é apenas parcialmente comparticipada, mas é barata. No caso dos homens, normalmente usa-se Testoviron Depot ou Sustenon, ambos com o preço de €4.01 por dose de 1mL (que normalmente é administrada a cada 3 ou 4 semanas - ou seja, só gastamos €4.01 a cada 3 ou 4 semanas). Existem outros tipos de medicação, nomeadamente formulações de testosterona em gel, que são mais caras (ficando a cerca de €46.36 por mês), mas são muito menos comuns.
Em relação à medicação para as mulheres, não tenho a certeza de quanto custará por mês. Uma pesquisa no site da Infarmed diz-me que uma caixa de Estrofem fica a €2.49 por mês, mas não sei ao certo se é esse que se usa com mais frequência em Portugal, nem faço ideia do que usam como inibidor de testosterona. Se alguém tiver informação sobre isso pode deixar um comentário e eu tratarei de atualizar essa info aqui. 

O que fica mais caro costuma ser a mudança de nome, que exige um pagamento de €200. É possível evitar este pagamento, caso tenham um atestado de insuficiência financeira passado pela vossa junta de freguesia.


Devo seguir pelo sistema nacional de saúde ou pelo privado?
Depende do dinheiro que tenhas disponível versus o tempo que estás disposto a esperar. Pelo SNS, o processo costuma ser bastante mais lento, as filas de espera são grandes, no entanto é quase tudo gratuito. Por outro lado, caso tenhas dinheiro para pagar consultas num hospital ou clínica privada, consegues fazer tudo com maior brevidade.




_______________________________________

(*) sim, eu sei que, post sim post não, digo que vou fazer outro post relacionado com aquele que estão a ler no momento. Isto tem vindo a tornar-se um vício, mas é algo que não consigo evitar. Os assuntos puxam sempre outros assuntos, e seria impraticável dar asas a todos os assuntos relacionados ou tangentes que vou tocando. Os posts que eu tenho dito que "vão ser feitos no futuro" estão, efetivamente, a ser feitos. Só que são tantos que vão aparecendo lentamente. 




on sábado, 25 de outubro de 2014
Este post é dirigido às pessoas que recentemente descobriram que alguém que lhes é próximo é trans. Pode ser um amigo, familiar, colega, etc. Quando alguém vos conta que é trans, pode não ser claro o que é que isso significa ou como proceder em relação a essa pessoa. Ficam aqui algumas guidelines, mas tenham em conta que o ideal costuma ser perguntar à própria pessoa trans as dúvidas que tiverem em relação à situação.

Antes de tudo:
Devem aceitar e reconhecer a identidade da pessoa, independentemente de qualquer outro fator. Não interessa se a pessoa "parece" um homem ou uma mulher, não interessa se fez alguma modificação física, não interessa se essa pessoa ainda não vive totalmente como uma pessoa do seu género - não interessa. A única coisa que interessa é a identidade que a pessoa declara ter.
A pessoa que se calhar conheciam como a vossa amiga, a vossa colega, a vossa prima, é na realidade o vosso amigo, colega ou primo. Pode ser complicado, ao início, ver essa pessoa como pertencente a um género diferente daquele que sempre associamos a essa pessoa, mas é importante fazer um esforço para mudar a nossa perceção e começar a ver a pessoa pelo o que ela realmente é.

Nome e pronomes:
Tratem a pessoa pelo nome que ela pedir. É esse o nome "a sério" da pessoa, independentemente do que possa estar nos documentos. No início vai ser complicado começarem a usar o novo nome - é normal, possivelmente terão passado anos e anos a tratar essa pessoa por um nome e agora de repente têm de o mudar - mas é importante que façam esse esforço. 

Durante os primeiros tempos podem-se enganar, podem até nem dar conta que se enganaram e só se aperceberem disso quando são chamados à atenção. Quando isso acontecer peçam desculpa, corrijam o erro, e continuem a conversa. Não se ponham com explicações sobre "porque é que se enganaram" - nós não queremos saber. Normalmente as "desculpas" que usam para se enganarem no nome seguem a linha do "eu ainda te vejo como uma mulher" ou "é muito difícil para mim mudar" - a primeira é simplesmente algo que nenhuma pessoa trans quer ouvir e a segunda revela que não se estão realmente a esforçar para fazer uma coisa tão simples como mudar o nome pelo qual tratam a pessoa (o que não é assim tão difícil, é uma questão de hábito).

Provavelmente a pessoa trans vai deixar passar os deslizes iniciais com os nomes, mas isto não significa que não nos importemos com isso nem significa que vos damos luz verde para nos tratarem pelo nome errado repetidamente. 

Em relação aos pronomes, aplicam-se os mesmos princípios. Trocar de "ele" para "ela" (ou vice versa) pode ser complicado no início, mas não é nada do outro mundo. 

Um pormenor importante é usar o nome e pronomes corretos mesmo quando nos referimos à pessoa trans no passado, antes de ela vos ter revelado que é trans. Se a pessoa vos revelou que era trans aos 20 anos, o correto é usar o nome e pronomes que ela pediu mesmo quando se referem a essa pessoa quando tinha 5 anos. 


Falar sobre a pessoa trans (na sua ausência) a outras pessoas:
Nunca (nunca) revelem que a pessoa é trans a outras pessoas que não saibam. Se não têm a certeza se essa outra pessoa sabe ou não, não o mencionem. 

Quando falarem do vosso amigo/colega/familiar trans, refiram-se a ele como se referem a qualquer outra pessoa. Não digam nada que possa apontar para o facto de ele ser trans. Nada de "ele é um homem, mas..." ou "ele é mais ou menos homem" nem nada desse género. 

Usem o nome e pronomes que a pessoa trans vos pediu, mesmo quando se estão a referir a essa pessoa na sua ausência. Se a outra pessoa vos perguntar sobre algum pormenor em relação à pessoa trans (ex: perguntar se sabem o nome de nascimento da pessoa, ou que cirurgias fez), respeitem a privacidade da pessoa trans e não respondam a essas perguntas. Uma maneira de escapar a essa situação é dizer-lhes para dirigirem essas perguntas à pessoa trans em questão; uma maneira melhor é dizer que se recusam a responder porque faze-lo seria uma invasão da privacidade do vosso amigo/colega/familiar trans. 

Pode até calhar vocês não saberem qual é o nome de nascimento ou cirurgias ou outro pormenor qualquer desse género. Mas, se souberem, não usem isso como uma espécie de "trunfo" para mostrar às outras pessoas. Nada de "eu sei o nome de nascimento dele e tu não, ah-ah!", como se os pormenores das nossas vidas pessoais fossem troféus que vocês usam para impressionar outras pessoas.

Pode acontecer, principalmente se o vosso amigo/colega/familiar estiver nas fases iniciais da sua transição (assumindo que está a fazer a transição), ouvirem outras pessoas a falar dele e a referirem-se a ele pelo género errado. Nessas situações tentem corrigir o erro e digam que aquela pessoa é na realidade um homem ou mulher; não digam que é um homem ou mulher trans, apenas que é um homem ou mulher, ponto. 

As únicas exceções a isto são quando a pessoa trans vos diz que, naquela situação em particular (ex: entre familiares, entre um grupo de pessoas especifico), ainda é conhecido como uma mulher ou homem e, portanto, tem de ser tratado como tal. Isto acontece quando a pessoa trans ainda não revelou a toda a gente o seu género e estar a faze-lo por ele pode ser extremamente desagradável ou até perigoso. 


Sobre disforia:
Disforia é algo que afeta ou afetou no passado a maioria das pessoas trans. Em termos muito genéricos, pode ser definida como uma sensação de desconforto (físico, social, emocional, ou de qualquer outro tipo) com o género que foi atribuido à pessoa trans. É um bocado complicado definir disforia porque é algo que varia bastante com cada pessoa. O importante a reter aqui é que a disforia, quando está presente, é um problema real e que afeta a qualidade de vida da pessoa trans. 

Da mesma forma que não se deve gozar com qualquer outro problema sério de uma pessoa, não se deve gozar com a disforia. Também não devem descartar a disforia como se fosse um problema imaginado ou exagerado. A disforia não pode ser ultrapassada "se fizeres um esforço" da mesma forma que uma gripe não é curada "se fizeres um esforço". Não é assim que funciona. 

Reconheçam que a disforia é um problema real e tentem dar apoio ao vosso amigo/colega/familiar trans da melhor forma que conseguirem. 


Recapitulando:
) tratem o vosso amigo/colega/familiar pelo nome e pronomes que ele vos pedir
) não revelem a outras pessoas que o vosso amigo/colega/familiar é trans
) respeitem a privacidade do vosso amigo/colega/familiar
) em caso de dúvida, é sempre melhor perguntar do que fazer asneira
) usem senso comum e tratem-no como qualquer outra pessoa
on terça-feira, 9 de setembro de 2014
Update (16.04.2015): este guia está agora disponível para download em formato pdf!

Serve este post para compilar toda a informação que conseguir encontrar sobre binders, onde os obter, como os fazer, ou qualquer pedaço de informação relevante para o tema. Este post está em permanente atualização; podem contribuir e deixar mais sugestões de informação, lojas, dicas, etc nos comentários.

Índice do post:
1) Informação básica
2) Compressão com segurança
3) Dicas de utilização
4) Lojas
     4.1) Lojas europeias
     4.2) Lojas fora da europa
5) Métodos caseiros
6) Programas de troca de binders
     6.1) Acessíveis a residentes de Portugal
     6.2) Não acessíveis a residentes de Portugal
7) Outras informações e links



1) Informação básica
Como "binder" pode entender-se qualquer peça de roupa ou tecido usado para comprimir as mamas, com o objetivo de criar a aparência de se ter um peito masculino (liso). Existem diversos materiais e métodos, não existindo um "gold standard" ideal que funcione com toda a gente. 

Os binders podem ser usados por homens transexuais (que tenham mamas) com o objetivo de aliviar a disforia causada pelas mamas ou para fazer com que mais facilmente sejam vistos como homens pelas outras pessoas. 



2) Compressão com segurança
Os binders, independentemente do método ou do material usado, causam stress no nosso corpo devido à compressão da caixa torácica. Por isso, é aconselhado nunca usar um binder por mais de 8 horas seguidas. 

Ligaduras elásticas ou de compressão nunca devem ser usadas como binders, assim como fita-cola (mais informação sobre os problemas associados às ligaduras aqui). Estes métodos estão facilmente acessíveis à população em geral, mas são uma péssima ideia para comprimir o peito: restringem a respiração, não permitem a expansão do tórax, podem causar problemas respiratórios, compressão das costelas (em casos extremos podendo levar a costelas partidas), nódoas negras, etc.

Mesmo usando um material adequado, nunca se deve usar o tamanho abaixo daquele que é recomendado para a nossa estrutura corporal. Usar o tamanho abaixo pode ser tentador, mas vai acabar por provocar desconforto e provavelmente danos ao nosso corpo.

Outra má ideia é usar dois binders simultaneamente. A compressão extra do segundo binder vai causar desconforto e, mais uma vez, danos ao corpo. 

Os mesmos problemas que estão associados às ligaduras e à fita-cola também se aplicam nos casos de má utilização de um binder. 

Usar binders a longo prazo (durante anos seguidos) pode modificar ou danificar o tecido mamário permanentemente e pode comprometer os resultados de uma futura mastectomia. 

Do site do Dr. Décio Ferreira, cirurgião plástico: 
"Uma compressão no sentido perpendicular à base da mama mantendo o mamilo centrado com a mama é a correta. Pode não parecer tão eficiente e ser mais complicado de fazer mas é de facto muito vantajosa no futuro.
(...)
Quando a compressão não é bem feita o problema é maior para o transexual que para o cirurgião.
De facto na tentativa de esconder as mamas por vezes fazem uma compressão de cima para baixo e com isso vão provocar um estiramento da pele que está do mamilo para cima criando mamas em forma de saco de café. Na verdade a glândula é pequena mas nestes casos foi criado um excesso de pele que obriga à criação de cicatrizes. Para tirar a pele que está a mais e que resultou da compressão mal feita o cirurgião não tem hipóteses; tem de criar cicatrizes."



3) Dicas de Utilização
Alguns binders compridos (que cobrem o tronco todo) podem ter tendência a enrolar para cima. Uma possível solução é enfiar o binder dentro das calças ou da roupa interior.

Os binders devem ser lavados à mão e deixados a secar ao ar. É também aconselhado usar água fria durante a lavagem. Isto não é essencial para a utilização do binder, mas pode aumentar o seu tempo de vida.

Os binders feitos com materiais pouco elásticos, apesar de poderem ser mais eficazes no início, costumam ter menos tempo de vida do que os feitos com materiais mais flexíveis. 

Caso o material do binder provoque desconforto ou irritação na pele, pode-se usar uma t-shirt por baixo do binder sem que este perca eficácia.

Os binders que permitem ajustamento (ex: binders com velcro de lado) costumam ser mais fáceis de retirar, mas mais difíceis de colocar. O método adequado para os colocar costuma ser ajustar o binder antes de o vestir.

Caso não consigam vestir o binder como uma camisola normal (por cima, ou seja, enfiar o pescoço e os braços e depois deslocar o binder para baixo para tapar o peito e o tronco), tentem vesti-lo por baixo: virem o binder do avesso e de pernas para o ar, "entrem" com os pés nele e depois puxem-no para cima até ao início do tronco; daí, puxem as alças para cima e enfiem os braços no local adequado (explicação visual neste vídeo).

Para avaliar a eficácia do binder, o ideal é olharem para a vossa imagem num espelho. Se tentarem avaliar olhando para vocês mesmos (olhar para baixo, para o vosso próprio peito) vai sempre parecer que o peito é maior do que é na realidade. 

Ao comprar um binder, caso se encontrem entre dois tamanhos, o mais seguro é comprar o tamanho acima (ex: se estiver entre um S e um M, o melhor é comprar o M). Com o tamanho abaixo correm o risco de ficar com um binder demasiado apertado, desconfortável ou até impossível de vestir. 

Os homens cissexuais também não têm (ou raramente têm) um peito perfeitamente liso. É normal ter um bocado de volume no peito. 



4) Lojas

4.1) Lojas europeias

Danae
http://www.danae.info/en/female-male/tops
Holanda
Preços: 37-59 euros
Inclui modelos ajustáveis com velcro ou fecho zipper, e um binder de natação. Tem outros produtos de interesse aos homens e mulheres transexuais. 



4.2) Lojas fora da Europa
(vendem para Portugal)

Underworks
http://www.f2mbinders.com/
Estados Unidos da América
Preços: 23-30 euros
Bastante popular entre homens transexuais por ser uma das lojas com a melhor relação preço/qualidade e por serem eficazes para a maioria dos tamanhos e estruturas corporais. Têm um bom atendimento ao cliente e são trans-friendly. Têm modelos variados, incluindo um binder de natação.
Por vezes aceitam os códigos "under10" ou "aj4uw10" para obter um desconto de 10%.

GC2B
http://www.gc2b.co/
Estados Unidos da América
Preços: 30-32 euros

T-Kingdom
http://www.t-kingdom.com/
Taiwan
Preços: 23-52 euros
Bastante popular entre homens transexuais, principalmente entre os que têm mamas mais pequenas. Têm modelos ajustáveis com velcro ou fecho zipper.

Love Boat
http://www.lesloveboat.com/shop/index.php?language=en
Taiwan
Preços: 17-78 euros
Vendem outros produtos de interesse à população transexual e LGBT em geral. Têm uma grande variedade de modelos (ajustáveis, sem alças, etc) e várias marcas diferentes, incluindo um binder de natação. Têm uma secção "Plus size" com binders mais direcionados a pessoas com mamas maiores.

Mansculpture
http://www.mansculpture.com/
Estados Unidos da América
Preços: 30-52 euros

Esha
http://www.esha-taipei.net/en/gallery-4.html
Taiwan
Preços: 20-41

Além destas lojas especializadas, também se encontram binders na Amazon, no Ebay, ou em outros sites. 
Um modelo bastante popular pelo seu preço é este, que costuma ter avaliações positivas. 
Outro modelo comum no ebay e também bastante popular pelo seu preço é este. Eu já usei esse modelo durante alguns meses, e não o recomendo: não tem qualquer elasticidade, restringe a respiração e é muito desconfortável; entre usar esse modelo e usar ligaduras, quase não notei qualquer diferença. 



5) Métodos caseiros

Soutiens de desporto
O método, provavelmente, mais facilmente acessível. Consiste em usar um ou dois soutiens de desporto simultaneamente, por vezes usando um deles com o tamanho abaixo do recomendado.

Faixas de material elástico ou borracha
Também facilmente acessível, estas faixas podem ser encontradas em lojas de desporto, farmácias ou em lojas menos especializadas (lojas dos 300, chineses, etc). 

Binder caseiro #1
Explicação do método neste link

Binder caseiro #2 - usando um body-shaper (alguém sabe o nome disto em PT?)
Explicação do método neste link

Binder caseiro #3 - semelhante ao método caseiro #1
Explicação do método neste link

Binder caseiro #4 - semelhante ao método caseiro #1 e #3
Explicação do método neste link

Binder caseiro #5 - usando meias calças
Explicação do método neste link



6) Programas de troca de binders

6.1) Programas acessíveis a residentes de Portugal:

MORF Binder Exchange
http://morfuk.webeden.co.uk/binder-scheme/4585449674
Sediado no Reino Unido, enviam binders para todo o mundo. É preciso pagar os custos de envio apenas. 

Free/cheap ftm binders @ Facebook
https://www.facebook.com/groups/freeftmbinders/
Grupo no facebook para troca, oferta e venda de binders. 

FTM Garage Sale
http://ftmgaragesale.livejournal.com/
Comunidade no LiveJournal de venda, oferta e troca de binders e outros objetos de interesse à população FTM.


6.2) Programas não acessíveis a residentes de Portugal:

In a Bind
https://www.transactiveonline.org/inabind/
Só disponível para residentes dos EUA. Limitado a menores de 21 anos.

Replace The Ace
http://replacetheace.wordpress.com/binders/
Só disponível para residentes dos EUA. 

Pay It Forward
http://binderprogram.ftmaustralia.org/
Só disponível para residentes da Austrália e Nova Zelândia.



7) Outras Informações e links

The Chest Binder Review Blog
http://chestbinders.wordpress.com/
Este blog está inativo desde 2010, mas tem opiniões e avaliações sobre vários binders que ainda são relevantes hoje em dia. Pode ser útil para decidir qual binder comprar.

Este post vai sendo atualizado à medida que vou encontrando mais informação.
As informações aqui contidas vêm da minha própria experiência pessoal, das experiências de outras pessoas que usam ou usaram binders ou de profissionais de saúde (referenciados sempre que possível).

on quinta-feira, 24 de julho de 2014
Há alguns dias atrás mostraram-me um vídeo chamado "Break Free", que retrata a transição de uma pessoa de uma aparência feminina para masculina. O video está engraçado, mas lá para o meio mostra uma cena durante a qual a personagem começa a enfaixar o peito com ligaduras, com o objetivo de criar uma ilusão de ter um peito liso, masculino.



Esta é uma imagem que eu vejo demasiadas vezes para retratar homens transexuais. Quase todas as aparências de trans masculinidade trazem consigo uma cena onde a pessoa pega em ligaduras e se mete a enfaixar o peito, como se tal fosse o único método para criar um peito liso.



Este tipo de imagem é frequente porque, infelizmente, este ritual das ligaduras ainda faz parte da vida de um homem transexual. Se eu fosse contar a minha história em pormenor, as ligaduras também apareciam por lá. É bastante negativo que assim seja, porque usar ligaduras com este propósito é muito pouco saudável e pode causar problemas a curto, médio e/ou longo prazo.

Eu costumava usar ligaduras, e posso confirmar que é péssimo. Alguns dos problemas que encontrava incluíam:
- Dificuldade em respirar: as ligaduras não têm muita elasticidade, o que significa que não acompanham os movimentos de expansão da caixa torácica durante a respiração;
- Dificuldade em apertar corretamente as ligaduras: apesar de as ter usado durante algum tempo, nunca consegui atinar com o método certo para as apertar. Se apertava pouco elas caíam, se apertava demasiado passava o dia com imensa dificuldade em respirar e num desconforto enorme; pior ainda quando o tinha de fazer às escondidas, a meio do dia, num WC público;
- por falar em ligaduras a cair, era bastante comum as ligaduras saírem do sítio e desfazerem-se durante o dia (principalmente em dias mais movimentados, quando tinha de correr para apanhar um autocarro ou quando tinha de fazer algum tipo de atividade mais física);
- não são assim tão baratas a longo prazo: as ligaduras que eu usava custavam cerca de €2.5, o que parece pouco, mas quando tinha de comprar umas novas a cada duas semanas, acabava por me ficar caro caso as usasse durante um ano (2.5*2*12 = 60 euros/ano);
- paranóia constante: quando usava ligaduras estava constantemente a verificar se ainda estavam no sítio, se nenhum dos ganchos de tinha soltado ou se não se notavam debaixo da camisola;
- irritação da pele: principalmente de lado, abaixo das axilas, à mistura com suor, o material das ligaduras não era muito amigável para a pele.

Além disto, as ligaduras podem causar hematomas ou, em casos extremos, costelas partidas. Portanto, a lição a tirar daqui é: não usar ligaduras para enfaixar o peito.

Felizmente, existem alternativas. Existem vários métodos que também são eficazes para criar a ilusão de um peito liso. Não existe um único método que funcione bem com toda a gente; dependendo do tamanho do peito e da estrutura corporal de uma pessoa, certos métodos podem resultar melhor do que outros. 

Eu já experimentei vários métodos diferentes e acabei por me render aos chamados "binders" (não consigo encontrar uma tradução da palavra binder para o português). Binders são uma espécie de camisola de compressão, inicialmente foram concebidos para esconder as mamas de homens cissexuais que sofrem de ginecomastia (uma condição que leva ao crescimento de mamas em homens cis), mas rapidamente a população trans começou a usa-los para o mesmo fim. Normalmente, só se encontram binders à venda em lojas especializadas. Algumas marcas bastante populares entre homens trans são a Underworks (EUA), a T-Kingdom (Taiwan) e a Mansculpture (EUA). A única loja que eu conheço baseada na Europa é a Danae (Holanda), mas não conheço bem os binders dessa marca. 
Os binders costumam ser o método por excelência para criar um peito liso. Existem várias marcas, vários modelos e vários tamanhos para escolha; o único senão costuma ser o preço. 

Parecidos com os binders são as camisolas de compressão usadas por atletas de várias modalidades. Estas podem encontrar-se em mais locais e a preços mais acessíveis, mas normalmente não têm tanta capacidade de compressão como um binder. 

Além destes produtos, existem alguns métodos mais "caseiros".
Um soutien de desporto pode ajudar um bocado, havendo até quem use dois ao mesmo tempo para dar alguma compressão extra. No entanto, um soutien, mesmo de desporto, não é concebido para alisar por completo o peito. 

Também já vi pessoas a descrever métodos que usam faixas de neopreno, calções de compressão modificados ou outros métodos caseiros. E, se tudo o resto falhar, há sempre a estratégia de usar várias camadas de roupa ou roupa larga para disfarçar um bocado (óbvio que isto resulta melhor no Inverno do que no Verão).

Independentemente do método usado, é importante manter algumas coisas em mente. Por vezes, usar um destes métodos acaba por ser um jogo de forças entre o desconforto físico de comprimir o peito versus o desconforto psicológico (e também físico) de ter de lidar com a disforia. No entanto, caso isto provoque dor durante um longo período de tempo, considerem mudar o método ou mudar a forma como lidam com a compressão. Uma dor aguda costuma ser uma deixa para retirarem de imediato o que quer que seja que estejam a usar para comprimir o peito. Nós queremos aliviar a disforia, mas não compensa o esforço se acabarmos por partir uma costela ou por arranjar algum problema respiratório à custa disso.

É preciso também ter em atenção a quantidade de tempo seguido durante o qual temos o peito comprimido. Normalmente, aconselha-se a não usar qualquer um destes métodos por mais de 8 horas seguidas. Mesmo que estejamos confortáveis, o nosso corpo precisa de pausas para recuperar da compressão. Além disto, é importante saber que, a longo prazo (se usarmos estes métodos durante anos) pode ocorrer uma diminuição da elasticidade da pele nas zonas comprimidas, o que pode comprometer os resultados de uma eventual mastectomia. 

Para quem sua muito ou tem a pele particularmente sensível, pode ser uma boa ideia usar algum produto que diminua a fricção ou uma t-shirt por baixo do binder/camisola de compressão/soutiens múltiplos/etc. Nunca (nunca!) usem fita cola, mesmo que a vossa pele não seja sensível; a fita cola pode causar danos na pele, para além do desconforto enorme que causa (eu nunca hei de perceber como é que há gente que usa este método, mesmo que seja apenas durante performances de drag). 

O ponto fulcral costuma ser usar o bom senso. Se dói demasiado, parem e mudem o método. Se está demasiado desconfortável, ajustem ou façam uma pausa. Não testem os limites do vosso corpo. Nós estamos a tentar ficar confortáveis dentro da nossa própria pele, portanto seria altamente contra produtivo estar a induzir lesões que poderiam ser evitadas com relativa facilidade. 

Eu estou a planear fazer um post mais aprofundado sobre métodos para alisar o peito. Caso tenham alguma experiência, dica ou método que queiram partilhar, deixem um comentário aqui.