Um ator finge ser quem não é, e eu finjo que não estou a ser transfóbico

on sexta-feira, 13 de março de 2015
Pelos vistos, vai sair um novo filme este ano a contar a história de Lili Elbe, uma mulher trans dinamarquesa que foi a primeira pessoa (da qual há registos, pelo menos) trans a fazer, com sucesso, uma cirurgia de reconstrução genital. A forma como algumas pessoas estão a falar do filme como sendo "um filme sobre a primeira trans" mete-me imensa comichão por vários motivos, mas outro pequeno grande pormenor deste filme é algo que, infelizmente, ainda se vê demasiado e que acaba por anular (ou danificar significativamente) os benefícios que este tipo de representação nos poderia dar: a personagem é representada por um homem cissexual.

Seguindo as pisadas recentes de "Dallas Buyers Club" ou da série "Transparent", "The Danish Girl" é mais um filme onde uma mulher trans é representada por um homem cis. Eu podia passar o resto do post a elaborar as razões pelas quais eu acho isto bastante problemático (e vou fazê-lo, num outro post que tenho andado a cozinhar há algum tempo e que vai ser publicado quando estiver pronto), mas para já vou só fazer uma nota sobre as reações às criticas que estas escolhas de atores costumam receber.

Normalmente, quando confrontados com todos os problemas que esta dinâmica de "ator a fazer de mulher trans" levanta, as pessoas tentam defender-se dizendo que as críticas não fazem sentido porque, como atores, o trabalho deles é precisamente interpretar um papel de alguém que não são (neste caso, interpretar o papel de uma mulher). Isto não explica a razão de não terem escolhido uma mulher para interpretar... uma mulher (que por acaso é trans). Um ator ou atriz vai estar sempre a interpretar uma personagem que não é, isso faz parte da definição de "ator" mas, normalmente, os atores ou atrizes não são escolhidos ao acaso. Costuma haver um processo de seleção e, depois disso, o ator/atriz considerado mais "apto" para o papel, fica com ele. Porque é que, aparentemente, nenhuma mulher é considerada como uma boa escolha para fazer o papel de uma mulher trans? E porque é que, quando a personagem não é trans, subitamente afinal as mulheres já podem representa-la e raramente são escolhidos homens para o fazer? (normalmente quando um homem é escolhido para fazer o papel de uma mulher cis, o filme é alguma comédia parva e a escolha é feita pelo valor "cómico" da coisa, porque é hilariante ver um homem vestido de mulher, aparentemente).

No caso deste filme em particular, Eddie Redmayne (o ator que interpreta Lili Elbe) tenta justificar esta situação dizendo:

"But one of the complications is that nowadays you have hormones, and many trans women have taken hormones. But to start this part playing male you’d have to come off the hormones, so that has been a discussion as well. Because back in that period there weren’t hormones."

Isto, além de me por a pensar num passado hipotético em que realmente não existiam hormonas antes do século XX (a humanidade seria toda composta por diabéticos pré-puberescentes - cheira-me que há aqui algures um plot para um filme de sci-fi), está incorreto e continua a não ser uma justificação satisfatória. Estão a tentar convencer-nos que é impossível pegar numa mulher e, recorrendo a todas as técnicas de maquilhagem/preparação/magia hollywoodesca/etc, fazer com que ela tenha um aspeto masculino. Que a única forma de o fazer seria administrar hormonas masculinas às atrizes. Subitamente, toda a conversa de "um ator finge ser quem não é" é deitado pela janela fora, porque é impossível uma mulher conseguir fazer o papel de um homem (ou, neste caso, de uma mulher trans pré-transição). No entanto, um homem consegue fazer o papel de uma mulher, com muita mais facilidade e sem nunca sequer serem mencionados os efeitos das hormonas masculinas ou femininas. 

Em conjunto com esta mentalidade, vem também o "argumento" do "mas somos todos pessoas, independentemente do género, tu é que estás a ser sexista!" - que ignora por completo o facto de a crítica ser dirigida não só àquele filme/série/whatever em particular, mas a todo este mindset que coloca homens no papel de mulheres trans na grande maioria das representações de mulheres trans. Se fosse apenas um filme a fazer isto, okay, realmente era um bocado sexista estar a obcecar com o género do ator ou da personagem. O problema é que isto é uma situação tão comum que nem entendo como é que conseguem acusar-nos a nós (quem critica isto) de sexismo - das duas uma, ou isto revela um enorme desconhecimento da realidade (e então, provavelmente, também uma falha enorme na pesquisa sobre as realidades trans, o que depois se vai manifestar numa má história, num mau guião e numa má preparação do ator para desempenhar o papel) ou é apenas uma desculpa para justificar a transfobia e transmisoginia de quem está a fazer o filme. 

Também existem alguns casos da situação contrária: mulheres cis a intrpretar homens trans. No entanto, são mais incomuns tanto porque, ao todo, as representações de homens trans são menos numerosas e porque, pelo o que tenho pesquisado, é mais comum contratarem um homem para fazer o papel de um homem trans. Este último ponto, por si só, pode gerar imensa discussão sobre a forma como as pessoas vêem as mulheres trans versus como vêem os homens trans e permite fazer alguns comentários interessantes sobre transmisoginia (e apenas misoginia de uma forma mais geral). Isto irá ser explorado num post futuro que, como já mencionei, está ainda a ser elaborado.

2 comentários:

Jorge disse...

Olá. Já comentei neste blog anteriormente, mas gostei do post e decidi dar algum feedback mais uma vez.
Em grande parte, concordo com o teu ponto de vista. Independentemente da capacidade do ator ou atriz, existe uma "responsabilidade" da produção em dar visibilidade ao tema e evitar quaisquer tipos de transfobia e transmisoginia no processo de casting. Bem, de certeza que já estás mais dentro do assunto do que eu...

Penso que o filme sobre Lili Elbe (The Danish Girl), será mais um típico drama biográfico de Hollywood, cujo papel principal terá possivelmente várias nomeações de prémios (candidato ao Oscar?), por isso foi escolhido um actor em voga e ascensão (Eddie Redmayne). Assim, penso que neste caso, não terá sido uma situação de transfobia ou transmisoginia, mas antes uma típica jogada dos estúdios. Claro que não deixa de ser uma decisão questionável...

Por fim, queria só fazer uma referência ao filme "Transamerica", onde uma mulher trans é interpretada pela atriz Felicity Huffman.

Cumprimentos

Sandra Lopes disse...

Eu tendo a concordar com o Jorge. Não me incomoda na realidade muito qual é o género do actor/actriz que faz o papel; desde que o represente bem, em certa medida, até é mérito do actor de ter sido capaz de fazer o papel de outro género que não o seu, e o ter feito de forma convincente.

Penso também que foi uma decisão puramente mediática. Eddie Redmayne ganhou um Óscar (na altura não se sabia, mas já se calculava que assim fosse). É positivo para o filme em si que a temática seja considerada importante o suficiente para contratarem um actor vencedor de Óscares, que terá de fazer o papel difícil de um género que não é o seu.

Mas compreendo que haja muita gente que se sinta «ofendida» por esta escolha.

A propósito da história das hormonas, também me parece que a tirada do Eddie foi infeliz. Não só ele (actor) não se parece muito com a Lili, como a própria Lili, mesmo sem tomar hormonas, já tinha um aspecto razoavelmente feminino. E não é de admirar: embora não tomasse hormonas femininas, ao remover os testículos, também deixou de produzir hormonas masculinas, e, em muitos casos, isso já é uma enorme ajuda para suavizar as linhas do rosto (e do próprio corpo). Não sei, obviamente, se foi esse o caso da Lili Elbe real; apenas posso fazer este comentário olhando para as suas fotografias, mais nada.

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