"Quando é que vais fazer a operação?"

on sexta-feira, 11 de abril de 2014
Hoje vamos fazer uma pausa das definições e vamos falar da operação. Aquela cirurgia mágica e maravilhosa que resolve todos os nossos problemas e nos torna membros do sexo oposto ao que nascemos. Ou, se calhar, não será bem assim...

Desde que assumi a minha identidade como gajo, as pessoas têm tido muito mais interesse sobre o que se passa entre as minhas pernas e, sobretudo, em saber quando é que eu vou fazer a operação. Acho sempre curioso a forma como as pessoas assumem de imediato que eu vou fazer a operação, visto que a maioria me pergunta "quando" em vez de "se". Também acho curioso a forma como raramente especificam sobre que operação estão a falar e simplesmente assumem que eu sei que estão a falar sobre algum tipo de cirurgia de (re?)construção genital. É giro, por vezes, fazer-me de sonso e perguntar de volta "operação? Que operação? Não faço ideia do que é que estás a falar" - as pessoas costumam ficar embaraçadas, não querem admitir que estão a perguntar sobre os meus genitais, "sabes, tipo, a operação". Eu gosto de pensar que, por esta altura, o embaraço vem do facto de as pessoas de aperceberem que não é muito apropriado perguntar-me sobre o estado dos meus genitais. 

Portanto, para evitar mais embaraços, vamos falar da operação. 

Antes de tudo, afinal de contas que operação é essa? 
"A operação", também conhecida por "operação de mudança de sexo" (ugh), "operação aos genitais", entre vários outros nomes, pode ser qualquer tipo de cirurgia que, de alguma forma, modifique os genitais de uma pessoa para que se assemelhem (em função e/ou esteticamente) aos genitais geralmente associados ao género a que a pessoa pertence.  As mais conhecidas costumam ser a vaginoplastia (construção de uma neovagina) ou a faloplastia (construção de um neofalo). No entanto, existem diversas variantes e outros procedimentos completamente diferentes que podem ser feitos. 

Que procedimentos existem?
Existe uma série de procedimentos diferentes, cada um deles tendo as suas vantagens e desvantagens. Falar sobre as diferentes cirurgias é algo que tem pano para mangas e que, portanto, não irei abordar neste momento. O que importa tirar daqui é que não existe nenhum único procedimento cirúrgico que todas as pessoas transexuais fazem, mas sim um conjunto de opções que podem ser usadas consoante a necessidade de cada pessoa. 

Mas esses procedimentos todos servem para mudar o sexo da pessoa, certo?
Errado. A identidade da pessoa é independente de qualquer operação que tenha feito ou não. Por exemplo, se eu não tiver feito ainda nenhuma intervenção cirúrgica aos meus genitais, não é por isso que deixo de ser um homem. Nem é correto dizer que uma pessoa mudou de sexo depois de ter feito "a operação". As cirurgias são apenas uma parte (importante e essencial para algumas pessoas) do processo de transição, não são o único e definitivo momento de "mudança de sexo". Muito antes de ter uma vagina, uma mulher transsexual já era uma mulher; ela não se "torna mulher" a partir do momento que sai do bloco operatório.

Mas, [qualquer coisa sobre biologia]!
Não. Qualquer que fosse o comentário sobre biologia, provavelmente iria cair na ideia de "um homem tem de ter um pénis e uma mulher tem de ter uma vagina", quando já devia ser óbvio neste momento que nem sempre isso acontece. Antes de qualquer indicador "biológico" sexual vem a identidade da pessoa (que pode também ter uma origem biológica). Algumas pessoas nascem com características sexuais primárias fora do comum; acontece, a biologia também se engana (com mais frequência do que gostaríamos de pensar).

Então, se essas cirurgias não mudam o sexo de uma pessoa nem o definem, porque é que as pessoas as fazem?
Por várias razões, sendo a principal para aliviar a disforia. Disforia é, em termos básicos, a sensação de ter algo errado connosco, algo que não está bem com o nosso corpo e que nos baixa a qualidade de vida de forma considerável. A disforia pode manifestar-se de várias formas (desconforto médio a extremo, angústia em relação a certas partes do corpo, sensação de dissociação com o nosso corpo, mal estar generalizado, depressão, etc) e é o principal fator impulsionador para uma pessoa iniciar a transição. Uma pessoa transexual pode fazer modificações no seu corpo (entre as quais, modificações aos genitais) para aliviar a disforia e poder sentir-se melhor dentro da sua própria pele. 

Essa disforia não podia ser aliviada de outras formas? Não era mais fácil uma pessoa simplesmente aprender a aceitar-se no seu corpo "original"?
Não, essa hipótese já foi explorada no passado e já está mais que comprovado que a única solução para aliviar a disforia é aproximar o nosso corpo ao corpo "padrão" do género a que pertencemos. As tentativas de "curar" a disforia por outros meios são, na melhor das hipóteses, tentativas frustradas que não levam a lado nenhum e, na pior das hipóteses, tortura para a pessoa transexual, podendo culminar no suicídio. 

Se isso é a única solução para a disforia, então todas as pessoas transexuais fazem essas cirurgias mais tarde ou mais cedo?
Mais uma vez, não. Nem todas as pessoas modificam os seus genitais, por diversas razões. Algumas pessoas não têm acesso aos cuidados médicos necessários, outras não estão satisfeitas com os resultados das técnicas atuais, outras simplesmente sentem que não precisam desses procedimentos para aliviar a sua disforia. Como tinha mencionado anteriormente, a disforia pode-se manifestar de várias formas diferentes e, para algumas pessoas, é-lhes suficiente fazer outros procedimentos (médicos ou não) para aliviar a disforia que sentem. Isto remete para o que eu tinha dito anteriormente sobre um homem não ser definido pelo pénis nem a mulher ser definida pela vagina. Há homens que sentem que são homens completos com os genitais com que nasceram (o mesmo aplica-se às mulheres). Isto não significa que são menos homens ou mulheres, ou que são "menos transexuais", significa apenas que, aquelas pessoas em particular, não precisam de certas partes do processo para se sentirem bem. A transição não é um "tudo ou nada". Idealmente, a transição será até ao ponto em que a pessoa se sente confortável consigo mesma. 

Então, se há pessoas que sentem que não precisam, não significa isso que é possível uma pessoa aprender a viver com o seu corpo?
Não, a relação que uma pessoa tem com o seu corpo é única para cada pessoa. Não é correto pegar numa pessoa transexual (que, por acaso, sente que não precisa de nenhuma intervenção cirúrgica) e generalizar a experiência dessa pessoa para toda a população transexual. Cada pessoa é única e experiencia o seu corpo à sua maneira. A forma como cada pessoa sente a disforia e a forma como lida com isso pode ser completamente diferente de um indivíduo para outro, não sendo a experiência de uma pessoa mais ou menos válida do que a experiência de outra pessoa.

Mas muitas pessoas fazem essas cirurgias, certo? Portanto é seguro assumir que esta pessoa transexual que conheço fez ou quer fazer essas cirurgias?
Não sei dizer quantas pessoas fazem ou não essas cirurgias. Pesquisei um pouco sobre o assunto mas não encontrei nenhuma fonte sólida que me desse uma estatística sobre isto. De qualquer forma, assumir coisas sobre outras pessoas é, geralmente, uma má ideia. Além disso, o que é que interessa se essa pessoa fez ou não cirurgias? E porque é que alguém tem de assumir o que quer que seja em relação aos genitais de outra pessoa? A não ser que tencionem meter-se nas calças da pessoa trasnsexual, o que ela tem dentro dessas calças não é do interesse de ninguém. A mim, pessoalmente, incomoda-me quando as pessoas me perguntam sobre os meus genitais não só porque é uma pergunta bastante invasiva (por vezes feita por pessoas que não têm confiança suficiente comigo para estar a fazer este tipo de perguntas) mas também porque incomoda-me ver que essas pessoas reduzem a legitimidade da minha identidade de género à "operação". Mesmo que não o façam explicitamente, acabam por reforçar a ideia de que "mudar de sexo" é sinónimo de "fazer a operação". Existem tantas outras facetas, tantos outros passos, tantas outras pequenas grandes conquistas durante o processo, que estar a ver tudo isso a ser colapsado numa única operação mete-me um bocado de comichão. 

Mas eu tenho curiosidade!
É normal uma pessoa ter curiosidade em relação a assuntos que desconhece. No entanto, essa curiosidade não justifica uma invasão da privacidade de uma pessoa transexual. Se fosse outra pessoa qualquer, seria legítimo perguntar-lhe sobre os seus genitais? Seria adequado perguntar a um homem que perdeu o seu pénis num acidente, ou a uma mulher com um defeito congénito qualquer na vulva (por exemplo) sobre como é que essas pessoas se sentem em relação aos seus genitais? Seria adequado perguntar-lhes sobre que cirurgias ou tratamentos médicos é que essas pessoas fizeram ou pretendem fazer? Não, isso seria uma invasão enorme da privacidade dessas pessoas. Estar a perguntar sobre "a operação" é uma transgressão do espaço pessoal de uma pessoa transexual. Além disso, muitas pessoas transexuais não gostam de falar sobre os seus genitais porque isso lhes pode desencadear emoções extremamente negativas e, como se não bastasse ter de lidar com a disforia, podem ainda sentir que a sua identidade está a ser posta em causa e que nunca irão ser vistos como um homem/mulher "a sério" até terem feito "a operação". 

Recapitulando: as cirurgias aos genitais não são o único momento no processo de transição. Essas cirurgias podem ser (e são, em muitos casos) essenciais e importantíssimas para uma pessoa, mas não são o que define ou legitima a identidade de género da pessoa. Há pessoas que não fazem essas cirurgias, e as que fazem fazem-nas para aliviar a sua disforia e aumentar a sua qualidade de vida (podendo nunca conseguir ser pessoas felizes sem estes procedimentos).

Ficaram aqui algumas questões sobre este assunto, espero eu, esclarecidas. Caso tenham mais perguntas, estejam à vontade para deixa-las nos comentários (já agora, uma pergunta bónus: "quando é que posso fazer perguntas sobre as operações?" Quando a pessoa vos dá autorização expressa para o fazerem!)

2 comentários:

Ana Margarida Dias Duarte disse...

Acho que devem ser raras as pessoas que ainda não te fizeram esta pergunta.
Espero que saibas que apesar de todas as perguntas idiotas que te fazemos, acima de tudo queremos o teu bem estar e felicidade.

Alex disse...

Ana, yah, bastantes pessoas fazem estas perguntas, por vezes em contextos completamente inapropriados e que me apanham desprevenido - sucks. Mas não te preocupes, eu não levo a mal as perguntas que tu (ou o resto do pessoal) fazem. Sei que não o fazem por idiotice e, como já vamos tendo alguma confiança, não me é tão constrangedor falar disso. Plus, eu convosco já disse "perguntem à vontade", portanto... yah, perguntem à vontade, na boa.
Este post pode parecer que estou a mandar vir com as pessoas, mas não era bem essa a ideia. Eu normalmente não levo a mal as pessoas perguntarem (mesmo quando não lhes disse que podiam, ou mesmo que não tenha confiança com algumas pessoas), eu sou "abertamente" trans em muitos contextos, sou provavelmente a única pessoa trans que muitos dos meus amigos/colegas conhecem, portanto todas as perguntas, curiosidades e comentários sobre o assunto vão cair em cima de mim. E eu já tomei a decisão de ir respondendo às perguntas/comentários/wtv em vez de pedir a toda a gente para não dizer nada. É-me mais fácil às vezes ter de responder a algo mais parvo do que estar constantemente a tentar evadir comentários. Até porque eu próprio às vezes faço comentários sobre mim próprio (piadas parvas, principalmente) e ia ter de deixar de fazer isso caso adotasse uma posição de "don't ask don't tell". Eu tenho a sorte de me sentir suficientemente bem comigo próprio e com a minha identidade trans para conseguir falar abertamente sobre o assunto. Este post era mais em relação às pessoas que não se sentem tão bem, ou não têm paciência, para falar assim tão abertamente. Eu às vezes tenho medo que algumas pessoas, por verem que eu estou à vontade, achem que todas as pessoas trans também se sentem assim à vontade e achem apropriado fazer este tipo de perguntas, quando isso não é verdade.

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