O meu amigo é trans, e agora?

on sábado, 25 de outubro de 2014
Este post é dirigido às pessoas que recentemente descobriram que alguém que lhes é próximo é trans. Pode ser um amigo, familiar, colega, etc. Quando alguém vos conta que é trans, pode não ser claro o que é que isso significa ou como proceder em relação a essa pessoa. Ficam aqui algumas guidelines, mas tenham em conta que o ideal costuma ser perguntar à própria pessoa trans as dúvidas que tiverem em relação à situação.

Antes de tudo:
Devem aceitar e reconhecer a identidade da pessoa, independentemente de qualquer outro fator. Não interessa se a pessoa "parece" um homem ou uma mulher, não interessa se fez alguma modificação física, não interessa se essa pessoa ainda não vive totalmente como uma pessoa do seu género - não interessa. A única coisa que interessa é a identidade que a pessoa declara ter.
A pessoa que se calhar conheciam como a vossa amiga, a vossa colega, a vossa prima, é na realidade o vosso amigo, colega ou primo. Pode ser complicado, ao início, ver essa pessoa como pertencente a um género diferente daquele que sempre associamos a essa pessoa, mas é importante fazer um esforço para mudar a nossa perceção e começar a ver a pessoa pelo o que ela realmente é.

Nome e pronomes:
Tratem a pessoa pelo nome que ela pedir. É esse o nome "a sério" da pessoa, independentemente do que possa estar nos documentos. No início vai ser complicado começarem a usar o novo nome - é normal, possivelmente terão passado anos e anos a tratar essa pessoa por um nome e agora de repente têm de o mudar - mas é importante que façam esse esforço. 

Durante os primeiros tempos podem-se enganar, podem até nem dar conta que se enganaram e só se aperceberem disso quando são chamados à atenção. Quando isso acontecer peçam desculpa, corrijam o erro, e continuem a conversa. Não se ponham com explicações sobre "porque é que se enganaram" - nós não queremos saber. Normalmente as "desculpas" que usam para se enganarem no nome seguem a linha do "eu ainda te vejo como uma mulher" ou "é muito difícil para mim mudar" - a primeira é simplesmente algo que nenhuma pessoa trans quer ouvir e a segunda revela que não se estão realmente a esforçar para fazer uma coisa tão simples como mudar o nome pelo qual tratam a pessoa (o que não é assim tão difícil, é uma questão de hábito).

Provavelmente a pessoa trans vai deixar passar os deslizes iniciais com os nomes, mas isto não significa que não nos importemos com isso nem significa que vos damos luz verde para nos tratarem pelo nome errado repetidamente. 

Em relação aos pronomes, aplicam-se os mesmos princípios. Trocar de "ele" para "ela" (ou vice versa) pode ser complicado no início, mas não é nada do outro mundo. 

Um pormenor importante é usar o nome e pronomes corretos mesmo quando nos referimos à pessoa trans no passado, antes de ela vos ter revelado que é trans. Se a pessoa vos revelou que era trans aos 20 anos, o correto é usar o nome e pronomes que ela pediu mesmo quando se referem a essa pessoa quando tinha 5 anos. 


Falar sobre a pessoa trans (na sua ausência) a outras pessoas:
Nunca (nunca) revelem que a pessoa é trans a outras pessoas que não saibam. Se não têm a certeza se essa outra pessoa sabe ou não, não o mencionem. 

Quando falarem do vosso amigo/colega/familiar trans, refiram-se a ele como se referem a qualquer outra pessoa. Não digam nada que possa apontar para o facto de ele ser trans. Nada de "ele é um homem, mas..." ou "ele é mais ou menos homem" nem nada desse género. 

Usem o nome e pronomes que a pessoa trans vos pediu, mesmo quando se estão a referir a essa pessoa na sua ausência. Se a outra pessoa vos perguntar sobre algum pormenor em relação à pessoa trans (ex: perguntar se sabem o nome de nascimento da pessoa, ou que cirurgias fez), respeitem a privacidade da pessoa trans e não respondam a essas perguntas. Uma maneira de escapar a essa situação é dizer-lhes para dirigirem essas perguntas à pessoa trans em questão; uma maneira melhor é dizer que se recusam a responder porque faze-lo seria uma invasão da privacidade do vosso amigo/colega/familiar trans. 

Pode até calhar vocês não saberem qual é o nome de nascimento ou cirurgias ou outro pormenor qualquer desse género. Mas, se souberem, não usem isso como uma espécie de "trunfo" para mostrar às outras pessoas. Nada de "eu sei o nome de nascimento dele e tu não, ah-ah!", como se os pormenores das nossas vidas pessoais fossem troféus que vocês usam para impressionar outras pessoas.

Pode acontecer, principalmente se o vosso amigo/colega/familiar estiver nas fases iniciais da sua transição (assumindo que está a fazer a transição), ouvirem outras pessoas a falar dele e a referirem-se a ele pelo género errado. Nessas situações tentem corrigir o erro e digam que aquela pessoa é na realidade um homem ou mulher; não digam que é um homem ou mulher trans, apenas que é um homem ou mulher, ponto. 

As únicas exceções a isto são quando a pessoa trans vos diz que, naquela situação em particular (ex: entre familiares, entre um grupo de pessoas especifico), ainda é conhecido como uma mulher ou homem e, portanto, tem de ser tratado como tal. Isto acontece quando a pessoa trans ainda não revelou a toda a gente o seu género e estar a faze-lo por ele pode ser extremamente desagradável ou até perigoso. 


Sobre disforia:
Disforia é algo que afeta ou afetou no passado a maioria das pessoas trans. Em termos muito genéricos, pode ser definida como uma sensação de desconforto (físico, social, emocional, ou de qualquer outro tipo) com o género que foi atribuido à pessoa trans. É um bocado complicado definir disforia porque é algo que varia bastante com cada pessoa. O importante a reter aqui é que a disforia, quando está presente, é um problema real e que afeta a qualidade de vida da pessoa trans. 

Da mesma forma que não se deve gozar com qualquer outro problema sério de uma pessoa, não se deve gozar com a disforia. Também não devem descartar a disforia como se fosse um problema imaginado ou exagerado. A disforia não pode ser ultrapassada "se fizeres um esforço" da mesma forma que uma gripe não é curada "se fizeres um esforço". Não é assim que funciona. 

Reconheçam que a disforia é um problema real e tentem dar apoio ao vosso amigo/colega/familiar trans da melhor forma que conseguirem. 


Recapitulando:
) tratem o vosso amigo/colega/familiar pelo nome e pronomes que ele vos pedir
) não revelem a outras pessoas que o vosso amigo/colega/familiar é trans
) respeitem a privacidade do vosso amigo/colega/familiar
) em caso de dúvida, é sempre melhor perguntar do que fazer asneira
) usem senso comum e tratem-no como qualquer outra pessoa

1 comentários:

Sandra Lopes disse...

Muito bem! Este pequeno guia devia ser distribuído à população, começando pelas escolas e universidades, e colocado em folhetos na caixa de correio :)

Bem, mas na verdade, bem sei que isso de nada servia... :)

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