on sábado, 12 de setembro de 2015
Foi publicado ontem um artigo no dezanove a reportar o suicídio de Santiago Martinez, homem transexual com 30 anos residente em Lisboa. De acordo com o testemunho de Nicole Ferreira, amiga do Santiago, as dificuldades económicas associadas à transição, maus resultados cirúrgicos, depressão e preconceito terão sido fatores importantes para este desfecho trágico. É profundamente lamentável que se tenham reunido as condições que levaram a que o Santiago tenha optado por terminar a sua própria vida.

Notícias sobre suicídios de pessoas trans são, infelizmente, relativamente comuns. Tem havido um aumento no número deste tipo de notícias (provavelmente devido ao aumento da visibilidade e consciencialização entre a população) mas julgo ser a primeira vez que vejo algo semelhante relativo a uma pessoa portuguesa nos últimos anos. Faz pensar na quantidade de pessoas relativamente próximas que terão enveredado pelo mesmo caminho mas que permaneceram invisíveis, ou nas que poderão estar a caminho do mesmo mas que permanecem igualmente silenciosas.

Da última vez que este assunto foi mencionado no blog, referi-me a Leelah Alcorn como tendo sido vítima de transfobia. Algumas pessoas tentaram corrigir-me e dizer que não se tratava de um caso de transfobia uma vez que tinha sido a própria Leelah a tirar a sua própria vida, mas a minha opinião permanece inalterada. 

O suicídio da Leelah Alcorn, do Santiago Martinez e de todas as pessoas trans que se suicidaram devido à sua transição são casos de transfobia, crimes de ódio e negligência. 


Quando...

  • 46% e 42% dos homens e mulheres transexuais (respetivamente) tentam ou cometem suicídio [1] (comparativamente a 1.6% da população em geral[2])
  • está demonstrado que as tentativas e ideações suicidas reduzem drasticamente com a inclusão social, apoio familiar[3], acesso a cuidados de saúde adequados e facilitação da adequação dos documentos legais à identidade da pessoa [4]
  • apesar disto, as pessoas transexuais continuam a ser alvo de chacota, ridículo, "piadas" dezumanizantes, acusadas de perversão e fraude [preciso mesmo de referências para isto?]
  • a única unidade cirúrgica especializada do sistema nacional de saúde não é transparente nem com os utentes transexuais nem com os profissionais de saúde que os acompanham [5]
  • o ministério de saúde considera que a resposta atual do SNS é eficaz e adequada [5], contrastando com o desespero das pessoas transexuais que estão há anos à espera de uma resposta ou de uma chamada para cirurgia

... é-me impossível não considerar os suicídios de pessoas trans como casos óbvios e extremos de transfobia. 

As pessoas não optam por se suicidar assim do nada. Quando tal acontece é porque a pessoa já terá esgotado quaisquer outras alternativas e esperanças de uma vida melhor. Todo o clima hostil e dezumanizante em relação às pessoas trans é a causa destas mortes. São assassínios de pessoas trans por uma sociedade profundamente transfóbica que nos diz que as nossas vidas pouco ou nada valem.

As nossas vidas têm importância. O mundo à nossa volta ainda vai demorar bastante a mudar e ver isso mas, entretanto, há formas de sobreviver. Existem pequenas redes de apoio, pequenos grupos de pessoas aqui e ali, dispersos mas sempre disponíveis para ajudar. Existem pessoas a revoltar-se e a tentar construir um futuro melhor. Existe um futuro para cada um de nós.
on quarta-feira, 29 de julho de 2015
Passou-se quase um mês sem que eu tenha escrito nada para este blog. Nem nos 1001 rascunhos que tenho abertos peguei. Para mim é algo estranho, uma vez que este blog tem sido um hobbie que me consome uma parte significativa do meu tempo desde que o iniciei. 

É engraçada a forma como comecei a sentir falta de cá escrever. Quando comecei a escrever aqui fi-lo mais como forma de passar o tempo antes de conseguir iniciar a minha transição clínica. Ler e escrever sobre o assunto fazia-me sentir menos só, como se fizesse parte de algum tipo de "comunidade" e estivesse a contribuir para a mesma. À medida que o tempo foi passando, fui ficando mais exigente comigo próprio em relação ao que escrevia e fui-me apercebendo da minha própria falta de conhecimento sobre imensos temas. 

Quando escrevo alguma peça nova para o blog, tento sempre reunir informação e informar-me sobre os assuntos que abordo (mesmo quando se tratam de artigos de opinião, gosto sempre de ver as várias opiniões e tentar compreender os vários lados de um argumento). É uma tarefa cansativa, muitas vezes acaba por atrasar o desenvolvimento dos meus textos mas no final acaba por ser bastante positivo. Neste momento, a quantidade de texto que leio é muitíssimo maior em relação à quantidade de texto que escrevo sobre um determinado tópico. Tem sido ótimo não só do ponto de vista intelectual, mas também como forma de crescimento pessoal através da troca de experiências, opiniões e informação (na primeira pessoa).

No entanto, nem sempre tenho paciência para o fazer, e durante as últimas semanas ando sem grande cabeça para escrever textos adequados para este blog. Acho que estou numa altura em que questões pessoais relacionadas com a transição esgotam a maior parte da minha disponibilidade psicológica para lidar com assuntos relacionados com questões trans. Para quem tiver curiosidade sobre o que se tem passado, podem visitar um outro blog que tenho onde documento a minha transição de uma forma mais pessoal. 

Entretanto, vou começar a reiniciar o hábito de escrever aqui (mesmo que não publique, a lista de rascunhos do blog tem estado demasiado estática). Stay tuned.
on terça-feira, 2 de junho de 2015
Esta página serve como referência rápida sobre vários termos que vou usando ao longo do blog. As definições que aqui se encontram não são exaustivas ou absolutas e estão abertas a discussão. 

Se tiverem sugestões de mais palavras para incluir, sugestões de melhoramentos, ou se quiserem esclarecimentos em relação a alguma das palavras aqui contidas, fiquem à vontade para me contactarem.


(uma nota em relação à palavra "oposto": em algumas definições uso a expressão "género oposto", estando subentendido que existe uma oposição entre apenas dois géneros. Eu não acredito neste tipo de binarismo absoluto de género, mas a sociedade em geral enforça esta ideia, o que acaba por se manifestar nas palavras que usamos e nas definições das mesmas. Há palavras cuja existência parte logo do pressuposto que só existem dois géneros, tornando-se impossível defini-las sem referenciar um género "oposto" porque as definições são referentes à realidade em que estamos inseridos, que não reconhece mais géneros além dos dois "feminino/masculino". Portanto, uso a palavra "oposto" apenas quando não encontro uma forma melhor de definir algumas das palavras, não sendo minha intenção ignorar ou negar a existência de mais géneros além dos dois tradicionalmente aceites na sociedade em que estamos inseridos)

Androginia: expressão de género que não é claramente masculina ou feminina [ver: Expressão de género]

Binário de género: sistema de classificação de géneros no qual só existem duas classificações possíveis e mutuamente exclusivas: género feminino ou género masculino. É o sistema mais amplamente aceite na sociedade atual.

Bloqueadores de puberdade: medicação usada para parar a puberdade em crianças ou jovens adolescentes. Os bloqueadores de puberdade inibem temporariamente a produção de hormonas sexuais e o desenvolvimento dos órgãos reprodutores. Não confundir com inibidores hormonais [ver: Inibidores hormonais, Estrogénio, Testosterona]

Características sexuais primárias: elementos do corpo de um indivíduo que estão diretamente relacionados com funções reprodutoras (pénis, testículos, vagina, útero, ovários, etc)

Características sexuais secundárias: características que surgem num indivíduo quando este atinge a puberdade; são diferentes para indivíduos do sexo masculino ou feminino, embora não intervenham diretamente na reprodução (pêlo facial, mamas, voz, etc).

Cirurgias de reconstrução genital: conjunto de intervenções cirúrgicas que têm como objetivo modificar os genitais de uma pessoa de forma a que estes se assemelhem em função e aparência aos genitais associados ao sexo com o qual a pessoa se identifica. Não existe apenas uma única cirurgia, mas sim um conjunto de cirurgias, técnicas e opções que podem variar de acordo com as necessidades de cada pessoa [ver: Transição clínica]

Cisgénero: sinónimo de cissexual. Indivíduo que se identifica com o género associado ao sexo que lhe foi atribuído à nascença. 

Cis: diminutivo de cisgénero ou cissexual. [ver: Cisgénero]

Cisnormatividade: enviesamento social e legal a favor das pessoas cisgénero; assumção de que as identidades de género das pessoas cis são mais legítimas e reais do que as das pessoas trans e de que as pessoas cis são superiores às pessoas trans. [ver: Cisgénero, Trans]

Coming-Out: sinónimo de "sair do armário". Expressão que significa revelar a orientação sexual ou identidade de género a outras pessoas. Pode também significar a revelação a outras pessoas da nossa condição como trans (caso tal não seja óbvio). 

Cross-dresser: indivíduo que, por gosto, prazer ou entretenimento, usa roupas associadas ao género oposto ao género com o qual se identifica. Não está relacionado com a identidade de género de um indivíduo. [ver: Papéis de género]

Despatologização: ato de despatologizar. Quando usado sob a forma "despatologização trans" refere-se a uma ideologia e movimento (não formalmente definido) que reivindica a cessação da patologização das pessoas trans, a retirada da transsexualidade dos manuais de doenças psiquiátricas e o abolimento da necessidade de um diagnóstico clínico para dar acesso à transição clínica. [ver: Disforia, Transição clínica]

Disforia: sinónimo de "descontentamento" ou "insatisfação". Quando usado sob a forma "disforia de género" refere-se aos sentimentos de descontentamento e/ou dissociação em relação ao sexo ou ao género associado ao sexo que foi atribuído à nascença de uma pessoa. É o fator motivador principal das pessoas que fazem a transição. É também o nome do atual disgnóstico que se faz às pessoas trans que queiram iniciar a transição clínica [ver: Sexo atribuído à nascença, Transição]

Drag: performance durante a qual um indivíduo usa roupas, acessórios e adota maneirismos (geralmente de forma exagerada) associados ao sexo oposto ao qual se identifica. As performances de drag incluem cross-dressing, mas nem todos os cross-dressers fazem performances de drag. Não está relacionado com a identidade de género de um indivíduo. [ver: Cross-dresser]

Estrogénio: grupo de hormonas sexuais associadas ao sexo feminino. São produzidas principalmente pelos ovários e, em menores quantidades, pela glândula suprerrenal, fígado ou outros tecidos. O estradiol, um dos tipos de estrogénio, é a hormona mais usada na terapia hormonal feita pelas mulheres trans [ver: Terapia hormonal]

Expressão de género: manifestações externas do género de um indivíduo. Podem tomar a forma de estilos de roupa, maneirismos, posturas, nome próprio, pronomes, etc. Servem para comunicar à sociedade o nosso género (podendo estar, ou não, de acordo com os papéis de género que uma dada sociedade atribui a cada um dos géneros). [ver: Papéis de género, Identidade de Género, Género] 

FTM: Female-To-Male. Sinónimo de homem/rapaz trans. [ver: Homem/rapaz trans]

Genderqueer: termo usado por algumas pessoas que não se identificam com nenhum dos dois géneros tradicionalmente aceites socialmente (homem ou mulher). Também usado por indivíduos que rejeitam por completo o binário de género e se recusam a definir-se com base neste. Pode ser usado (consoante a pessoa) como sinónimo de género não binário. [ver: binário de género, Género não binário]

Género: localização de um indivíduo relativamente aos eixos da identidade de género e sexo. [ver: Identidade de género, Sexo] 

Género não binário: categoria de género que não se enquadra dentro dos dois géneros pré-definidos pelo sistema de género binário em vigor na sociedade atual. Os indivíduos que pertencem a um género não binário não se conseguem identificar como nenhum dos dois géneros de forma exclusiva ou de todo, podendo até rejeitar por completo o sistema binário e definirem-se independentemente dos dois referenciais binários [ver: Binário de género, Genderqueer]

Homem/rapaz trans: indivíduo cujo sexo atribuído à nascença foi o sexo feminino, mas que se identifica como pertencente ao sexo masculino. Sinónimo de FTM. [ver: FTM]

Identidade de género: identificação pessoal, subjetiva e autonomamente determinada que cada indivíduo tem relativamente ao seu género. Pode, ou não, estar de acordo com o género associado ao sexo que lhe foi atribuído à nascença [ver: Sexo atribuído à nascença, Papéis de género, Género].

Inibidores hormonais: medicação usada para inibir o efeito das hormonas sexuais. São usados, principalmente, durante a terapia hormonal feita pelas mulheres trans para bloquear a ação da testosterona. Não confundir com bloqueadores de puberdade [ver: Bloqueadores de puberdade, Estrogénio, Terapia hormonal] 

Intersexo: indivíduo portador de diferenças congénitas nas características sexuais físicas (relativamente às características associadas ao sexo masculino ou feminino). Pode manifestar-se como variações cromossómicas, variações na expressão genética, variações hormonais ou nos órgãos reprodutores do indivíduo. (adaptado de: Organization Intersex International - What is intersex? )

Marcador de sexo: referência, em documentação variada ou formulários, ao sexo atribuído (ou re-atribuído) a um indivíduo. Em Portugal apenas são permitidos os marcadores M (masculino) ou F (feminino). [ver: Transição legal]

MTF: Male-To-Female Sinónimo de mulher/rapariga trans. [ver: Mulher/rapariga trans]

Mulher/rapariga trans: indivíduo cujo sexo atribuído à nascença foi o sexo masculino, mas que se identifica como pertencente ao sexo feminino.

Orientação sexual: refere-se ao(s) género(s) pelo(s) qual(is) uma pessoa se sente atraída. Não tem qualquer intervenção da identidade de género de uma pessoa. [ver: Identidade de Género]

Papéis de género: conjunto de características, traços de personalidade, gostos ou estilos associados (e culturalmente impostos) a um género. Variam muito consoante a localização geográfica e temporal de uma dada sociedade/cultura. [ver: Género]

Queer: rótulo que pode englobar qualquer variação da orientação sexual, identidade de género, expressão de género ou vivência que, de alguma forma, rompa com as normas e pressupostos da sociedade em relação à forma como as relações inter-pessoais (principalmente afetivas, românticas e/ou sexuais) são vividas. Devido à abrangência extrema deste rótulo, é impossível defini-lo de forma mais concreta.

Sexo: sistema de classificação tendo como base características geno ou fenotípicas de um indivíduo. Os indivíduos podem ser classificados, geralmente, como sendo do sexo masculino ou feminino. 

Sexo atribuído à nascença: refere-se à classificação que é imposta a um indivíduo, no momento do seu nascimento, como pertencente ao sexo masculino ou sexo feminino. Esta classificação é feita, na maior parte dos casos, com base na aparência dos órgãos genitais visíveis externamente. 

Perturbação de identidade de género: nome do diagnóstico que se fazia formalmente às pessoas trans que queriam iniciar a transição clínica. Este termo ainda é usado por alguns profissionais de saúde, apesar de já ser considerado desatualizado, tendo sido substituído pelo termo "disforia de género" [ver: Disforia, Transição clínica]

Terapia hormonal: utilização de hormonas em contexto clínico/terapêutico. É bastante comum entre a população transsexual, sendo usada com o objetivo de desencadear mudanças físicas que aproximem o corpo da pessoa ao corpo correspondente ao género com o qual a pessoa se identifica. 

Testosterona: hormona sexual associada ao sexo masculino. É secretada principalmente pelos testículos e, em menores quantidades, pelos ovários e pela glândula suprarrenal. É a hormona usada na terapia hormonal feita pelos homens trans [ver: Terapia hormonal]

Trans: diminutivo de transgénero ou transsexual. Normalmente (mas nem sempre) usado como sinónimo de transgénero.[ver: Transgénero, Transsexual]

Transfobia: medo, aversão e/ou intolerância em relação a pessoas trans ou percecionadas como tal. É o principal fator responsável pela discriminação e violência dirigida a pessoas trans.

Transgénero: termo abrangente que inclui qualquer pessoa que, por qualquer razão, não se identifica com o género associado ao sexo que lhe foi atribuído à nascença. Pode, ou não, fazer algum tipo de transição [ver: Sexo atribuído à nascença, Transição]

Transição: conjunto de etapas que uma pessoa trans faz com o objetivo de aliviar a sua disforia e poder viver como um indivíduo pertencente ao género com o qual se identifica. Pode envolver etapas clínicas, sociais e/ou legais. [ver: Trans, Disforia, Transição clínica, Transição legal, Transição social]

Transição Clínica: conjunto de etapas clínicas feitas no âmbito de uma transição. Pode incluir apoio psicológico, intervenções hormonais, intervenções cirúrgicas ou outro tipo de procedimentos médicos que tem como objetivo aliviar a disforia de uma pessoa trans. [ver: Transição, Terapia hormonal, Cirurgias de reconstrução genital, Disforia]

Transição legal: mudança de nome próprio e do marcador de sexo no registo civil, obtenção de um novo assento de nascimento com o nome corrigido e modificação de quaisquer documentos que tenham de ser atualizados com o nome e/ou marcador de sexo corrigidos. [ver: marcador de sexo]

Transição social: conjunto de etapas que uma pessoa trans faz com o objetivo de poder viver socialmente como uma pessoa pertencente e aceite socialmente como pertencente ao género com o qual se identifica. Pode incluir a adoção de um novo nome próprio, mudança dos pronomes usados para se referenciar a si própria, mudanças na aparência, estilos de roupa, maneirismos (de forma a ficarem congruentes com os papéis de géneros associados ao género com o qual a pessoa se identifica), etc. [ver: Papéis de género]

Transsexual: indivíduo que não se identifica com o género associado ao sexo que lhe foi atribuído à nascença. Frequentemente descrevem sentir disforia de género e fazem algum tipo de transição com o objetivo de aliviar essa disforia. [ver: Sexo atribuído à nascença, Disforia, Transição]


on sexta-feira, 22 de maio de 2015
Com o aproximar do mês de junho, recomeçam os debates em torno das marchas do orgulho e, um bocado "de arrasto" ao tema, do ativismo LGBT. Ultimamente, a maioria das conversas que tenho tido à volta deste tema prendem-se com o sentido que faz (ou não) incluir questões relativas à identidade de género num movimento que, 99% das vezes, fala apenas em questões relativas à orientação sexual.

A inclusão do "T" na sigla "LGBT" é motivo de debate já há bastante tempo. Não é minha intenção entrar por aí neste momento, mas fica aqui mais um tema para a minha crescente pilha de "temas a abordar no futuro". 

Independentemente dos motivos que levam a que o T esteja associado ao resto do movimento LGB, um facto é que essa associação existe, embora seja na maior parte das vezes apenas simbólica. A grande maioria das associações e coletivos LGBT na realidade dão apenas atenção aos primeiros 3/4 da sigla e lembram-se do "T" quando é conveniente para a sua agenda ou para mostrar que são "inclusivos". Isto torna-se óbvio nos discursos e iniciativas dessas entidades, que são quase exclusivamente dirigidos à população LGB de tal forma que parece que nem sequer se lembram que o T lá está. Na maior parte dos casos nem sequer chega a ser uma exclusão ativa do T, é simplesmente um enviesamento na forma como as pessoas pensam, algo quase inconsciente, que leva a que a sigla LGBT seja usada como sinónimo de "gays e lésbicas" (a população bissexual é também frequentemente deixada de fora). Por exemplo, quando divulgam estudos dirigidos à população LGBT, mas depois dizem que estão à procura apenas de "homens ou mulheres homossexuais", ou quando tiram conclusões sobre a percentagem de "pessoas LGBT" que estão fora do armário usando um questionário que lhes perguntava apenas sobre a sua orientação sexual. 

Este tipo de atitude aparece não só nestes momentos mais "pequenos" e aparentemente menos significantes, é algo transversal a todo o movimento e ativismo LGBT. Esquecem-se do T na hora de reivindicar direitos e no planeamento de outro tipo de atividades. Quando se lembram, muitas vezes esquecem-se de perguntar às pessoas T exatamente quais são os direitos que precisamos de reivindicar ou o que é que gostaríamos de ver nos eventos. O resultado disto é uma representação, quando não totalmente ausente, distorcida (e por vezes até antagónica) da população trans em espaços LGBT. 

Depois há o outro lado da moeda: a representação do T é má porque as pessoas T não se fazem representar. É raríssimo encontrar pessoas trans em posições relevantes dentro das associações e coletivos LGBT. Há quem argumente que isto é o que está na origem de todo este problema, no entanto eu acho que isso é estar a pôr as coisas do avesso. Não é tanto a ausência de pessoas trans que causa uma má representação no ativismo - o que acontece é que a maioria das pessoas trans não encontra aquilo que precisa nas associações LGBT, portanto nunca ganham interesse em envolver-se no trabalho das mesmas. Este é um sentimento que vejo com bastante frequência entre pessoas trans. Eu próprio sinto isso muitas vezes.

Quando estava a começar a procurar informação e ajuda para iniciar a minha transição, os primeiros sítios onde procurei foram associações e coletivos LGBT. Nunca cheguei a encontrar a informação que precisava nesses locais. Consegui ir fazendo alguns contactos úteis, mas a informação que precisava não estava facilmente acessível nem fazia parte das ferramentas e know-how dessas associações. 

Por alguma razão, fui mantendo contacto com essas associações (penso que uma boa parte da razão para tal foi uma tentativa de permanecer em negação em relação à minha identidade de género, descartar o problema como sendo apenas uma questão de orientação sexual) até aos dias de hoje. Neste momento, trabalho junto da rede ex aequo, estou envolvido em alguns dos seus projetos e faço parte da atual equipa da direção. Este trabalho tem sido um desafio interessante em vários sentidos, mas há algo que começo a reparar e que me tem feito pensar: há pessoas trans dentro da rede ex aequo, estão é escondidas. 

Há cerca de um ano atrás, em conversa com uma amiga, ela congratulou-me por ser a primeira pessoa trans a fazer parte da coordenação de um grupo local da rede ex aequo. Hoje em dia, teria de a desmentir: já houve outras pessoas trans em coordenações de grupos locais antes de mim. O problema era que essas pessoas não eram assumidamente trans. (aliás, eu próprio estive nessa situação em tempos: coordenava um grupo local mas ainda me apresentava no feminino)

Eu só me apercebi disto quando essas pessoas vieram ter comigo e me contaram que eram trans mas que nunca tinham dito nada a ninguém, em parte porque nunca tinham conhecido mais ninguém trans nem sabiam bem por onde começar a abordar o assunto (mesmo dentro da própria associação). Também já tive outras pessoas que, não fazendo parte de nenhum projeto da associação, me confidenciaram que eram trans, mas que também não sabiam o que fazer e não encontravam aquilo que precisavam na associação. 

Um fenómeno curioso que também tenho notado é em relação ao fórum da associação. Quem o visitar fica com a ideia que há uma ou duas pessoas trans por lá (isto se conseguir encontrar os tópicos onde as questões trans são abordadas). Costumam ser sempre as mesmas pessoas a levantar esses assuntos e a responder aos poucos pedidos de apoio que vão surgindo de longe a longe. Por outro lado, quem espreitar na minha caixa de entrada de mensagens privadas, vê um cenário bastante diferente. Por esta altura a minha caixa de entrada está repleta de mensagens trocadas com pessoas trans que, apesar de não participarem no fórum, andam por lá à procura de apoio. Também surgem alguns emails enviados para o email geral da associação a pedir apoio na vertente trans, mas são em menor número. 

Isto leva-me a ter de reforçar a importância de:
1) haver pessoas visivelmente trans, e acessíveis, dentro das associações LGBT
2) haver sensibilidade para não alienar as pessoas trans que já andam nas associações LGBT

(uma nota sobre a  expressão "visivelmente trans": não me refiro a ter de haver pessoas que sejam publicamente trans, mas sim a haver alguma forma de identificar pessoas trans dentro dos espaços e eventos da associação. Por exemplo, eu faço questão em identificar-me como trans no fórum e dou "carta verde" aos meus colegas dos vários projetos da associação para que revelem que sou trans a outras pessoas caso isso seja relevante no contexto das atividades da associação. No entanto, fora da associação, a minha transexualidade pode permanecer privada)

Ou seja, é importante, antes de pedirmos às pessoas trans que se mostrem, criar um ambiente que seja convidativo a que elas se mostrem. É importantíssimo não descurar as questões trans, não só para "chamar" e manter essas pessoas nas associações, mas principalmente porque, provavelmente, elas já cá estão. O facto de permanecerem escondidas é um sintoma da falta de preparação e sensibilidade que a maioria das associações tem em relação a estas questões. 

Não sei se posso assumir (mas vou assumir na mesma) que algo semelhante se passe em outras associações LGBT. As pessoas trans andam por lá, mas estão bastante relutantes em fazerem-se ouvir.
on quinta-feira, 16 de abril de 2015
Desde que o publiquei, o post "Marterpost: Binders" tem sido, consistentemente, o post que recebe mais visitas deste blog.


Por esse motivo, decidi tornar o conteúdo desse post mais facilmente acessível e partilhável offline, transformando-o num guia que podem descarregar em formato pdf (o link encontra-se no final deste post). A versão pdf foi revista e expandida (o post original deverá ser atualizado em breve) e será atualizada à medida que mais informação e/ou correções forem aparecendo. 

Se detetarem algum problema com os links de download, deixem aqui um comentário!


Download:
Guia Binders v.1 [pdf] - [preview]


on domingo, 12 de abril de 2015
Aqui está a 2ª parte da série "Perguntas Frequentes". Podem consultar a 1ª parte, referente a questões mais ligadas à transição clínica e legal, aqui

Só depois de ter acabado de redigir este post é que me ocorreu que a ordem dos posts das "Perguntas Frequentes" devia ter sido ao contrário. Este contém mais perguntas vindas de pessoas que ainda estão na fase de questionamento e descoberta da sua identidade, só avançando para a transição propriamente dita (que é o tema da primeira parte desta série) mais tarde. Mas pronto, agora fica assim.

Também me lembrei que, sendo um homem, frequento maioritariamente espaços para homens trans. Podem haver questões que surjam com mais frequência entre as mulheres trans, mas eu nao tenho acesso a isso porque não costumo frequentar espaços exclusivamente femininos. Portanto acho importante deixar esta nota e reconhecer o enviesamento na minha perceção do que são as perguntas mais frequentes.



Comecei a pedir às pessoas para mudarem o nome e pronomes que usam comigo, mas sinto-me mal/constrangido quando o fazem. O que é que isto significa?
Significa que velhos hábitos são difíceis de ultrapassar. Depois de passarmos uma vida inteira a sermos tratados por um nome, é estranho de repente isso mudar. Podemos estranhar o novo nome (mesmo sendo um nome que nós próprios escolhemos), podemos sentir que as pessoas só o usam para nos "fazer o favor", podemos sentir que é algo forçado e que estamos a ser um inconveniente para as outras pessoas. Tudo isto é normal e passa com o tempo, à medida que nos habituamos. 
Normalmente as pessoas que colocam esta questão estão preocupadas porque pensam que isto pode significar que, na realidade, mudar o nome foi um erro e que não são mesmo transexuais. Isto pode corresponder à realidade em alguns casos, caso não se sintam bem com qualquer um dos passos da vossa transição, parem e pensem bem se é aquilo que vos faz sentir bem antes de avançar mais. No entanto, na maioria dos casos que vejo, é apenas uma questão de insegurança e dificuldade em ultrapassar o hábito do antigo nome. Passado algum tempo as pessoas já me dizem que afinal está tudo bem e que se sentem mal é quando alguém lhes trata pelo nome anterior.


Não planeio fazer qualquer modificação aos meus genitais. Será que sou mesmo trans?
relacionada com:
Ainda não modifiquei os meus genitais, mas consigo ter relações sexuais/masturbar-me, ter prazer e atingir o orgasmo. Significa isto que na realidade não serei mesmo trans?
ou, mais genericamente:
Eu não rejeito por completo o meu corpo. Serei mesmo trans?
Sim, é possível estarmos bem com os nossos genitais (ou outras partes do nosso corpo) e ser transexual. Ao contrário do que é divulgado em quase tudo o que é sítio, ser transexual não significa que odiamos o nosso corpo, ou que sintamos que estamos no "corpo errado". Há pessoas que se identificam com este tipo de narrativa, mas não é uma regra, e há cada vez mais pessoas trans que parecem rejeitar este tipo de descrição para si próprias. Este tipo de ideia continua a ser reforçado hoje em dia porque é uma forma "fácil" de a população cis compreender e normalizar a nossa existência - é mais fácil dizer que as pessoas trans estão no corpo errado do que admitir que nem todas as pessoas encaixam nas expectativas anatómicas do que é um homem ou uma mulher. É o mesmo problema associado à palavra "disforia" que é descrita como um "ódio ao corpo", quando na realidade é algo mais complexo e com mais tons de cinza do que isso.
Na realidade, cada pessoa trans tem a sua própria relação com o seu corpo. Há quem sinta que realmente está num corpo totalmente errado, mas também há quem não rejeite por completo todas as características sexuais primárias ou secundárias. 


Eu tenho gostos muito femininos/masculinos, será que sou mesmo um homem/mulher trans?
Os nossos gostos pessoais nada têm a ver com a nossa identidade de género. É possível um homem gostar de usar vestidos cor-de-rosa e uma mulher entender imenso de mecânica automóvel. Esse tipo de papeis de género é algo completamente artificial e que não revela nada sobre a nossa identidade nem retira legitimidade à nossa masculinidade ou feminilidade. Não há nada de errado em gostar de coisas que a sociedade define como sendo do "sexo oposto", e não é por sermos transexuais que temos de obedecer a essas regras artificiais e arbitrárias. 


Tenho imensas dúvidas em relação a aquilo que preciso (ou não) na transição. Sinto que essas dúvidas retiram legitimidade à minha identidade. Serei mesmo trans?
Esta é das questões que mais me faz ferver o sangue - não por causa da pessoa que colocou a pergunta, mas pelo o que levou a pessoa a ter esta dúvida. Não, ninguém é "menos" trans por ter dúvidas. Ter dúvidas é extremamente normal e expectável, e é horrível existir este mindset de que nós temos de ter 100% de certeza de tudo o que precisamos para nos sentirmos "legítimos". Ter dúvidas, por si só, pode ser algo que nos consome e aterroriza durante este processo, mas pior que isso é começarmos a questionar a nossa própria identidade porque "não é suposto" termos dúvidas. É normal ter dúvidas em relação à nossa identidade, em relação à terapia hormonal, em relação às cirurgias, em relação a qualquer passo do processo de transição. A transição é algo sério e que muda a nossa vida, por vezes de forma irreversível - estranho seria se não tivéssemos dúvidas! Duvidar é bom, faz-nos pensar, ponderar bem e procurar as melhores soluções para os problemas. 
Portanto, se tiverem dúvidas, não se sintam inibidos. Falem com as pessoas, procurem informação e mantenham a mente aberta para as respostas que forem descobrindo. 


Quando era criança não sabia que era trans/não insistia com os meus pais que pertencia ao sexo oposto/tinha comportamentos típicos do género que me foi atribuído. Serei mesmo trans?
Nem todas as pessoas trans sabem que o são desde a infância. Normalmente este "estereótipo" da pessoa que sabe que é trans e que reza a deus para que lhe cresça (ou caia) a pilinha desde os 5 anos é apenas isso - um estereótipo. É algo que aparece em quase tudo o que é reportagem ou documentário sobre o assunto porque é muito mais fácil criar empatia por uma criança (cuja transexualidade é vista como algo inquestionavelmente inato e inocente) do que por um adulto (que é visto como um pervertido ou mentalmente perturbado). Já vi também algumas pessoas trans a confessarem que, embora não saibam desde pequeninas, dizem às pessoas o contrário numa tentativa de tentar ser mais facilmente aceites pelas pessoas à sua volta. Portanto, este é um estereótipo que parece conservar-se a si mesmo, não por corresponder à realidade, mas porque as pessoas confirmam-no mesmo que não se identifiquem com ele. 
Tudo isto para dizer que não, não é por não sabermos ou não insistirmos com os nossos pais desde crianças que deixamos de ser transexuais. 


Tenho medo que os médicos e psicólogos não me deixem avançar para a transição. Devo mentir-lhes para que me facilitem a vida?
Não. Mentir aos profissionais de saúde nunca é uma boa ideia e acaba por ser contraproducente. Existem relatos de casos em que os médicos se revelaram uns enormes idiotas e atrasaram imenso a vida a algumas pessoas mas, felizmente, esses relatos parecem ser cada vez menos e as alternativas cada vez mais. Os relatos que vejo de casos de médicos-bestas envolvem sempre o médico a "avaliar" a pessoa de acordo com critérios absurdos de masculinidade ou feminilidade, o que significa que a única forma de os persuadir seria criar uma fachada enorme que correspondesse ao que esse médico entende que é um homem ou mulher "a sério". Caso não tenham mais nenhuma alternativa, então façam o que tiverem a fazer para ultrapassar esse médico. No entanto, ao faze-lo estão a colaborar com uma pessoa que não tem o vosso melhor interesse em mente e que, caso um dia precisem mesmo da ajuda dele, provavelmente não a terão. Muito melhor será desistirem desse médico e procurarem outro. Hoje em dia já não vivemos tão isolados uns dos outros, é mais fácil encontrarmos informações sobre outros médicos e sobre opiniões dos utentes em relação aos mesmos, não precisamos de nos (nem devemos) prender a maus profissionais de saúde. 


Estou à espera para começar a terapia hormonal há imenso tempo. Há alguma alternativa que possa tomar enquanto espero?
Esta pergunta muitas vezes vem associada a "remédios caseiros" ou "suplementos naturais" que dizem aumentar os níveis de testosterona ou estrogénio da pessoa. Eu não sei até que ponto esses suplementos realmente fazem o que dizem, mas mesmo que tenham algum efeito esse será residual e nunca se comparará aos efeitos da terapia hormonal. E, provavelmente, serão caros. O melhor é não gastar dinheiro e expectativas com esse tipo de alternativas.


Posso, legalmente, usar o WC concordante com o género com o qual me identifico?
Em Portugal não há nenhuma lei que regule esta questão. O ideal para escolher o WC onde vamos é usar senso comum. Quem é visto pelas outras pessoas, consistentemente, como o género com o qual se identifica poderá frequentar espaços específicos do género com o qual se identifica (ex: as pessoas vêm-me como um homem, portanto eu posso ir ao WC masculino sem problemas). No entanto, se a maioria das pessoas não vos vir como pertencentes ao vosso género, entrar num WC concordante com o vosso género pode ser perigoso.


Ás vezes as pessoas (amigos, familiares) fazem-me perguntas invasivas. Como é que respondo a isto?
Responde da forma que te sentires mais confortável. No entanto tem em conta que, lá por sermos transexuais, não temos a obrigação de sermos um recurso de informação sempre disponível para as outras pessoas. Temos as nossas próprias reservas e limites de paciência para responder e explicar as nossas vidas ou escolhas a outras pessoas. Nós não temos de nos justificar a toda a gente, não temos de ter a validação de toda a gente nem temos de ser ativistas se não quisermos. Portanto, cabe a cada um decidir que informação quer revelar sobre si próprio ou sobre a questão da transexualidade em geral. 
on quinta-feira, 9 de abril de 2015
Já faz alguns anos desde que comecei a interagir com outras pessoas trans, maioritariamente via online. A maioria dos locais que existem são locais de apoio e inter-ajuda, sítios onde as pessoas podem colocar as suas dúvidas e expor problemas que tenham relacionados com a sua transição. Ao longo do tempo, fui-me apercebendo que algumas questões surgem com mais frequência que outras. Vou deixar aqui uma compilação das perguntas e dúvidas que vejo mais vezes colocadas, em nenhuma ordem em particular.

Nota: este post está dividido em 2, um com questões mais "práticas" referentes ao processo clínico e legal, e outro com questões mais relacionadas com a identidade da pessoa ou com a forma como cada um experiencia a sua vida como pessoa trans.
Este post refere-se aos aspetos práticos da transição. O segundo post chegará dentro dos próximos dias (*) O segundo post pode ser lido aqui



Como é que é o processo clínico? E como é que o inicio?
O percurso de cada pessoa pode variar de acordo com as necessidades de cada um mas, no geral, segue uma ordem do tipo: avaliações, hormonas, cirurgias.
A primeira coisa a fazer para iniciar tudo é marcar uma consulta de sexologia num hospital ou clínica que ofereça esse serviço. Para tal, servem hospitais e clínicas privadas ou, caso queiram ir pelo Serviço Nacional de Saúde (SNS), precisam de ser referidos para lá por outro profissional de saúde (um médico de família, por exemplo).


No SNS, os hospitais que têm consultas de sexologia são:
- em Lisboa: Hospital de Sta Maria, Hospital Júlio de Matos
(podem encontrar mais alguma informação aqui)


O que se segue são consultas de sexologia clínica com um psicólogo e/ou um psiquiatra para avaliar a vossa situação pessoal, fazer as avaliações psico-técnicas necessárias e, após ser concluído o diagnóstico, é-vos dado o relatório e facilitado o acesso aos passos seguintes.

Normalmente o passo seguinte (ou em simultâneo com as avaliações, em alguns casos) é a terapia hormonal. Para tal, precisam de ir a um endocrinologista. Este pode pedir-vos um ou dois relatórios; caso peça dois, estes têm de ser elaborados por duas equipas diferentes. Após alguns exames fisicos e análises, é-vos receitada a medicação necessária para a terapia hormonal (testosterona no caso dos homens, ou estrogénio e inibidores de testosterona no caso das mulheres) e podem começa-la de imediato.

Depois de tudo isto, vêem as cirurgias. Dependendo da cirurgia que querem e do vosso cirurgião de eleição, os timmings e requisitos podem variar. Por exemplo, há quem faça mastectomias sem exigir que a pessoa esteja a fazer terapia hormonal, e há quem só as faça após um tempo definido (ex: 6 meses) após o início da terapia hormonal. Cada cirurgião tem os seus critérios e as suas razões. O ideal nesta fase é procurar informação sobre as opções que têm e entrar em contacto direto com os cirurgiões para tirar as dúvidas que tiverem. 

Esta "ordem" não é universal. Há quem faça algumas partes do processo por outra ordem, há quem "salte" passos, há quem nunca faça alguns deles. A transição (os procedimentos e os timmings entre eles) deve ser moldada às necessidades de cada um.


O que é que preciso de fazer para mudar de nome?
Precisas de ter nacionalidade portuguesa, ser maior de idade e ter um diagnóstico de "perturbação de identidade de género". São esses, basicamente, os requisitos impostos pela atual lei de identidade de género. Os dois primeiros pontos são fáceis, a parte do diagnóstico é que costuma causar alguns problemas. A lei exige que apresentemos um relatório clínico que comprove esse diagnóstico, sendo que o relatório tem de ser subscrito por, pelo menos, um médico e um psicólogo. Isso significa que temos de andar em consultas e fazer as avaliações que nos exigirem, até que a equipa que nos acompanha considerar que já podemos mudar de nome; este passo pode ser fácil ou não, dependendo muito da situação pessoal de cada um e dos profissionais de saúde que nos acompanham.

A lei também menciona um requerimento de alteração de sexo e nome próprio, mas esse documento, normalmente, pode ser elaborado pelo pessoal da conservatória onde forem. 

Tendo esse diagnóstico feito, basta pegar no relatório (que vos deve ser dado pela equipa que vos acompanha), dirigirem-se a qualquer conservatória do registo civil e fazem o pedido, que deve ser respondido dentro dos 8 dias seguintes.


Que cirurgias é que tenho de fazer para poder mudar de nome?
Nenhuma. A lei de identidade de género não menciona, em local nenhum, a necessidade de cirurgias ou outras intervenções clínicas. Só precisas mesmo de ter o relatório que comprove que tens um diagnóstico de "perturbação de identidade de género".


O que é que preciso para iniciar a terapia hormonal?
Precisas de ter acesso a um endocrinologista e, pelo menos, uma avaliação concluída. Alguns endocrinologistas exigem duas avaliações, outros apenas uma. Caso sejas encaminhado para endocrinologia diretamente das consultas de sexologia, não deves ter de te preocupar com isso, uma vez que essa informação deve chegar ao endocrinologista facilmente. 


Quanto tempo é que demora entre o início do processo e a terapia hormonal?
Depende muito de caso para caso. O maior fator de atraso costuma ser as avaliações com a equipa de sexologia (ou, no caso do SNS, as filas de espera que podem durar meses). Sem a autorização dessa equipa, não podemos avançar. Há quem consiga concluir essa etapa em poucos meses, há quem demore até 2 anos. Felizmente, a convenção de nos obrigar a esperar 2 anos começa a desaparecer, mas ainda vejo algumas pessoas a dizer que tiveram de passar por isso recentemente. 


Quanto tempo dura a terapia hormonal?
Não existe tempo limite para a terapia hormonal. Para a maioria das pessoas, é algo que dura a vida inteira. As razões para isto são: 
1) só assim é possível manter todos os efeitos masculinizantes ou feminilizantes, uma vez que há efeitos que revertem caso paremos a terapia hormonal;
2) caso optemos por remover os gónadas (ovários ou testículos), torna-se imperativo continuar a terapia hormonal, uma vez que sem ela o nosso corpo fica desprovido de qualquer hormona sexual, o que pode ter consequências graves para a nossa saúde a médio e longo prazo.


A medicação da minha terapia hormonal é injetável, quem é que me pode dar a injeção?
Qualquer pessoa que tenha treino para dar injeções intramusculares pode ajudar-vos neste aspeto. Normalmente, as pessoas dirigem-se a:
) centros de saúde, onde podem marcar consultas de enfermagem;
) quartéis de bombeiros: já vi pessoas a dizer que lá também o fazem, algumas pessoas reportam que não pagam nada, outras dizem que pagam um preço simbólico pelo serviço;
) familiares: quem tem médicos ou enfermeiros na família resolve o problema facilmente;
) elas próprias: há quem peça a algum profissional de saúde que lhes ensine a fazer as injeções em casa e, depois de algum treino, fazem-nas sem intervenção de mais ninguém.


O que é que preciso para fazer as cirurgias?
Como mencionei mais acima, a resposta a esta pergunta vai depender do tipo de cirurgia e do cirurgião. O ideal é falar com os cirurgiões e perguntar-lhes diretamente o que é que é preciso fazer.

No entanto, caso queiram seguir pelo SNS, vão precisar da autorização da ordem dos médicos para poderem avançar para as cirurgias de reatribuição sexual. Para tal, devem ter dois relatórios clínicos, elaborados por duas equipas de sexologia diferentes. A equipa que vos acompanha deverá ajudar-vos a fazer o pedido para a ordem dos médicos.  


Quanto é que tenho de pagar durante o processo?
A transição é considerada como algo necessário para as pessoas trans e, portanto, é comparticipada pelo estado português. As consultas de sexologia e as avaliações são gratuítas, assim como as consultas de endocrinologia e as cirurgias (temos de pagar as taxas moderadoras, mas tudo o resto está coberto pelo estado). 

A medicação é apenas parcialmente comparticipada, mas é barata. No caso dos homens, normalmente usa-se Testoviron Depot ou Sustenon, ambos com o preço de €4.01 por dose de 1mL (que normalmente é administrada a cada 3 ou 4 semanas - ou seja, só gastamos €4.01 a cada 3 ou 4 semanas). Existem outros tipos de medicação, nomeadamente formulações de testosterona em gel, que são mais caras (ficando a cerca de €46.36 por mês), mas são muito menos comuns.
Em relação à medicação para as mulheres, não tenho a certeza de quanto custará por mês. Uma pesquisa no site da Infarmed diz-me que uma caixa de Estrofem fica a €2.49 por mês, mas não sei ao certo se é esse que se usa com mais frequência em Portugal, nem faço ideia do que usam como inibidor de testosterona. Se alguém tiver informação sobre isso pode deixar um comentário e eu tratarei de atualizar essa info aqui. 

O que fica mais caro costuma ser a mudança de nome, que exige um pagamento de €200. É possível evitar este pagamento, caso tenham um atestado de insuficiência financeira passado pela vossa junta de freguesia.


Devo seguir pelo sistema nacional de saúde ou pelo privado?
Depende do dinheiro que tenhas disponível versus o tempo que estás disposto a esperar. Pelo SNS, o processo costuma ser bastante mais lento, as filas de espera são grandes, no entanto é quase tudo gratuito. Por outro lado, caso tenhas dinheiro para pagar consultas num hospital ou clínica privada, consegues fazer tudo com maior brevidade.




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(*) sim, eu sei que, post sim post não, digo que vou fazer outro post relacionado com aquele que estão a ler no momento. Isto tem vindo a tornar-se um vício, mas é algo que não consigo evitar. Os assuntos puxam sempre outros assuntos, e seria impraticável dar asas a todos os assuntos relacionados ou tangentes que vou tocando. Os posts que eu tenho dito que "vão ser feitos no futuro" estão, efetivamente, a ser feitos. Só que são tantos que vão aparecendo lentamente. 




on sexta-feira, 13 de março de 2015
Pelos vistos, vai sair um novo filme este ano a contar a história de Lili Elbe, uma mulher trans dinamarquesa que foi a primeira pessoa (da qual há registos, pelo menos) trans a fazer, com sucesso, uma cirurgia de reconstrução genital. A forma como algumas pessoas estão a falar do filme como sendo "um filme sobre a primeira trans" mete-me imensa comichão por vários motivos, mas outro pequeno grande pormenor deste filme é algo que, infelizmente, ainda se vê demasiado e que acaba por anular (ou danificar significativamente) os benefícios que este tipo de representação nos poderia dar: a personagem é representada por um homem cissexual.

Seguindo as pisadas recentes de "Dallas Buyers Club" ou da série "Transparent", "The Danish Girl" é mais um filme onde uma mulher trans é representada por um homem cis. Eu podia passar o resto do post a elaborar as razões pelas quais eu acho isto bastante problemático (e vou fazê-lo, num outro post que tenho andado a cozinhar há algum tempo e que vai ser publicado quando estiver pronto), mas para já vou só fazer uma nota sobre as reações às criticas que estas escolhas de atores costumam receber.

Normalmente, quando confrontados com todos os problemas que esta dinâmica de "ator a fazer de mulher trans" levanta, as pessoas tentam defender-se dizendo que as críticas não fazem sentido porque, como atores, o trabalho deles é precisamente interpretar um papel de alguém que não são (neste caso, interpretar o papel de uma mulher). Isto não explica a razão de não terem escolhido uma mulher para interpretar... uma mulher (que por acaso é trans). Um ator ou atriz vai estar sempre a interpretar uma personagem que não é, isso faz parte da definição de "ator" mas, normalmente, os atores ou atrizes não são escolhidos ao acaso. Costuma haver um processo de seleção e, depois disso, o ator/atriz considerado mais "apto" para o papel, fica com ele. Porque é que, aparentemente, nenhuma mulher é considerada como uma boa escolha para fazer o papel de uma mulher trans? E porque é que, quando a personagem não é trans, subitamente afinal as mulheres já podem representa-la e raramente são escolhidos homens para o fazer? (normalmente quando um homem é escolhido para fazer o papel de uma mulher cis, o filme é alguma comédia parva e a escolha é feita pelo valor "cómico" da coisa, porque é hilariante ver um homem vestido de mulher, aparentemente).

No caso deste filme em particular, Eddie Redmayne (o ator que interpreta Lili Elbe) tenta justificar esta situação dizendo:

"But one of the complications is that nowadays you have hormones, and many trans women have taken hormones. But to start this part playing male you’d have to come off the hormones, so that has been a discussion as well. Because back in that period there weren’t hormones."

Isto, além de me por a pensar num passado hipotético em que realmente não existiam hormonas antes do século XX (a humanidade seria toda composta por diabéticos pré-puberescentes - cheira-me que há aqui algures um plot para um filme de sci-fi), está incorreto e continua a não ser uma justificação satisfatória. Estão a tentar convencer-nos que é impossível pegar numa mulher e, recorrendo a todas as técnicas de maquilhagem/preparação/magia hollywoodesca/etc, fazer com que ela tenha um aspeto masculino. Que a única forma de o fazer seria administrar hormonas masculinas às atrizes. Subitamente, toda a conversa de "um ator finge ser quem não é" é deitado pela janela fora, porque é impossível uma mulher conseguir fazer o papel de um homem (ou, neste caso, de uma mulher trans pré-transição). No entanto, um homem consegue fazer o papel de uma mulher, com muita mais facilidade e sem nunca sequer serem mencionados os efeitos das hormonas masculinas ou femininas. 

Em conjunto com esta mentalidade, vem também o "argumento" do "mas somos todos pessoas, independentemente do género, tu é que estás a ser sexista!" - que ignora por completo o facto de a crítica ser dirigida não só àquele filme/série/whatever em particular, mas a todo este mindset que coloca homens no papel de mulheres trans na grande maioria das representações de mulheres trans. Se fosse apenas um filme a fazer isto, okay, realmente era um bocado sexista estar a obcecar com o género do ator ou da personagem. O problema é que isto é uma situação tão comum que nem entendo como é que conseguem acusar-nos a nós (quem critica isto) de sexismo - das duas uma, ou isto revela um enorme desconhecimento da realidade (e então, provavelmente, também uma falha enorme na pesquisa sobre as realidades trans, o que depois se vai manifestar numa má história, num mau guião e numa má preparação do ator para desempenhar o papel) ou é apenas uma desculpa para justificar a transfobia e transmisoginia de quem está a fazer o filme. 

Também existem alguns casos da situação contrária: mulheres cis a intrpretar homens trans. No entanto, são mais incomuns tanto porque, ao todo, as representações de homens trans são menos numerosas e porque, pelo o que tenho pesquisado, é mais comum contratarem um homem para fazer o papel de um homem trans. Este último ponto, por si só, pode gerar imensa discussão sobre a forma como as pessoas vêem as mulheres trans versus como vêem os homens trans e permite fazer alguns comentários interessantes sobre transmisoginia (e apenas misoginia de uma forma mais geral). Isto irá ser explorado num post futuro que, como já mencionei, está ainda a ser elaborado.
on terça-feira, 3 de março de 2015
Apercebi-me apenas agora que não tenho qualquer meio de entrar em contacto com os leitores, além das caixas de comentários dos posts. Não dá muito jeito para manter um diálogo ou para dar resposta a quem me quer contactar de forma mais consistente do que comentários ocasionais. 

Portanto, quem me quiser contactar, seja por que motivo for (comentários gerais, meter conversa, dúvidas, sugestões, desabafos, críticas, hate mail, etc), pode mandar email para transcenas@gmail.com

on sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015
Há algumas semanas atrás fui levantar o meu cartão de cidadão novo. Depois de ter pago 200 euros e depois outros 15 na semana anterior, estava em pulgas para finalmente ver o resultado de tanto gasto de dinheiro em tão pouco tempo (na altura tudo o resto - todo o caminho percorrido até ali na transição, as consultas, coming outs, dificuldades variadas - estava meio bloqueado, eu estava mesmo muito ressabiado com o raio do dinheiro). Depois de confirmar a informação toda, lá dei o cartão antigo ao homem que me atendeu na conservatória do registo civil para que fizesse um furo no chip e, para minha surpresa, também um furo na fotografia. Pedi o cartão antigo de volta (está a dar-me jeito para atualizar a informação num monte de sítios diferentes) e saí de lá, finalmente, com alguma paz de espírito.

Mais tarde, numa conversa entre amigos, saquei do cartão novo e do antigo para me gabar de, finalmente, ter resolvido o problema. Ter os dois cartões à beira um do outro é algo que ainda me deixa com algum espanto - dois cartões, dois nomes, duas identidades, no entanto, é a mesma pessoa. Ao ver os dois cartões, uma amiga nota no furo na fotografia do cartão antigo (mesmo no meio da testa, um headshot certeiro) e pergunta-me: "até gostavas de ter sido tu a dar um tiro nesta gaja, não?"

Bem... não. Nem por isso. 

Muita gente parece assumir que todas as pessoas trans têm um ódio enorme ao corpo e à pessoa que "eram" antes da transição. Um ódio tão grande ao ponto de querer 'matar' o nosso 'eu' pré-transição, ou de nem sequer reconhecer essa pessoa como um 'eu' de todo (como um 'outro', como 'essa gaja'). 

Eu não me sinto bem dessa forma. Não guardo rancor em relação à rapariga que fui no passado. Aliás, ainda me é um bocado estranho dizer que "sempre fui um homem" porque, apesar de isso ser tecnicamente verdade, um facto é que vivi a maioria da minha vida até agora a pensar que era uma rapariga, a ser visto como uma rapariga, a viver tudo como uma rapariga (o que quer que "como uma rapariga" signifique). 

Não tenho qualquer tipo de arrependimentos em relação ao meu percurso no que toca à transição. Por vezes, no passado, consumia-me em raiva comigo próprio por um monte de pormenores e situações hipotéticas que colocava a mim mesmo. "e se me tivesse apercebido mais cedo?" "e se não tivesse passado tanto tempo em negação?" "e se tivesse tido coragem daquela vez para ter ido falar com aquela pessoa?" "e se tivesse tido esta conversa de outra forma?"  e se e se e se e se - e se me deixasse de lamentar? (a certa altura cheguei a um ponto em que nem eu próprio podia com a minha autocomiseração)

O meu passado pré-transição demorou exatamente aquilo que devia ter demorado e aconteceu exatamente como devia ter acontecido para que eu chegasse ao ponto que estou agora. Podia passar eternidades a tentar pensar em situações hipotéticas onde o meu passado fosse diferente, mas tal não me serve absolutamente de nada. Tenho vindo a descobrir que é bem mais útil reconhecer o meu passado, aceita-lo e viver com isso. No início foi um bocado complicado fazê-lo, porque em todo o lado somos incentivados a 'enterrar' o nosso passado. Mesmo dentro de espaços exclusivamente trans, existe esta ideia de que devemos deixar o passado de lado, nunca o referenciar, não tocar nele, ignora-lo por completo como se só começássemos a existir quando iniciamos a transição. Durante algum tempo eu interiorizei tudo isto, convenci-me que o meu 'eu' pré-transição era algo para fazer o luto e esquecer. A partir dali era um homem, e nunca tinha sido nada mais que um homem e ponto final. Não há grande espaço para discutir isto, e mesmo quando se discute parece ser algo extremamente taboo. Não quero com isto estar a criticar este tipo de mindset. Para muita gente trans, o passado é algo doloroso e que as pessoas tentam evitar por uma questão de saúde emocional; e há quem genuinamente não reconheça o seu "eu" pré-transição como um "eu" de todo. E está tudo bem com isso. Cada um vive a sua vida à sua maneira e este tipo de experiências são totalmente válidas. No entanto, nem toda a gente é assim. Eu não sou, e já tive conversas com outras pessoas que expressaram o mesmo (estas conversas foram maioritariamente privadas, já que essas pessoas (nas quais me incluo) tinham medo de aborrecer as outras pessoas nos espaços trans).

Durante algum tempo tentei aderir a este tipo de pensamento, mas entretanto cheguei à conclusão que não era para mim. O meu passado não me incomoda assim tanto - incomoda bem mais ter de o descartar e de criar um sofrimento artificial à volta dele só porque é o que "é suposto" para uma pessoa trans. 

Quando era criança brincava muito com os meus amigos do colégio (tanto meninas como meninos). Gostava de jogar às escondidas, ao quarto escuro, andar de bicicleta. Mais tarde veio o game boy e os Pokémons, as figuras de ação e pessoas a tentar impingir-me barbies. Nunca gostei de barbies, por muito estereotípico que isso seja. Por esta altura comecei a ter uma reputação de maria rapaz, e gostava disso. Entretanto meti-me no desporto. Ser melhor atleta que muitos rapazes era das coisas que mais gostava de me gabar. Isso e de ter ganho, durante anos seguidos, o corta-mato e as olimpíadas da ciência da minha escola. Os anos foram passando e eu continuava sempre a maria rapaz de sempre, por muito que me tentassem "corrigir". Dizer-me que os rapazes não gostavam de marias rapazes não só era mentira, como na altura passava-me completamente ao lado (nunca gostei de me dizer "lésbica", portanto assumia o rótulo de "bissexual"). Se bem que, a certa altura, tentei dar-lhes ouvidos e ter uma apresentação mais feminina. Nunca cheguei muito longe, sentia-me mal sempre que tentava ir além de uma camisa um bocado mais justa e uma trança mal amanhada. Passei toda a adolescência a ser visto como uma maria rapaz, depois os anos iniciais da faculdade como uma rapariga meia estranha e introvertida. Durante todo esse tempo era vista como uma rapariga e tratada como tal. Tive rapazes a atirarem-se a mim, taxistas a mandar piropos foleiros na rua, fui perseguido por um homem desde uma ruela estreita até à estação de metro, e depois outra vez passados dois dias e aprendi a não andar por ruelas sem estar acompanhado (curiosamente, há uns tempos atrás voltei a passar nessa mesma rua, depois de a andar a evitar desde essa altura; desta vez senti-me seguro, acho que foi a primeira vez que me apercebi de forma tão óbvia do que é ter privilégio masculino no meu dia-a-dia), vi a minha opinião descartada porque "uma rapariga não entende tanto de [desporto/videojogos/etc]", perguntaram-me se estava "naquela altura do mês" quando me exaltava num debate, etc etc etc. Isto é apenas uma pequena amostra, com ênfase em algumas partes que referenciam diretamente o meu passado "como rapariga". 

Tudo isto (e muito mais) faz parte de quem eu sou. Não deixou de existir a partir do momento em que assumi a minha identidade masculina. Não tenho qualquer intenção de apagar tudo isto nem de dar um metafórico tiro à pessoa que era, porque essa pessoa sou eu. 
on terça-feira, 27 de janeiro de 2015
Ontem apontaram-me para um segmento de um programa na TV nacional onde se falou sobre transsexualidade. Na minha inocência, fui ver o programa na esperança de ser alguma coisa de jeito e que valha a pena recomendar a outras pessoas. Não tive de chegar sequer a meio do programa para me aperceber que não era nada disso, que era apenas mais do mesmo no que toca a programas deste genero.

Apresentadores a fazer perguntas desnecessariamente invasivas aos mesmos convidados de sempre que repetem a mesma narrativa ad nauseam; nada de errado na narrativa das pessoas, mas era bom convidarem outras pessoas, com outras histórias, para que o público não ficasse com a ideia que somos todos um grupo monolítico - o que depois pode gerar problemas caso uma pessoa não obedeça aos 'critérios' e não encaixe na narrativa pré-concebida do que é suposto uma pessoa trans ser. 

Ainda estou para ver um programa deste género que não me faça querer interromper os apresentadores para mandar vir a cada 30 segundos. Da próxima vez, para me entreter um bocado, vou tentar seguir seguir aquilo que eu acabei de inventar e chamar "Drinking Game de Más Representações Trans" (sim, sim, eu sou péssimo a dar nomes a coisas, caso ainda não tivessem reparado pelo título deste blog), que tem as seguintes regras:

1 shot para cada vez que dizem "corpo errado"
1 shot para cada vez que dizem "transformação"
1 shot para cada pergunta relacionada com genitais
1 shot para cada "você podia ser apenas um homem/mulher homossexual" (no caso de mulheres ou homens trans, respetivamente)
1 shot por cada vez que usarem a palavra "transsexual" como um nome ("um transsexual", "uma transsexual")
1 shot por cada "homem num corpo de mulher" ou "mulher num corpo de homem"

1 shot para cada plano onde mostram uma mulher trans a maquilhar-se
3 shots se a cena da maquilhagem for filmada num espelho

1 shot para cada foto da pessoa trans pré-transição
3 shots se a foto mostrar a pessoa numa atividade estereotipicamente masculina ou feminina (nos casos de mulheres ou homens trans, respetivamente)

1 shot por cada "mulher/homem a sério" 
3 shots para a associação entre "mulher/homem a sério" e cirurgias

1 shot para a pergunta "então, você já concluiu a sua transição?"
3 shots se a pergunta for seguida de "e quantas operações teve de fazer?"

1 shot por cada médico ou psicólogo convidado
1 shot por cada vez que disserem "diagnóstico"
3 shots para "têm de ser acompanhados durante 2 anos antes de iniciar o processo"
beber a garrafa toda se disserem que um diagnóstico incorreto leva a que as pessoas - depois de anos em transição - se arrependam

3 shots por cada vez que a apresentadora diz o nome de nascimento da pessoa trans
3 shots para cada vez que alguém diz "mas agora voce é uma mulher/um homem muito bonit@" de forma condescendente
3 shots para cada vez que o apresentador/entrevistador é corrigido mas volta a cometer o mesmo erro passados 2 minutos

beber a garrafa toda se só convidarem mulheres trans e nem mencionarem homens trans
on terça-feira, 30 de dezembro de 2014
Leelah Alcorn, uma rapariga trans de 17 anos dos EUA, suicidou-se hoje (ou ontem? os fusos horários confundem-me). Leelah deixou uma nota de suicídio que pode ser lida na íntegra no seu blog, onde detalha os eventos que a levaram a perder a esperança e a vontade de viver. Para adicionar insulto à injúria, a notícia já apareceu em vários artigos online, quase sempre a reportar a morte de um rapaz de 17 anos que 'parece ter sido' um suicídio ('parece', mesmo com uma nota de suicídio online pode ter sido apenas um acidente, certo...).

É profundamente lamentável o suicídio de mais uma pessoa trans. Ao longo da nota de suicídio podem ler-se menções ao desespero sentido pela Leelah vindo dela própria (o isolamento, o medo de não conseguir fazer uma "transição com sucesso") e, como se isso não bastasse, o desespero foi agravado pelo abuso e intolerância parental, que foi ao ponto de lhe impedir o acesso aos cuidados médicos que ela precisava. Estas situações, infelizmente, são mais comuns do que seria aceitável (se houvesse apenas uma pessoa nesta situação, ainda assim seria inaceitável) e demasiadas pessoas trans continuam a ter de passar por situações destas que, por vezes, culminam no suicídio. Ainda por cima, na maioria dos casos, nunca se chega a saber que a razão do suicídio foi a transfobia porque as identidades e vontades das pessoas trans são rotineiramente ignoradas e/ou apagadas pelos meios de comunicação social ou até pelas famílias das próprias pessoas trans - neste caso, a família de Leelah tem-se recusado a trata-la pelo seu nome e ainda não reconheceram sequer que a sua morte foi um suicídio. 

Há um monte de coisas sobre as quais poderia aqui debruçar-me, mas vou focar-me numa questão que me saltou à vista mas que parece estar a passar ao lado da maioria dos artigos que vejo por aí. 

Quase no final da sua nota de suicídio, Leelah escreveu:
"A única maneira de eu alguma vez descansar em paz é se, algum dia, as pessoas trans não forem tratadas como eu fui, quando forem tratadas como humanos, com sentimentos válidos e direitos humanos. É preciso ensinar sobre o género nas escolas, quanto mais cedo melhor. A minha morte tem de significar algo. A minha morte tem de ser contada no número de pessoas trans que cometeram suicídio este ano. Eu quero que as pessoas olhem para esse número e digam "isto é terrível" e corrijam isto. Corrijam a sociedade.
(tradução livre)

Leelah pareceu encarar o seu suicídio não apenas como uma decisão pessoal, mas como uma oportunidade para fazer ativismo. Isto provoca-me alguns sentimentos dissonantes entre si... por um lado compreendo que uma pessoa queira dar algum significado à sua vida, mas faze-lo através do término dessa vida parece-me horrendo. O suicídio não é a melhor forma para fazer passar uma mensagem num contexto de ativismo (ou em qualquer outro contexto). O mundo só muda se houver pessoas que lutem para que as mudanças ocorram. É preciso resistência, e não há melhor forma de resistência do que mostrar ao mundo que sobrevivemos a toda a merda que nos atiram à cara diariamente. 

Espero não ser mal interpretado. Não quero com isto criticar os motivos ou desejos da Leelah, mas tinha isto um bocado preso na garganta e queria deixar isto registado algures. Mais do que isto ter aparecido na nota de suicídio dela, preocupa-me a atenção que algumas pessoas parecem estar a dar a este excerto do texto. Ao ler alguns comentários sobre este caso quase que fico com a impressão que estão a glorificar este suicídio em nome do ativismo e da mudança. Por favor, não façam isso. Não há absolutamente nada de inspirador no suicídio de uma jovem de 17 anos, vítima de transfobia.

Vamos tentar tornar o mundo num local em que isto nunca mais volte a acontecer.

Caso estejam a lidar com pensamentos ou ideações suicidas, por favor falem com alguém. Um familiar em que possam confiar, um amigo próximo, alguém. 

Centro SOS Voz Amiga - Ajuda na solidão, angústia, desespero e prevenção do suicídio
21 354 45 45
91 280 26 69
96 352 46 60
Diariamente das 16h às 24h horas
www.sosvozamiga.org

Linha SOS Palavra Amiga
Viseu – 23 242 42 82
Todos os dias, das 21 à 01 horas

APAV - Associação Portuguesa de Apoio à Vítima
Apoio emocional
707 200 077 (chamada com preço independentemente da distância)

Telefone da Amizade
Um amigo nas horas difíceis
22 832 35 35
Todos os dias (16h-23h)

Linha LGBT
21 887 39 22
Quarta a domingo (20h-23h)

Linha Urgência Espaço T
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on domingo, 16 de novembro de 2014
Há dois dias mostraram-me um artigo de 'opinião' publicado na edição online de um jornal nacional que, volta e meia, não é opinião coisíssima nenhuma - é pouco mais do que um vómito de preconceitos do autor. Se alguém quiser ler esse atestado de ignorância, pode lê-lo aqui (não se preocupem que ao clicar nesse link não estão a dar mais tráfego ao site do jornal). Eu pensei em fazer um post ressabiado a criticar cada frase desse artigo, mas vou tentar fazer algo mais útil e atacar a raiz do problema.

O grande problema aqui parece ser o velho problema que sempre existiu entre a população em geral em relação à transexualidade: não nos vêem como homens ou mulheres e portanto consideram a transição como algo que, na melhor das hipóteses é apenas estético, na pior das hipóteses é uma mutilação e que nós devíamos é ser todos internados num hospital psiquiátrico. 

Começando pelas bases: um homem trans é um homem, uma mulher trans é uma mulher, independentemente da sua anatomia, expressão, personalidade, ou qualquer outro fator (o mesmo se aplica para pessoas fora dessas duas opções). Não faz sentido sequer questionar uma coisa destas porque não existe maneira de "medir" a identidade de uma pessoa, não existem critérios objetivos para avaliar a masculinidade ou feminilidade de alguém. As tentativas de "desenrrascar" esses critérios normalmente caem no determinismo biológico - "se nasces com um genótipo ou fenótipo normativamente masculino, és um homem e ponto final" - o que, além de ignorar toda a diversidade natural dentro da nossa espécie, é um critério arbitrário e obosleto. Não havendo critérios, a única opção é confiar na pessoa que declara a sua identidade como masculina/feminina/outra, tendo em conta que mais ninguém conhece melhor aquela pessoa do que ela própria. 

A identidade de género de alguém não é mensurável e, mesmo que fosse, não haveria qualquer interesse em pôr isso em causa porque é algo que apenas diz respeito à própria pessoa

No entanto, uma enorme parte do problema que as pessoas têm com a população trans estende-se não apenas à identidade por si só, mas ao que a pessoa trans decide fazer em relação a isso. Tudo à volta da transição é algo completamente alienígena e estranho à maioria das pessoas, portanto a maioria limita-se a ficar na ignorância e cede aos seus próprios preconceitos para formar uma "opinião" sobre o assunto. 

Por muito que as pessoas achem estranho, um facto é que a transição não é algo apenas estético, não é um capricho nem uma "maluqueira" que passa pela cabeça das pessoas trans. Se a palavra das próprias pessoas trans não for totalmente convincente (raramente o é, infelizmente), existem várias entidades médicas que reconhecem a transição como uma necessidade médica: a American Psychological Association "reconhece a eficácia, vantagens e necessidade médica da transição de género" e acrescenta que apoia a facilitação do acesso destas pessoas a cuidados médicos apropriados (ex: incentivando as seguradoras e o estado a cobrirem estes cuidados), à mudança da identidade legal, à não discriminação e à integração das pessoas trans na sociedade. A American Medical Association tem uma opinião semelhante, dizendo que existem provas suficientes para considerar a transição (incluindo tratamentos hormonais, cirurgias, etc) com algo benéfico e necessário às pessoas trans. O mesmo diz a American Psychiatric Association, a World Professional Association for Transgender Health, entre outros.

Relacionado com este ponto está o mito que diz que a transexualidade é uma doença mental. Tal também não é suportado pela maioria das entidades médicas já mencionadas. O Parlamento Europeu também concorda que a considerar a transexualidade uma doença psiquiátrica é condenável e apela aos países membros para mudarem essa classificação das vivências e identidades trans, para que simplifiquem o acesso à mudança de nome e para que os custos associados à transição sejam cobertos pelas seguradoras ou pelo estado. Está também explicitado no princípio 18 dos Princípios de Yogyakarta que a identidade de género nunca pode ser considerada uma patologia. A discriminação sofrida pelas pessoas trans pode estar relacionada com perturbações de ansiedade, depressão ou outras condições, mas isto é fruto da discriminação, não da identidade da pessoa [1]

A crença de que a transexualidade é uma doença mental muitas vezes leva as pessoas a pensar que é possível "curar" a transexualidade de alguém através de "terapias reparativas" ou persuadindo a pessoa trans a simplesmente "aprender a aceitar a sua identidade" (o seu género atribuído à nascença). Uma coisa que essas pessoas parecem ignorar é o facto de muitas pessoas trans terem tentado fazer precisamente isso: aceitar a sua "identidade", aprender a viver como um homem ou mulher, tentar convencer-se que não precisam de fazer a transição, que isso era uma ideia parva e que só iam estar a alimentar ilusões criadas por elas próprias. Não é algo pelo qual todas as pessoas passam, mas já vi este tipo de narrativa a ser descrito com alguma frequência entre pessoas trans (eu próprio passei por uma fase dessas). Portanto, essa ideia de "tentar aceitar o género que nos foi atribuído" não é nenhuma ideia genial, não é nada de novo nem de revolucionário e costuma ser das primeiras "soluções" que as pessoas tentam arranjar - por causa disto ainda fico admirado quando alguém propõe esta "solução" como se a ideia nunca tivesse surgido antes e nunca tivesse sido testada. 

Normalmente estas "terapias reparativas" são as mesmas que se fazem/faziam para curar a homossexualidade, e têm a mesma taxa de sucesso destas: zero. O máximo que pode acontecer é a pessoa trans reprimir a sua identidade e ficar assim "curada" de querer fazer uma transição, mas na realidade a identidade da pessoa não mudou. Esta "solução" entra diretamente em conflito com o que já foi mencionado acima sobre a transição ser algo eficaz e benéfico para as vidas das pessoas trans. Estas terapias têm sido repetidamente desacreditadas entre a comunidade médica uma vez que não nunca mostraram ser eficazes e, muitas vezes, constituem um atentado à dignidade da pessoa a ser "tratada" [2] [3] [4]. Sendo assim, essas terapias são contra-indicadas para a população trans, da mesma forma que o são para a população LGB (podendo até ser considerado como abuso de menores, caso o "alvo" da terapia seja uma criança). 

Finalmente, um dos "argumentos" que também vejo muito a ser feito por quem se opõe à transição é o dilema do "mas e se te arrependes?". Este é o único argumento para o qual eu ainda tenho alguma paciência porque não é baseado em preconceitos e por vezes é um medo real para as próprias pessoas trans. "E se eu chego a meio disto e quiser voltar para trás?" foi uma questão que me assombrou durante bastante tempo. No entanto, usar relatos de outras pessoas que se arrependeram como exemplo não é correto, uma vez que essas situações não são as mais comuns (embora recebam imensa atencão mediática, porque mais estranho do que alguém que "muda de sexo" é alguém que o faz duas vezes e que ainda dá "credibilidade" aos preconceitos da população). Na realidade, a percentagem de arrependimento é muitíssimo baixa. Por exemplo, num estudo que acompanhou 232 mulheres trans, nenhuma expressou arrependimento (dizendo até que estavam mais felizes). Aqui, entre mais de 400 pessoas, a grande maioria reportou que não se arrepende de nenhum dos passos da transição (sendo que as 3 pessoas que se arrependeram de algum passo, arrependeram-se de fazer uma histerectomia ou eletrólise, mas não se arrependeram dos outros passos). Na Europa ocidental, a taxa de arrependimento após o início do tratamento hormonal ou cirurgias ronda os 1.83%, sendo que os autores do estudo notaram é difícil distinguir entre quem se arrependeu por ter chegado à conclusão que afinal não era trans, e quem se arrependeu devido a pressões sociais, familiares e discriminação em geral. 

Ao longo deste texto tentei ir citando fontes credíveis para justificar o que disse (os sites e artigos são quase todos acessíveis ao público e, os que não são, têm a informação citada disponível no abstract) porque considero importante ter alguma fundamentação quando tento construir um argumento com pés e cabeça. Não podemos confiar nas opiniões de gente ignorante e que não faz qualquer esforço real para se informar mas que, apesar disso, age como se tivesse conhecimento ou opiniões relevantes nesta discussão. 

Eu também ia abordar outros temas relacionados com as várias intervenções médicas ou tratamentos hormonais (visto que também ainda existe uma quantidade enorme de desinformação a circular sobre os mesmos) mas este post está a ficar demasiado grande. Portanto, fica aqui o lembrete para o fazer num post futuro. 

Entretanto, caso queiram opiniões relevantes e factos sustentados e verificáveis, tentem entrar em contacto com pessoas trans ou associações sérias que lidem com o assunto. Além disso, o google é vosso amigo (sempre com uma pitada de bom senso e espírito crítico) e se estiverem à procura de factos palpáveis e estudos científicos sobre o assunto, o Scholar pode ser bastante útil. Deixo também esta lista bastante grande de literatura caso alguém tenha vontade e paciência para ir lendo o que lá se encontra.