on segunda-feira, 4 de janeiro de 2016
Este é o segundo post numa série sobre terapia hormonal com testosterona. No anterior foi dada uma introdução ao funcionamento geral das hormonas no nosso corpo. Aqui vamos ver de que forma é que conseguimos administrar essas hormonas no nosso corpo, opções de medicamentos e as diferenças entre eles.

(Este post acabou por ficar um bocado mais "nerd-ish" do que eu queria, mas prefiro assim do que "estupidificar" as explicações)

Mais uma vez quero reiterar que eu não sou médico nem farmacêutico e que a informação neste blog não deve ser usada em substituição de profissionais de saúde.


A maioria dos medicamentos que usamos na nossa terapia hormonal vêm na forma de ésteres de testosterona, portanto antes de partir para a testosterona propriamente dita, acho útil introduzir o conceito de "éster".


"Éster" é um nome usado na nomenclatura da química orgânica para designar uma molécula que resulta da condensação (junção) de um álcool e de um ácido carboxílico.


Neste esquema, o R1 e R2 representam outro grupo molecular que contenha um átomo de carbono  -ou seja, outra molécula qualquer. Existem vários ésteres diferentes - cipionato, enantato, undecanoato, etc - com tamanhos diferentes.

Para o propósito deste post, R1 ou R2 será uma molécula de testosterona, ou seja, adiciona-se uma molécula de testosterona num dos locais do éster. Isto vai fazer com que o resultado final seja uma molécula de testosterona com uma "cauda" de éster lá pegada. 
O objetivo deste processo é tornar a testosterona solúvel em óleo e assim abrandar a taxa de libertação da testosterona para a corrente sanguínea - existem formulações de testosterona em água em vez de óleo, mas duram muito pouco tempo, apenas algumas horas, e teríamos de fazer injeções diárias para manter níveis de testosterona constantes ao longo do tempo. Regra geral, quanto mais longo é o éster que está "pegado" à molécula de testosterona, mais solúvel esta é em óleo. Em simultâneo, quanto mais longo é o éster, menos solúvel em água a molécula se torna. O nosso sangue é, em termos simples, uma solução aquosa, daí podemos concluir que quanto mais longo é o éster, mais lentamente este vai entrar na corrente sanguínea. 

Na prática, isto tem duas implicações:
1) quanto mais longo for éster, mais tempo a testosterona demora a entrar na corrente sanguínea, o que significa que o intervalo entre as injeções pode ser maior;
2) quanto mais curto for o éster, mais rapidamente entra na corrente sanguínea, o que vai gerar um "pico" alto de testosterona logo após a injeção.

O que acontece quando fazemos uma injeção intramuscular de algum medicamento com ésteres de testosterona é a criação de um pequeno "depósito" oleoso dentro do músculo. Ao longo do tempo, o músculo está em contacto com o sangue (através dos vasos sanguíneos) e, ao passar pelo depósito oleoso, o sangue vai "resgatar" algumas das moléculas (testosterona+éster) e traze-las para a corrente sanguínea. Já no sangue, existem proteínas que vão "cortar" a cauda de éster, libertando a molécula de testosterona, que fica livre para ir provocar todos os efeitos que normalmente provoca no corpo humano. A velocidade a que isto acontece está dependente, principalmente, do tamanho do éster. 


Vias de Administração
Existem vários métodos para introduzir testosterona no nosso corpo. 

O mais comum costuma ser por via intramuscular injetável
Como foi descrito acima, este método consiste em criar um depósito de testosterona dentro de um músculo, que é então lentamente libertada ao longo do tempo. Normalmente a injeção é dada num músculo grande, no glúteo ou na coxa. A principal vantagem desta via é o facto de evitar a passagem da testosterona pelo fígado, prevenindo assim as complicações que podem surgir relacionadas com esse órgão. No entanto, tem a desvantagem de... bem, de ser uma injeção. Para quem tem aversão a agulhas pode ser um problema, principalmente se houver a perspetiva de continuar o tratamento durante meses ou anos. Também existe o problema de serem criados "picos" e "vales" na quantidade de testosterona. Ou seja, pouco tempo após uma injeção os níveis de testosterona "disparam" para quantidades elevadas, e pouco tempo antes da injeção seguinte há o risco de os níveis estarem muito baixos. Idealmente, o intervalo entre as injeções será o adequado para que os vales não sejam muito baixos, mas que os picos também não sejam exagerados. 

O segundo método mais comum é por via transdérmica, ou seja, testosterona em gel, creme ou pensos.
Nestes casos, a testosterona encontra-se no estado livre, sem ésteres associados. Por causa disto, a testosterona é rapidamente libertada e é preciso aplicar o gel/creme/penso todos os dias. Normalmente o gel/creme/penso tem de ser aplicado em zonas específicas do corpo e é preciso ter cuidado de forma a não transmitir o gel ou creme a outras pessoas ou animais através de contacto físico. Existe também o problema de poderem ocorrer reações alérgicas aos pensos, principalmente em quem tem peles mais sensíveis. 
Uma vantagem é o facto de se evitar os picos e vales associados às injeções, sendo possível manter uma dose mais estável ao longo do tempo (assumindo que a pessoa aplica o gel/creme/penso todos os dias à mesma hora).

Existe também a via oral, que é menos comum devido à toxicidade que causa ao fígado.

Uma nota importante sobre a forma como cada pessoa toma a sua medicação: não existe um "valor padrão" que é o correto para toda a gente. Existem posologias mais comuns (ex: é bastante comum ver pessoas a fazer uma injeção de 250mg de testosterona a cada 3 semanas) mas tal não significa que seja essa a forma ideal para toda a gente. Se estiverem a fazer a vossa terapia hormonal de forma diferente, não se preocupem demasiado. O importante é fazerem análises periódicas e verificarem que os vossos níveis estão dentro daquilo que é suposto - algo que o vosso médico vos dirá. 


Vamos então olhar para os medicamentos atualmente disponíveis cá em Portugal. Uma pesquisa por "testosterona" no site da Infarmed devolve-nos 7 medicamentos que contêm testosterona:

Andriol-T
Cápsulas moles de undecanoato de testosterona.

Este medicamento não está a ser comercializado em Portugal neste momento, nem eu me recordo de ver muitas menções ao mesmo por homens trans em outros países. Formulações orais de testosterona costumam ter uma "má reputação" por serem bastante agressivas para o fígado. Este medicamento em particular contém undecanoato de testosterona e é, em teoria, absorvido no intestino delgado, o que evitaria os efeitos negativos para o fígado. No entanto, tem a desvantagem de ser rapidamente absorvido, o que significa que teríamos de tomar múltiplas cápsulas por dia (o que foi explicado acima sobre ésteres não se aplica neste caso, uma vez que a via de administração não é intra-muscular, mas sim oral).

Testim
Testosterona em gel.

Este medicamento parece ser a única formulação em gel de testosterona à venda em Portugal de momento. Neste caso, a testosterona não está ligada a nenhum éster, encontrando-se no gel já na forma livre. Isto significa que rapidamente toda a testosterona é absorvida e usada, sendo essa a razão pela qual o gel tem de ser aplicado diariamente. Além disso, apesar de cada bisnaga conter 50mg de testosterona, apenas cerca de 10% é absorvida pela pele, resultando numa entrega de 5mg de testosterona por dia.

Este tipo de medicamento normalmente é preferido por quem tem aversão a agulhas (uma vez que a outra alternativa é testosterona injetável), mas tem a desvantagem de ser muito mais caro. Há também quem se sinta incomodado por ter de aplicar o gel todos os dias e ter de lidar com os cuidados associados ao mesmo (ex: ter cuidado para não passar gel para outras pessoas através de contacto físico). 

Um mito que vejo regularmente em relação ao gel é a ideia de que os efeitos da testosterona vão ser mais rápidos nas zonas onde o gel é aplicado (por exemplo, se aplicar o gel no braço esquerdo vão crescer lá mais pêlos do que no braço direito). Isto por vezes leva as pessoas a achar que é boa ideia aplica-lo na cara para acelerar o aparecimento de barba. Isto não é uma boa ideia! A testosterona só exerce os seus efeitos quando entra na corrente sanguínea, e quando tal acontece fica disponível por onde quer que seja que o sangue passe - ou seja, no corpo todo. Não interessa onde é que o gel é aplicado, eventualmente a testosterona vai chegar a todas as partes do corpo. Aplica-lo na cara não serve de nada (e pode ser uma má ideia, uma vez que o gel contém álcool, não sendo muito recomendável aplicar diariamente álcool na cara...).

Testogel e Androgel

Estes dois medicamentos são também formulações em gel. Tudo o que foi dito em relação ao Testim aplica-se a estes dois. No entanto, ao contrário do Testim, estes não se encontram de momento a ser vendidos em Portugal.

Nebido
Undecanoato de testosterona injetável.

O undecanoato é um dos ésteres mais longos que se pode encontrar na medicação com testosterona. Por essa razão, este medicamento só precisa de ser administrado entre 10 em 10 ou 12 em 12 semanas. 
Molécula de undecanoato de testosterona

O comprimento deste éster faz com que não só dure imenso tempo, mas também que o "pico" de testosterona logo depois da injeção não seja tão alto como no caso de outros injetáveis. Ou seja, o Nebido provoca níveis de testosterona estáveis durante quase 3 meses com apenas uma injeção. A desvantagem? É caro. Além disso, a ideia de levar com uma injeção intramuscular de 4mL pode ser intimidante para algumas pessoas. 


Testoviron Depot
Enantato de testosterona injetável.

O enantato é um éster mais curto em relação ao undecanoato, mas é longo o suficiente para durar bastante tempo.
Molécula de enantato de testosterona
Após a injeção, ocorre um "pico" de testosterona, que vai sendo então libertada ao longo de 2 a 4 semanas (consoante a pessoa). Em conjunto com o Sustenon, este medicamento parece ser dos mais comuns cá em Portugal. 

Sustenon
Mistura de 4 ésteres de testosterona injetável.

O sustenon contém propionato, fenilpropionato, isocaproato e decanoato de testosterona. Cada um destes ésteres tem tamanhos diferentes, o que deveria, em teoria, dar origem a diferentes taxas de libertação e assim estabilizar os níveis de testosterona ao longo do tempo. Na prática, este medicamento é usado exatamente da mesma forma que o Testoviron: uma injeção a cada 2-4 semanas. Nunca vi mencionada qualquer diferença entre a utilização e efeitos de Sustenon e Testoviron, havendo até quem os utilize indiferenciadamente. 

on quinta-feira, 22 de outubro de 2015
Antes de começar: quero frisar que eu não sou médico e não tenho formação em medicina. A informação aqui contida deve ser usada apenas para fins educacionais e nunca em substituição de consultas com médicos qualificados. Se tiverem qualquer dúvida clínica, perguntem ao vosso médico. 

Dito isto, gostava de partilhar um bocado da informação que fui acumulando sobre e terapia hormonal com testosterona e sobre hormonas em geral. 

Começando pelo básico - o que é uma hormona? 
Uma hormona é uma molécula sinalizadora, ou seja, serve para transportar sinais pelo corpo. As hormonas são produzidas por glândulas e viajam através do sistema circulatório (veias e artérias) até ao local onde têm de deixar a sua mensagem. 
Exemplos de glândulas que produzem hormonas incluem: tiróide, hipófise, glândulas suprarrenais e gónadas (testículos ou ovários). 

Existem imensos tipos de hormonas diferentes e que regulam imensos fenómenos, entre os quais: metabolismo, crescimento, sono, humor, reprodução, etc. O conjunto de todas as hormonas e das glândulas que as secretam é conhecido como o sistema endócrino.

Mas como é que as hormonas sabem onde é que têm de entregar as suas mensagens? 
Cada hormona tem um tipo de recetor específico e que só existe em locais específicos do corpo. Esses recetores são moléculas que se encontram, normalmente, na superfície das células. Quando uma hormona se liga a um recetor, vai desencadear uma série de mudanças na célula que culminam em algum tipo de efeito a curto, médio ou longo prazo. As hormonas só podem fazer os seus efeitos se se ligarem aos recetores adequados - ou seja, se esses recetores por alguma razão estiverem todos ocupados, indisponíveis ou ausentes, as hormonas não fazem efeito nenhum. 

Ilustração da interação hormona-recetor


Há hormonas que se podem ligar a recetores diferentes, e há recetores que podem reconhecer diferentes hormonas. No entanto, os efeitos em cada caso podem ser diferentes. Por exemplo, se a hormona "A" se ligar ao recetor "1" pode induzir efeitos diferentes caso a mesma hormona se ligasse ao recetor "2". Da mesma forma, se o recetor "1" receber a hormona "A" vai causar efeitos diferentes de que se tivesse recebido a hormona "B". Existem imensas hormonas e imensos recetores diferentes, pelo que a combinação de diferentes hormonas com diferentes recetores dá origem a um número enorme de interações e efeitos induzidos pelas hormonas. 

A especificidade das hormonas e recetores é mediada, principalmente, pela forma e geometria, embora possa haver alguma adaptação e variação.


E como é que o corpo sabe que hormonas é que tem de produzir?
O nosso corpo tem sistemas de auto-regulação hormonal, a maioria funciona como um mecanismo de feedback negativo. Pensem neste mecanismo como a regulação de uma torneira quando estão a tomar banho: se se sentirem a escaldar, desligam um bocado a torneira da água quente. Quando começam a sentir frio, ligam a quente até estarem confortáveis com a temperatura do vosso chuveiro.

Ou seja, quando o corpo deteta que tem quantidades de hormona "A" a mais, deixa de a produzir (ou produz níveis mais baixos). Da mesma forma, se detetar que não há hormona "A" suficiente no sangue, começa a produzir mais. As formas como o corpo deteta os níveis hormonais são complexas e não completamente compreendidas atualmente, mas sabe-se que funcionam e que nos mantêm saudáveis (na ausência de condições patológicas, claro). 

Testosterona e Estrogénio - Esteróides Sexuais
Esteróides sexuais são as hormonas que interagem com recetores de androgénios ou estrogénios. Incluem os androgéneos, estrogénios e progestágenos. Dessas, as mais "famosas" são, respetivamente, a testosterona, o estradiol e a progesterona. Estas hormonas são produzidas, principalmente, nos gónadas (testículos ou ovários), mas também são produzidas em menores quantidades nas glândulas suprerrenais, tecido adiposo, fígado e em outros tecidos. 

Uma nota sobre esteróides: muita gente parece ficar alarmada quando ouve dizer que a testosterona e o estrogénio são esteróides. Existe algum estigma em relação a esta palavra por causa das notícias que reportam o abuso de esteróides por atletas. Na realidade, "hormona esteróide" significa apenas que é uma hormona que é fabricada a partir do colesterol. Outros exemplos de hormonas esteróides são os glicocorticóides (participam na regulação do sistema imunitário) ou a aldosterona (contribui para o bom funcionamento dos rins). 

Comparação entre as moléculas de colesterol, testosterona e estradiol.Como podem ver, são bastante parecidas entre elas


Apesar de se dizer que a testosterona é a "hormona masculina" e que o estradiol é a "hormona feminina", toda a gente produz alguma quantidade de ambas as hormonas. A proporção entre uma e outra é que acaba por ser bastante diferente de acordo com o tipo de gónadas que uma pessoa tem. Aquando da puberdade, uma pessoa vai começar a produzir testosterona ou estradiol em maiores quantidades conforme tenha testículos ou ovários, respetivamente.

Um ponto importante sobre estas hormonas é o facto de toda a gente, independente do sexo, ter recetores para ambas as hormonas no seu corpo.

O Papel dos Esteróides Sexuais
Os esteróides sexuais têm um papel crucial no desenvolvimento das características sexuais secundárias de uma pessoa. 

Características sexuais secundárias são características que se desenvolvem a partir da puberdade devido ao efeito dos esteróides sexuais. No entanto, não têm nenhum papel direto na reprodução. Exemplos incluem: crescimento de pêlo facial ou corporal, mamas, o timbre da voz, o padrão de distribuição da gordura corporal, etc. 

Características sexuais primárias são aquelas que estão presentes desde a nascença, desenvolvem-se mais na puberdade e intervêm diretamente na reprodução. Basicamente, são os órgãos genitais externos e os gónadas (e todas as estruturas associadas aos mesmos). 

Durante a puberdade, os androgénios vão induzir mudanças como o aumento da pilosidade facial e corporal, o abaixamento do timbre da voz, desenvolvimento da massa muscular, etc. Ou seja, características geralmente associadas ao sexo masculino.

Por sua vez, os estrogénios vão causar o crescimento de mamas, o início do ciclo menstrual (se a pessoa tiver os órgãos internos necessários para que tal aconteça) e todas as características geralmente associadas ao sexo feminino. 

Como é que o corpo decide se deve produzir mais testosterona ou estradiol?
Como já referido, estas hormonas são produzidas nos gónadas. No entanto, não são os gónadas que "decidem" em relação à quantidade de hormonas que o corpo produz. A regulação destas hormonas é um trabalho de equipa entre os gónadas e o hipotálamo. 

O hipotálamo é uma região do cérebro que é extremamente importante na regulação hormonal - não só das hormonas sexuais. A temperatura corporal, fome, sede ou sono são tudo coisas controladas pelo hipotálamo. É uma ponte de ligação entre o sistema nervoso e o sistema endócrino.



Localização do hipotálamo. Imagem roubada daqui » http://brainmadesimple.com/hypothalamus.html

Quando o hipotálamo deteta níveis baixos de testosterona ou estrogénio no sangue, liberta uma hormona chamada Gonadotropin-releasing hormone (GnRH), que viaja até à hipófise (uma glândula que fica muito perto do hipotálamo). Esta hormona tem como função, tal como o seu nome sugere, estimular a libertação de gonadotropinas. 

Existem duas gonadotropinas: hormona luteinizante (LH) e a hormona folículo-estimulante (FSH, do inglês Follicle-stimulating hormone). Tanto a LH como a FSH são produzidas na hipófise e viajam até aos gónadas. Lá, a FH estimula a produção de testosterona ou estrogénio (conforme a pessoa tenha testículos ou ovários, respetivamente). A FSH promove a iniciação da maturação dos gâmetas (espermatozóides ou ovócitos).

No caso contrário, caso o hipotálamo detete níveis elevados de testosterona ou estrogénio, inibe a libertação de GnRH, o que por sua vez vai inibir a libertação de LH e FSH para o sangue, diminuindo assim a produção de testosterona ou estrogénio. 

(1) os gónadas produzem pouca testosterona ou estrogénio
(2) o hipotálamo, em resposta aos níveis hormonais baixos, produz GnRH, que é enviado para a hipófise
(3) a hipófise liberta LH e FSH para a corrente sanguínea
(4) a produção de testosterona ou estrogénio é aumentada 


E como é que isto tudo interage com a terapia hormonal com testosterona?
Durante a terapia hormonal com testosterona, estamos a introduzir testosterona no nosso corpo. Isto, por si só, vai causar o desenvolvimento das características sexuais secundárias. Como dito anteriormente, todas as pessoas têm recetores para todas as hormonas, daí a testosterona conseguir exercer os seus efeitos num corpo que, naturalmente, teria níveis de testosterona muito mais baixos. 

As mudanças induzidas pelas hormonas podem acontecer a curto, médio ou longo prazo. Por exemplo, um dos efeitos da testosterona é a estimulação dos folículos pilosos (responsáveis pelo crescimento de pêlo). Isto, normalmente, demora bastante tempo (meses ou anos) porque acontece pela mudança da expressão genética das células dos folículos, e tudo o que envolva mudar a forma como os nossos genes se comportam demora bastante tempo. 

Algo importante a considerar é o facto de existir um número limitado de recetores hormonais no nosso corpo. Se houver mais moléculas de testosterona do que recetores, as moléculas extra não estão lá a fazer nada, porque não têm forma de se ligar a lado nenhum. Isto significa que existe um ponto a partir do qual não adianta aumentar a dose da medicação que tomamos na nossa terapia hormonal. Os efeitos das hormonas e o timming com que aparecem não é algo estritamente linear. 

Aliás, a partir de certo ponto pode ser contraproducente aumentar a quantidade de testosterona que introduzimos no nosso corpo, uma vez que parte dela pode ser convertida de volta a estrogénio. Este é outro mecanismo de regulação hormonal que o nosso corpo pode accionar caso detete níveis demasiado elevados de testosterona. Existe uma molécula chamada aromatase que é importante para a síntese de estradiol. Essa molécula pega numa molécula de testosterona e transforma-a em estradiol. Portanto, ao achar que estamos a aumentar o nosso nível de testosterona, podemos estar é a aumentar o nível de estradiol.

Mecanismo geral da conversão de testosterona em estradiol. Imagem roubada da Wikipédia.


Ao fim de algum tempo da terapia hormonal, o equilíbrio hormonal no nosso corpo começa a mudar e o hipotálamo começa a aperceber-se de que já existe uma quantidade considerável de esteróides sexuais em circulação. Isto vai desencadear o processo de feedback negativo descrito acima, a produção de GnRH vai diminuir, o que por sua vez vai culminar numa diminuição da produção de estrogénio e na interrupção do ciclo menstrual. Isto costuma acontecer dentro dos primeiros 6 meses da terapia hormonal (mas este prazo pode variar consoante a pessoa). 

Uma nota/curiosidade em relação à regulação do mecanismo de feedback: cá em Portugal, tanto quanto sei, ainda não se usam os chamados "bloqueadores de puberdade". Estes são compostos que podem ser dados a uma pessoa que ainda não tenha entrado (ou que esteja ainda nas fases iniciais) na puberdade. O que essa medicação faz é bloquear os recetores de GnRH de forma a que a hipófise não receba esse sinal e nunca produza as gonadotropinas, o que por sua vez vai inibir a produção dos esteróides sexuais e assim atrasar o início da puberdade. Daí esses compostos também serem conhecidos como "bloqueadores de GnRH" ou "análogos de GnRH".

Fica aqui as bases para começar a compreender melhor o funcionamento da terapia hormonal com testosterona (ou com estrogénio! Os princípios básicos aplicam-se na mesma, embora existam algumas diferenças; poderá ser algo a explorar neste blog no futuro). Num post futuro vou continuar a elaborar mais sobre os efeitos da testosterona e sobre os tipos de medicação usados mais frequentemente.
on quinta-feira, 24 de setembro de 2015
Caríssimxs humoristas-wannabe,

É com desagrado (mas, infelizmente, sem surpresa) que vejo que ainda se aproveitam de plataformas mediáticas e do disfarce do "humor" para perpetuar ideias discriminatórias e difundir preconceitos. Este fenómeno é algo ainda relativamente raro cá em Portugal (devido, creio, à falta de visibilidade das pessoas transsexuais no país) mas depois de ver uma peça de "humor" sobre o assunto (nem me vou dignar a mencionar exatamente onde, não vos quero dar audiência) não consegui permanecer silencioso.

A peça desenvolvia-se à volta de uma entrevista de uma suposta mulher transsexual, tendo como ponto de partida a situação da Caitlyn Jenner. Invariavelmente, e mesmo sendo uma entrevista fictícia, a coisa focou-se nas operações e na tentativa de retratar a mulher como super-masculina - um homem disfarçado. 

Pode parecer inofensivo atacar uma Caitlyn Jenner - uma mulher rica, famosa, num local onde os comediantes de meia-tigela não se ouvem. Mas nós, a grande maioria das pessoas trans, não somos a Caitlyn Jenner. Não estamos imunes às consequências que este tipo de mensagens passam à população. Somos pessoas que, demasiadas vezes, somos despedidas dos nossos empregos (se os conseguirmos arranjar de todo), abandonadas pelas nossas famílias e ignoradas pelos sistemas de saúde. Há quem se vá safando, hoje em dia são cada vez mais as histórias com finais felizes, mas não deixamos de ser uma população com elevadíssimas taxas de tentativas de suicídio, com alta incidência de depressões, discriminações e - sim - alvos fáceis para piadolas parvas. 

Não é preciso muito trabalho, inteligência ou originalidade para fazer piadas à nossa custa e para transformar as nossas vulnerabilidades em punch-lines. Ninguém quer saber se ofendem "os travecos", se fazem pouco da mulher com voz grave ou se se aproveitam das reações de nojo das pessoas quando confrontadas com as "operações de mudança de sexo". Ninguém quer saber. Mesmo quando são chamados à atenção chovem "justificações": é sátira, não sejam tão sensíveis, é só um bocado de humor!

Isso não é humor, é bullying. 

Fazer piadas que perpetuam o status quo de discriminação de um grupo de pessoas extremamente vulneráveis repetindo os mesmos mantras preconceituosos de sempre não passa de bullying, e quem o faz não passam de pessoas que apenas se deram ao trabalho de encontrar uma presa fácil sem pensar duas vezes nas pessoas que realmente podem estar a afetar.

Ninguém está a salvo do humor, é um facto. Nem estou a defender que não se deva fazer humor à volta das pessoas transsexuais. No entanto, há formas inteligentes de o fazer. É possível fazer humor à volta deste tema sem ser um idiota completo - aliás, é algo que eu tento incorporar no meu ativismo ou até mesmo em momentos mais pessoais, entre amigos e familiares. Eu sou um fã enorme do humor, tanto como entretenimento puro como como forma de intervenção social. Eu adoro fazer piadas comigo próprio, apontar absurdidades do processo de transição ou simplesmente rir-me de situações mais graves como forma de lidar com as coisas. 

O humor pode ser uma ferramenta extremamente útil para a mudança de mentalidades. Ou, no mínimo, pode não ajudar a deitar abaixo um setor da população que já se encontra no fundo da hierarquia social. Tem é de ser bem feito e minimamente inteligente. 

Só para deixar um exemplo:




É possível fazer peças humorísticas que façam as pessoas pensar e questionar. O humor não tem de se ficar pelas gargalhadas vazias, e custa-me ve-lo a ser usado como justificação e meio de perpetuação de ideias que afetam de forma tão negativa as pessoas transsexuais (ou qualquer outra população que calhe de ser o alvo da piada do dia). Eu não gostava de ver o humor à volta das pessoas trans desaparecer, gostava era de não o ver a tornar-se em mais um veículo para a discriminação. Recuso-me a aceitar standards tão baixos ao ponto de considerar um discurso de ódio e ridícularização transfóbica como humor a sério. 

Ao reciclar piadas que reforçam ideias preconceituosas, só vão estar a entreter e a validar pessoas preconceituosas. Eu entretanto fico a aguardar pelo dia em que se torne comum fazer piadas à custa de pessoas e de pseudo-humoristas transfóbicos. 
on sábado, 12 de setembro de 2015
Foi publicado ontem um artigo no dezanove a reportar o suicídio de Santiago Martinez, homem transexual com 30 anos residente em Lisboa. De acordo com o testemunho de Nicole Ferreira, amiga do Santiago, as dificuldades económicas associadas à transição, maus resultados cirúrgicos, depressão e preconceito terão sido fatores importantes para este desfecho trágico. É profundamente lamentável que se tenham reunido as condições que levaram a que o Santiago tenha optado por terminar a sua própria vida.

Notícias sobre suicídios de pessoas trans são, infelizmente, relativamente comuns. Tem havido um aumento no número deste tipo de notícias (provavelmente devido ao aumento da visibilidade e consciencialização entre a população) mas julgo ser a primeira vez que vejo algo semelhante relativo a uma pessoa portuguesa nos últimos anos. Faz pensar na quantidade de pessoas relativamente próximas que terão enveredado pelo mesmo caminho mas que permaneceram invisíveis, ou nas que poderão estar a caminho do mesmo mas que permanecem igualmente silenciosas.

Da última vez que este assunto foi mencionado no blog, referi-me a Leelah Alcorn como tendo sido vítima de transfobia. Algumas pessoas tentaram corrigir-me e dizer que não se tratava de um caso de transfobia uma vez que tinha sido a própria Leelah a tirar a sua própria vida, mas a minha opinião permanece inalterada. 

O suicídio da Leelah Alcorn, do Santiago Martinez e de todas as pessoas trans que se suicidaram devido à sua transição são casos de transfobia, crimes de ódio e negligência. 


Quando...

  • 46% e 42% dos homens e mulheres transexuais (respetivamente) tentam ou cometem suicídio [1] (comparativamente a 1.6% da população em geral[2])
  • está demonstrado que as tentativas e ideações suicidas reduzem drasticamente com a inclusão social, apoio familiar[3], acesso a cuidados de saúde adequados e facilitação da adequação dos documentos legais à identidade da pessoa [4]
  • apesar disto, as pessoas transexuais continuam a ser alvo de chacota, ridículo, "piadas" dezumanizantes, acusadas de perversão e fraude [preciso mesmo de referências para isto?]
  • a única unidade cirúrgica especializada do sistema nacional de saúde não é transparente nem com os utentes transexuais nem com os profissionais de saúde que os acompanham [5]
  • o ministério de saúde considera que a resposta atual do SNS é eficaz e adequada [5], contrastando com o desespero das pessoas transexuais que estão há anos à espera de uma resposta ou de uma chamada para cirurgia

... é-me impossível não considerar os suicídios de pessoas trans como casos óbvios e extremos de transfobia. 

As pessoas não optam por se suicidar assim do nada. Quando tal acontece é porque a pessoa já terá esgotado quaisquer outras alternativas e esperanças de uma vida melhor. Todo o clima hostil e dezumanizante em relação às pessoas trans é a causa destas mortes. São assassínios de pessoas trans por uma sociedade profundamente transfóbica que nos diz que as nossas vidas pouco ou nada valem.

As nossas vidas têm importância. O mundo à nossa volta ainda vai demorar bastante a mudar e ver isso mas, entretanto, há formas de sobreviver. Existem pequenas redes de apoio, pequenos grupos de pessoas aqui e ali, dispersos mas sempre disponíveis para ajudar. Existem pessoas a revoltar-se e a tentar construir um futuro melhor. Existe um futuro para cada um de nós.
on quarta-feira, 29 de julho de 2015
Passou-se quase um mês sem que eu tenha escrito nada para este blog. Nem nos 1001 rascunhos que tenho abertos peguei. Para mim é algo estranho, uma vez que este blog tem sido um hobbie que me consome uma parte significativa do meu tempo desde que o iniciei. 

É engraçada a forma como comecei a sentir falta de cá escrever. Quando comecei a escrever aqui fi-lo mais como forma de passar o tempo antes de conseguir iniciar a minha transição clínica. Ler e escrever sobre o assunto fazia-me sentir menos só, como se fizesse parte de algum tipo de "comunidade" e estivesse a contribuir para a mesma. À medida que o tempo foi passando, fui ficando mais exigente comigo próprio em relação ao que escrevia e fui-me apercebendo da minha própria falta de conhecimento sobre imensos temas. 

Quando escrevo alguma peça nova para o blog, tento sempre reunir informação e informar-me sobre os assuntos que abordo (mesmo quando se tratam de artigos de opinião, gosto sempre de ver as várias opiniões e tentar compreender os vários lados de um argumento). É uma tarefa cansativa, muitas vezes acaba por atrasar o desenvolvimento dos meus textos mas no final acaba por ser bastante positivo. Neste momento, a quantidade de texto que leio é muitíssimo maior em relação à quantidade de texto que escrevo sobre um determinado tópico. Tem sido ótimo não só do ponto de vista intelectual, mas também como forma de crescimento pessoal através da troca de experiências, opiniões e informação (na primeira pessoa).

No entanto, nem sempre tenho paciência para o fazer, e durante as últimas semanas ando sem grande cabeça para escrever textos adequados para este blog. Acho que estou numa altura em que questões pessoais relacionadas com a transição esgotam a maior parte da minha disponibilidade psicológica para lidar com assuntos relacionados com questões trans. Para quem tiver curiosidade sobre o que se tem passado, podem visitar um outro blog que tenho onde documento a minha transição de uma forma mais pessoal. 

Entretanto, vou começar a reiniciar o hábito de escrever aqui (mesmo que não publique, a lista de rascunhos do blog tem estado demasiado estática). Stay tuned.
on terça-feira, 2 de junho de 2015
Esta página serve como referência rápida sobre vários termos que vou usando ao longo do blog. As definições que aqui se encontram não são exaustivas ou absolutas e estão abertas a discussão. 

Se tiverem sugestões de mais palavras para incluir, sugestões de melhoramentos, ou se quiserem esclarecimentos em relação a alguma das palavras aqui contidas, fiquem à vontade para me contactarem.


(uma nota em relação à palavra "oposto": em algumas definições uso a expressão "género oposto", estando subentendido que existe uma oposição entre apenas dois géneros. Eu não acredito neste tipo de binarismo absoluto de género, mas a sociedade em geral enforça esta ideia, o que acaba por se manifestar nas palavras que usamos e nas definições das mesmas. Há palavras cuja existência parte logo do pressuposto que só existem dois géneros, tornando-se impossível defini-las sem referenciar um género "oposto" porque as definições são referentes à realidade em que estamos inseridos, que não reconhece mais géneros além dos dois "feminino/masculino". Portanto, uso a palavra "oposto" apenas quando não encontro uma forma melhor de definir algumas das palavras, não sendo minha intenção ignorar ou negar a existência de mais géneros além dos dois tradicionalmente aceites na sociedade em que estamos inseridos)

Androginia: expressão de género que não é claramente masculina ou feminina [ver: Expressão de género]

Binário de género: sistema de classificação de géneros no qual só existem duas classificações possíveis e mutuamente exclusivas: género feminino ou género masculino. É o sistema mais amplamente aceite na sociedade atual.

Bloqueadores de puberdade: medicação usada para parar a puberdade em crianças ou jovens adolescentes. Os bloqueadores de puberdade inibem temporariamente a produção de hormonas sexuais e o desenvolvimento dos órgãos reprodutores. Não confundir com inibidores hormonais [ver: Inibidores hormonais, Estrogénio, Testosterona]

Características sexuais primárias: elementos do corpo de um indivíduo que estão diretamente relacionados com funções reprodutoras (pénis, testículos, vagina, útero, ovários, etc)

Características sexuais secundárias: características que surgem num indivíduo quando este atinge a puberdade; são diferentes para indivíduos do sexo masculino ou feminino, embora não intervenham diretamente na reprodução (pêlo facial, mamas, voz, etc).

Cirurgias de reconstrução genital: conjunto de intervenções cirúrgicas que têm como objetivo modificar os genitais de uma pessoa de forma a que estes se assemelhem em função e aparência aos genitais associados ao sexo com o qual a pessoa se identifica. Não existe apenas uma única cirurgia, mas sim um conjunto de cirurgias, técnicas e opções que podem variar de acordo com as necessidades de cada pessoa [ver: Transição clínica]

Cisgénero: sinónimo de cissexual. Indivíduo que se identifica com o género associado ao sexo que lhe foi atribuído à nascença. 

Cis: diminutivo de cisgénero ou cissexual. [ver: Cisgénero]

Cisnormatividade: enviesamento social e legal a favor das pessoas cisgénero; assumção de que as identidades de género das pessoas cis são mais legítimas e reais do que as das pessoas trans e de que as pessoas cis são superiores às pessoas trans. [ver: Cisgénero, Trans]

Coming-Out: sinónimo de "sair do armário". Expressão que significa revelar a orientação sexual ou identidade de género a outras pessoas. Pode também significar a revelação a outras pessoas da nossa condição como trans (caso tal não seja óbvio). 

Cross-dresser: indivíduo que, por gosto, prazer ou entretenimento, usa roupas associadas ao género oposto ao género com o qual se identifica. Não está relacionado com a identidade de género de um indivíduo. [ver: Papéis de género]

Despatologização: ato de despatologizar. Quando usado sob a forma "despatologização trans" refere-se a uma ideologia e movimento (não formalmente definido) que reivindica a cessação da patologização das pessoas trans, a retirada da transsexualidade dos manuais de doenças psiquiátricas e o abolimento da necessidade de um diagnóstico clínico para dar acesso à transição clínica. [ver: Disforia, Transição clínica]

Disforia: sinónimo de "descontentamento" ou "insatisfação". Quando usado sob a forma "disforia de género" refere-se aos sentimentos de descontentamento e/ou dissociação em relação ao sexo ou ao género associado ao sexo que foi atribuído à nascença de uma pessoa. É o fator motivador principal das pessoas que fazem a transição. É também o nome do atual disgnóstico que se faz às pessoas trans que queiram iniciar a transição clínica [ver: Sexo atribuído à nascença, Transição]

Drag: performance durante a qual um indivíduo usa roupas, acessórios e adota maneirismos (geralmente de forma exagerada) associados ao sexo oposto ao qual se identifica. As performances de drag incluem cross-dressing, mas nem todos os cross-dressers fazem performances de drag. Não está relacionado com a identidade de género de um indivíduo. [ver: Cross-dresser]

Estrogénio: grupo de hormonas sexuais associadas ao sexo feminino. São produzidas principalmente pelos ovários e, em menores quantidades, pela glândula suprerrenal, fígado ou outros tecidos. O estradiol, um dos tipos de estrogénio, é a hormona mais usada na terapia hormonal feita pelas mulheres trans [ver: Terapia hormonal]

Expressão de género: manifestações externas do género de um indivíduo. Podem tomar a forma de estilos de roupa, maneirismos, posturas, nome próprio, pronomes, etc. Servem para comunicar à sociedade o nosso género (podendo estar, ou não, de acordo com os papéis de género que uma dada sociedade atribui a cada um dos géneros). [ver: Papéis de género, Identidade de Género, Género] 

FTM: Female-To-Male. Sinónimo de homem/rapaz trans. [ver: Homem/rapaz trans]

Genderqueer: termo usado por algumas pessoas que não se identificam com nenhum dos dois géneros tradicionalmente aceites socialmente (homem ou mulher). Também usado por indivíduos que rejeitam por completo o binário de género e se recusam a definir-se com base neste. Pode ser usado (consoante a pessoa) como sinónimo de género não binário. [ver: binário de género, Género não binário]

Género: localização de um indivíduo relativamente aos eixos da identidade de género e sexo. [ver: Identidade de género, Sexo] 

Género não binário: categoria de género que não se enquadra dentro dos dois géneros pré-definidos pelo sistema de género binário em vigor na sociedade atual. Os indivíduos que pertencem a um género não binário não se conseguem identificar como nenhum dos dois géneros de forma exclusiva ou de todo, podendo até rejeitar por completo o sistema binário e definirem-se independentemente dos dois referenciais binários [ver: Binário de género, Genderqueer]

Homem/rapaz trans: indivíduo cujo sexo atribuído à nascença foi o sexo feminino, mas que se identifica como pertencente ao sexo masculino. Sinónimo de FTM. [ver: FTM]

Identidade de género: identificação pessoal, subjetiva e autonomamente determinada que cada indivíduo tem relativamente ao seu género. Pode, ou não, estar de acordo com o género associado ao sexo que lhe foi atribuído à nascença [ver: Sexo atribuído à nascença, Papéis de género, Género].

Inibidores hormonais: medicação usada para inibir o efeito das hormonas sexuais. São usados, principalmente, durante a terapia hormonal feita pelas mulheres trans para bloquear a ação da testosterona. Não confundir com bloqueadores de puberdade [ver: Bloqueadores de puberdade, Estrogénio, Terapia hormonal] 

Intersexo: indivíduo portador de diferenças congénitas nas características sexuais físicas (relativamente às características associadas ao sexo masculino ou feminino). Pode manifestar-se como variações cromossómicas, variações na expressão genética, variações hormonais ou nos órgãos reprodutores do indivíduo. (adaptado de: Organization Intersex International - What is intersex? )

Marcador de sexo: referência, em documentação variada ou formulários, ao sexo atribuído (ou re-atribuído) a um indivíduo. Em Portugal apenas são permitidos os marcadores M (masculino) ou F (feminino). [ver: Transição legal]

MTF: Male-To-Female Sinónimo de mulher/rapariga trans. [ver: Mulher/rapariga trans]

Mulher/rapariga trans: indivíduo cujo sexo atribuído à nascença foi o sexo masculino, mas que se identifica como pertencente ao sexo feminino.

Orientação sexual: refere-se ao(s) género(s) pelo(s) qual(is) uma pessoa se sente atraída. Não tem qualquer intervenção da identidade de género de uma pessoa. [ver: Identidade de Género]

Papéis de género: conjunto de características, traços de personalidade, gostos ou estilos associados (e culturalmente impostos) a um género. Variam muito consoante a localização geográfica e temporal de uma dada sociedade/cultura. [ver: Género]

Queer: rótulo que pode englobar qualquer variação da orientação sexual, identidade de género, expressão de género ou vivência que, de alguma forma, rompa com as normas e pressupostos da sociedade em relação à forma como as relações inter-pessoais (principalmente afetivas, românticas e/ou sexuais) são vividas. Devido à abrangência extrema deste rótulo, é impossível defini-lo de forma mais concreta.

Sexo: sistema de classificação tendo como base características geno ou fenotípicas de um indivíduo. Os indivíduos podem ser classificados, geralmente, como sendo do sexo masculino ou feminino. 

Sexo atribuído à nascença: refere-se à classificação que é imposta a um indivíduo, no momento do seu nascimento, como pertencente ao sexo masculino ou sexo feminino. Esta classificação é feita, na maior parte dos casos, com base na aparência dos órgãos genitais visíveis externamente. 

Perturbação de identidade de género: nome do diagnóstico que se fazia formalmente às pessoas trans que queriam iniciar a transição clínica. Este termo ainda é usado por alguns profissionais de saúde, apesar de já ser considerado desatualizado, tendo sido substituído pelo termo "disforia de género" [ver: Disforia, Transição clínica]

Terapia hormonal: utilização de hormonas em contexto clínico/terapêutico. É bastante comum entre a população transsexual, sendo usada com o objetivo de desencadear mudanças físicas que aproximem o corpo da pessoa ao corpo correspondente ao género com o qual a pessoa se identifica. 

Testosterona: hormona sexual associada ao sexo masculino. É secretada principalmente pelos testículos e, em menores quantidades, pelos ovários e pela glândula suprarrenal. É a hormona usada na terapia hormonal feita pelos homens trans [ver: Terapia hormonal]

Trans: diminutivo de transgénero ou transsexual. Normalmente (mas nem sempre) usado como sinónimo de transgénero.[ver: Transgénero, Transsexual]

Transfobia: medo, aversão e/ou intolerância em relação a pessoas trans ou percecionadas como tal. É o principal fator responsável pela discriminação e violência dirigida a pessoas trans.

Transgénero: termo abrangente que inclui qualquer pessoa que, por qualquer razão, não se identifica com o género associado ao sexo que lhe foi atribuído à nascença. Pode, ou não, fazer algum tipo de transição [ver: Sexo atribuído à nascença, Transição]

Transição: conjunto de etapas que uma pessoa trans faz com o objetivo de aliviar a sua disforia e poder viver como um indivíduo pertencente ao género com o qual se identifica. Pode envolver etapas clínicas, sociais e/ou legais. [ver: Trans, Disforia, Transição clínica, Transição legal, Transição social]

Transição Clínica: conjunto de etapas clínicas feitas no âmbito de uma transição. Pode incluir apoio psicológico, intervenções hormonais, intervenções cirúrgicas ou outro tipo de procedimentos médicos que tem como objetivo aliviar a disforia de uma pessoa trans. [ver: Transição, Terapia hormonal, Cirurgias de reconstrução genital, Disforia]

Transição legal: mudança de nome próprio e do marcador de sexo no registo civil, obtenção de um novo assento de nascimento com o nome corrigido e modificação de quaisquer documentos que tenham de ser atualizados com o nome e/ou marcador de sexo corrigidos. [ver: marcador de sexo]

Transição social: conjunto de etapas que uma pessoa trans faz com o objetivo de poder viver socialmente como uma pessoa pertencente e aceite socialmente como pertencente ao género com o qual se identifica. Pode incluir a adoção de um novo nome próprio, mudança dos pronomes usados para se referenciar a si própria, mudanças na aparência, estilos de roupa, maneirismos (de forma a ficarem congruentes com os papéis de géneros associados ao género com o qual a pessoa se identifica), etc. [ver: Papéis de género]

Transsexual: indivíduo que não se identifica com o género associado ao sexo que lhe foi atribuído à nascença. Frequentemente descrevem sentir disforia de género e fazem algum tipo de transição com o objetivo de aliviar essa disforia. [ver: Sexo atribuído à nascença, Disforia, Transição]


on sexta-feira, 22 de maio de 2015
Com o aproximar do mês de junho, recomeçam os debates em torno das marchas do orgulho e, um bocado "de arrasto" ao tema, do ativismo LGBT. Ultimamente, a maioria das conversas que tenho tido à volta deste tema prendem-se com o sentido que faz (ou não) incluir questões relativas à identidade de género num movimento que, 99% das vezes, fala apenas em questões relativas à orientação sexual.

A inclusão do "T" na sigla "LGBT" é motivo de debate já há bastante tempo. Não é minha intenção entrar por aí neste momento, mas fica aqui mais um tema para a minha crescente pilha de "temas a abordar no futuro". 

Independentemente dos motivos que levam a que o T esteja associado ao resto do movimento LGB, um facto é que essa associação existe, embora seja na maior parte das vezes apenas simbólica. A grande maioria das associações e coletivos LGBT na realidade dão apenas atenção aos primeiros 3/4 da sigla e lembram-se do "T" quando é conveniente para a sua agenda ou para mostrar que são "inclusivos". Isto torna-se óbvio nos discursos e iniciativas dessas entidades, que são quase exclusivamente dirigidos à população LGB de tal forma que parece que nem sequer se lembram que o T lá está. Na maior parte dos casos nem sequer chega a ser uma exclusão ativa do T, é simplesmente um enviesamento na forma como as pessoas pensam, algo quase inconsciente, que leva a que a sigla LGBT seja usada como sinónimo de "gays e lésbicas" (a população bissexual é também frequentemente deixada de fora). Por exemplo, quando divulgam estudos dirigidos à população LGBT, mas depois dizem que estão à procura apenas de "homens ou mulheres homossexuais", ou quando tiram conclusões sobre a percentagem de "pessoas LGBT" que estão fora do armário usando um questionário que lhes perguntava apenas sobre a sua orientação sexual. 

Este tipo de atitude aparece não só nestes momentos mais "pequenos" e aparentemente menos significantes, é algo transversal a todo o movimento e ativismo LGBT. Esquecem-se do T na hora de reivindicar direitos e no planeamento de outro tipo de atividades. Quando se lembram, muitas vezes esquecem-se de perguntar às pessoas T exatamente quais são os direitos que precisamos de reivindicar ou o que é que gostaríamos de ver nos eventos. O resultado disto é uma representação, quando não totalmente ausente, distorcida (e por vezes até antagónica) da população trans em espaços LGBT. 

Depois há o outro lado da moeda: a representação do T é má porque as pessoas T não se fazem representar. É raríssimo encontrar pessoas trans em posições relevantes dentro das associações e coletivos LGBT. Há quem argumente que isto é o que está na origem de todo este problema, no entanto eu acho que isso é estar a pôr as coisas do avesso. Não é tanto a ausência de pessoas trans que causa uma má representação no ativismo - o que acontece é que a maioria das pessoas trans não encontra aquilo que precisa nas associações LGBT, portanto nunca ganham interesse em envolver-se no trabalho das mesmas. Este é um sentimento que vejo com bastante frequência entre pessoas trans. Eu próprio sinto isso muitas vezes.

Quando estava a começar a procurar informação e ajuda para iniciar a minha transição, os primeiros sítios onde procurei foram associações e coletivos LGBT. Nunca cheguei a encontrar a informação que precisava nesses locais. Consegui ir fazendo alguns contactos úteis, mas a informação que precisava não estava facilmente acessível nem fazia parte das ferramentas e know-how dessas associações. 

Por alguma razão, fui mantendo contacto com essas associações (penso que uma boa parte da razão para tal foi uma tentativa de permanecer em negação em relação à minha identidade de género, descartar o problema como sendo apenas uma questão de orientação sexual) até aos dias de hoje. Neste momento, trabalho junto da rede ex aequo, estou envolvido em alguns dos seus projetos e faço parte da atual equipa da direção. Este trabalho tem sido um desafio interessante em vários sentidos, mas há algo que começo a reparar e que me tem feito pensar: há pessoas trans dentro da rede ex aequo, estão é escondidas. 

Há cerca de um ano atrás, em conversa com uma amiga, ela congratulou-me por ser a primeira pessoa trans a fazer parte da coordenação de um grupo local da rede ex aequo. Hoje em dia, teria de a desmentir: já houve outras pessoas trans em coordenações de grupos locais antes de mim. O problema era que essas pessoas não eram assumidamente trans. (aliás, eu próprio estive nessa situação em tempos: coordenava um grupo local mas ainda me apresentava no feminino)

Eu só me apercebi disto quando essas pessoas vieram ter comigo e me contaram que eram trans mas que nunca tinham dito nada a ninguém, em parte porque nunca tinham conhecido mais ninguém trans nem sabiam bem por onde começar a abordar o assunto (mesmo dentro da própria associação). Também já tive outras pessoas que, não fazendo parte de nenhum projeto da associação, me confidenciaram que eram trans, mas que também não sabiam o que fazer e não encontravam aquilo que precisavam na associação. 

Um fenómeno curioso que também tenho notado é em relação ao fórum da associação. Quem o visitar fica com a ideia que há uma ou duas pessoas trans por lá (isto se conseguir encontrar os tópicos onde as questões trans são abordadas). Costumam ser sempre as mesmas pessoas a levantar esses assuntos e a responder aos poucos pedidos de apoio que vão surgindo de longe a longe. Por outro lado, quem espreitar na minha caixa de entrada de mensagens privadas, vê um cenário bastante diferente. Por esta altura a minha caixa de entrada está repleta de mensagens trocadas com pessoas trans que, apesar de não participarem no fórum, andam por lá à procura de apoio. Também surgem alguns emails enviados para o email geral da associação a pedir apoio na vertente trans, mas são em menor número. 

Isto leva-me a ter de reforçar a importância de:
1) haver pessoas visivelmente trans, e acessíveis, dentro das associações LGBT
2) haver sensibilidade para não alienar as pessoas trans que já andam nas associações LGBT

(uma nota sobre a  expressão "visivelmente trans": não me refiro a ter de haver pessoas que sejam publicamente trans, mas sim a haver alguma forma de identificar pessoas trans dentro dos espaços e eventos da associação. Por exemplo, eu faço questão em identificar-me como trans no fórum e dou "carta verde" aos meus colegas dos vários projetos da associação para que revelem que sou trans a outras pessoas caso isso seja relevante no contexto das atividades da associação. No entanto, fora da associação, a minha transexualidade pode permanecer privada)

Ou seja, é importante, antes de pedirmos às pessoas trans que se mostrem, criar um ambiente que seja convidativo a que elas se mostrem. É importantíssimo não descurar as questões trans, não só para "chamar" e manter essas pessoas nas associações, mas principalmente porque, provavelmente, elas já cá estão. O facto de permanecerem escondidas é um sintoma da falta de preparação e sensibilidade que a maioria das associações tem em relação a estas questões. 

Não sei se posso assumir (mas vou assumir na mesma) que algo semelhante se passe em outras associações LGBT. As pessoas trans andam por lá, mas estão bastante relutantes em fazerem-se ouvir.