on quinta-feira, 24 de setembro de 2015
Caríssimxs humoristas-wannabe,

É com desagrado (mas, infelizmente, sem surpresa) que vejo que ainda se aproveitam de plataformas mediáticas e do disfarce do "humor" para perpetuar ideias discriminatórias e difundir preconceitos. Este fenómeno é algo ainda relativamente raro cá em Portugal (devido, creio, à falta de visibilidade das pessoas transsexuais no país) mas depois de ver uma peça de "humor" sobre o assunto (nem me vou dignar a mencionar exatamente onde, não vos quero dar audiência) não consegui permanecer silencioso.

A peça desenvolvia-se à volta de uma entrevista de uma suposta mulher transsexual, tendo como ponto de partida a situação da Caitlyn Jenner. Invariavelmente, e mesmo sendo uma entrevista fictícia, a coisa focou-se nas operações e na tentativa de retratar a mulher como super-masculina - um homem disfarçado. 

Pode parecer inofensivo atacar uma Caitlyn Jenner - uma mulher rica, famosa, num local onde os comediantes de meia-tigela não se ouvem. Mas nós, a grande maioria das pessoas trans, não somos a Caitlyn Jenner. Não estamos imunes às consequências que este tipo de mensagens passam à população. Somos pessoas que, demasiadas vezes, somos despedidas dos nossos empregos (se os conseguirmos arranjar de todo), abandonadas pelas nossas famílias e ignoradas pelos sistemas de saúde. Há quem se vá safando, hoje em dia são cada vez mais as histórias com finais felizes, mas não deixamos de ser uma população com elevadíssimas taxas de tentativas de suicídio, com alta incidência de depressões, discriminações e - sim - alvos fáceis para piadolas parvas. 

Não é preciso muito trabalho, inteligência ou originalidade para fazer piadas à nossa custa e para transformar as nossas vulnerabilidades em punch-lines. Ninguém quer saber se ofendem "os travecos", se fazem pouco da mulher com voz grave ou se se aproveitam das reações de nojo das pessoas quando confrontadas com as "operações de mudança de sexo". Ninguém quer saber. Mesmo quando são chamados à atenção chovem "justificações": é sátira, não sejam tão sensíveis, é só um bocado de humor!

Isso não é humor, é bullying. 

Fazer piadas que perpetuam o status quo de discriminação de um grupo de pessoas extremamente vulneráveis repetindo os mesmos mantras preconceituosos de sempre não passa de bullying, e quem o faz não passam de pessoas que apenas se deram ao trabalho de encontrar uma presa fácil sem pensar duas vezes nas pessoas que realmente podem estar a afetar.

Ninguém está a salvo do humor, é um facto. Nem estou a defender que não se deva fazer humor à volta das pessoas transsexuais. No entanto, há formas inteligentes de o fazer. É possível fazer humor à volta deste tema sem ser um idiota completo - aliás, é algo que eu tento incorporar no meu ativismo ou até mesmo em momentos mais pessoais, entre amigos e familiares. Eu sou um fã enorme do humor, tanto como entretenimento puro como como forma de intervenção social. Eu adoro fazer piadas comigo próprio, apontar absurdidades do processo de transição ou simplesmente rir-me de situações mais graves como forma de lidar com as coisas. 

O humor pode ser uma ferramenta extremamente útil para a mudança de mentalidades. Ou, no mínimo, pode não ajudar a deitar abaixo um setor da população que já se encontra no fundo da hierarquia social. Tem é de ser bem feito e minimamente inteligente. 

Só para deixar um exemplo:




É possível fazer peças humorísticas que façam as pessoas pensar e questionar. O humor não tem de se ficar pelas gargalhadas vazias, e custa-me ve-lo a ser usado como justificação e meio de perpetuação de ideias que afetam de forma tão negativa as pessoas transsexuais (ou qualquer outra população que calhe de ser o alvo da piada do dia). Eu não gostava de ver o humor à volta das pessoas trans desaparecer, gostava era de não o ver a tornar-se em mais um veículo para a discriminação. Recuso-me a aceitar standards tão baixos ao ponto de considerar um discurso de ódio e ridícularização transfóbica como humor a sério. 

Ao reciclar piadas que reforçam ideias preconceituosas, só vão estar a entreter e a validar pessoas preconceituosas. Eu entretanto fico a aguardar pelo dia em que se torne comum fazer piadas à custa de pessoas e de pseudo-humoristas transfóbicos. 
on sábado, 12 de setembro de 2015
Foi publicado ontem um artigo no dezanove a reportar o suicídio de Santiago Martinez, homem transexual com 30 anos residente em Lisboa. De acordo com o testemunho de Nicole Ferreira, amiga do Santiago, as dificuldades económicas associadas à transição, maus resultados cirúrgicos, depressão e preconceito terão sido fatores importantes para este desfecho trágico. É profundamente lamentável que se tenham reunido as condições que levaram a que o Santiago tenha optado por terminar a sua própria vida.

Notícias sobre suicídios de pessoas trans são, infelizmente, relativamente comuns. Tem havido um aumento no número deste tipo de notícias (provavelmente devido ao aumento da visibilidade e consciencialização entre a população) mas julgo ser a primeira vez que vejo algo semelhante relativo a uma pessoa portuguesa nos últimos anos. Faz pensar na quantidade de pessoas relativamente próximas que terão enveredado pelo mesmo caminho mas que permaneceram invisíveis, ou nas que poderão estar a caminho do mesmo mas que permanecem igualmente silenciosas.

Da última vez que este assunto foi mencionado no blog, referi-me a Leelah Alcorn como tendo sido vítima de transfobia. Algumas pessoas tentaram corrigir-me e dizer que não se tratava de um caso de transfobia uma vez que tinha sido a própria Leelah a tirar a sua própria vida, mas a minha opinião permanece inalterada. 

O suicídio da Leelah Alcorn, do Santiago Martinez e de todas as pessoas trans que se suicidaram devido à sua transição são casos de transfobia, crimes de ódio e negligência. 


Quando...

  • 46% e 42% dos homens e mulheres transexuais (respetivamente) tentam ou cometem suicídio [1] (comparativamente a 1.6% da população em geral[2])
  • está demonstrado que as tentativas e ideações suicidas reduzem drasticamente com a inclusão social, apoio familiar[3], acesso a cuidados de saúde adequados e facilitação da adequação dos documentos legais à identidade da pessoa [4]
  • apesar disto, as pessoas transexuais continuam a ser alvo de chacota, ridículo, "piadas" dezumanizantes, acusadas de perversão e fraude [preciso mesmo de referências para isto?]
  • a única unidade cirúrgica especializada do sistema nacional de saúde não é transparente nem com os utentes transexuais nem com os profissionais de saúde que os acompanham [5]
  • o ministério de saúde considera que a resposta atual do SNS é eficaz e adequada [5], contrastando com o desespero das pessoas transexuais que estão há anos à espera de uma resposta ou de uma chamada para cirurgia

... é-me impossível não considerar os suicídios de pessoas trans como casos óbvios e extremos de transfobia. 

As pessoas não optam por se suicidar assim do nada. Quando tal acontece é porque a pessoa já terá esgotado quaisquer outras alternativas e esperanças de uma vida melhor. Todo o clima hostil e dezumanizante em relação às pessoas trans é a causa destas mortes. São assassínios de pessoas trans por uma sociedade profundamente transfóbica que nos diz que as nossas vidas pouco ou nada valem.

As nossas vidas têm importância. O mundo à nossa volta ainda vai demorar bastante a mudar e ver isso mas, entretanto, há formas de sobreviver. Existem pequenas redes de apoio, pequenos grupos de pessoas aqui e ali, dispersos mas sempre disponíveis para ajudar. Existem pessoas a revoltar-se e a tentar construir um futuro melhor. Existe um futuro para cada um de nós.
on quarta-feira, 29 de julho de 2015
Passou-se quase um mês sem que eu tenha escrito nada para este blog. Nem nos 1001 rascunhos que tenho abertos peguei. Para mim é algo estranho, uma vez que este blog tem sido um hobbie que me consome uma parte significativa do meu tempo desde que o iniciei. 

É engraçada a forma como comecei a sentir falta de cá escrever. Quando comecei a escrever aqui fi-lo mais como forma de passar o tempo antes de conseguir iniciar a minha transição clínica. Ler e escrever sobre o assunto fazia-me sentir menos só, como se fizesse parte de algum tipo de "comunidade" e estivesse a contribuir para a mesma. À medida que o tempo foi passando, fui ficando mais exigente comigo próprio em relação ao que escrevia e fui-me apercebendo da minha própria falta de conhecimento sobre imensos temas. 

Quando escrevo alguma peça nova para o blog, tento sempre reunir informação e informar-me sobre os assuntos que abordo (mesmo quando se tratam de artigos de opinião, gosto sempre de ver as várias opiniões e tentar compreender os vários lados de um argumento). É uma tarefa cansativa, muitas vezes acaba por atrasar o desenvolvimento dos meus textos mas no final acaba por ser bastante positivo. Neste momento, a quantidade de texto que leio é muitíssimo maior em relação à quantidade de texto que escrevo sobre um determinado tópico. Tem sido ótimo não só do ponto de vista intelectual, mas também como forma de crescimento pessoal através da troca de experiências, opiniões e informação (na primeira pessoa).

No entanto, nem sempre tenho paciência para o fazer, e durante as últimas semanas ando sem grande cabeça para escrever textos adequados para este blog. Acho que estou numa altura em que questões pessoais relacionadas com a transição esgotam a maior parte da minha disponibilidade psicológica para lidar com assuntos relacionados com questões trans. Para quem tiver curiosidade sobre o que se tem passado, podem visitar um outro blog que tenho onde documento a minha transição de uma forma mais pessoal. 

Entretanto, vou começar a reiniciar o hábito de escrever aqui (mesmo que não publique, a lista de rascunhos do blog tem estado demasiado estática). Stay tuned.
on terça-feira, 2 de junho de 2015
Esta página serve como referência rápida sobre vários termos que vou usando ao longo do blog. As definições que aqui se encontram não são exaustivas ou absolutas e estão abertas a discussão. 

Se tiverem sugestões de mais palavras para incluir, sugestões de melhoramentos, ou se quiserem esclarecimentos em relação a alguma das palavras aqui contidas, fiquem à vontade para me contactarem.


(uma nota em relação à palavra "oposto": em algumas definições uso a expressão "género oposto", estando subentendido que existe uma oposição entre apenas dois géneros. Eu não acredito neste tipo de binarismo absoluto de género, mas a sociedade em geral enforça esta ideia, o que acaba por se manifestar nas palavras que usamos e nas definições das mesmas. Há palavras cuja existência parte logo do pressuposto que só existem dois géneros, tornando-se impossível defini-las sem referenciar um género "oposto" porque as definições são referentes à realidade em que estamos inseridos, que não reconhece mais géneros além dos dois "feminino/masculino". Portanto, uso a palavra "oposto" apenas quando não encontro uma forma melhor de definir algumas das palavras, não sendo minha intenção ignorar ou negar a existência de mais géneros além dos dois tradicionalmente aceites na sociedade em que estamos inseridos)

Androginia: expressão de género que não é claramente masculina ou feminina [ver: Expressão de género]

Binário de género: sistema de classificação de géneros no qual só existem duas classificações possíveis e mutuamente exclusivas: género feminino ou género masculino. É o sistema mais amplamente aceite na sociedade atual.

Bloqueadores de puberdade: medicação usada para parar a puberdade em crianças ou jovens adolescentes. Os bloqueadores de puberdade inibem temporariamente a produção de hormonas sexuais e o desenvolvimento dos órgãos reprodutores. Não confundir com inibidores hormonais [ver: Inibidores hormonais, Estrogénio, Testosterona]

Características sexuais primárias: elementos do corpo de um indivíduo que estão diretamente relacionados com funções reprodutoras (pénis, testículos, vagina, útero, ovários, etc)

Características sexuais secundárias: características que surgem num indivíduo quando este atinge a puberdade; são diferentes para indivíduos do sexo masculino ou feminino, embora não intervenham diretamente na reprodução (pêlo facial, mamas, voz, etc).

Cirurgias de reconstrução genital: conjunto de intervenções cirúrgicas que têm como objetivo modificar os genitais de uma pessoa de forma a que estes se assemelhem em função e aparência aos genitais associados ao sexo com o qual a pessoa se identifica. Não existe apenas uma única cirurgia, mas sim um conjunto de cirurgias, técnicas e opções que podem variar de acordo com as necessidades de cada pessoa [ver: Transição clínica]

Cisgénero: sinónimo de cissexual. Indivíduo que se identifica com o género associado ao sexo que lhe foi atribuído à nascença. 

Cis: diminutivo de cisgénero ou cissexual. [ver: Cisgénero]

Cisnormatividade: enviesamento social e legal a favor das pessoas cisgénero; assumção de que as identidades de género das pessoas cis são mais legítimas e reais do que as das pessoas trans e de que as pessoas cis são superiores às pessoas trans. [ver: Cisgénero, Trans]

Coming-Out: sinónimo de "sair do armário". Expressão que significa revelar a orientação sexual ou identidade de género a outras pessoas. Pode também significar a revelação a outras pessoas da nossa condição como trans (caso tal não seja óbvio). 

Cross-dresser: indivíduo que, por gosto, prazer ou entretenimento, usa roupas associadas ao género oposto ao género com o qual se identifica. Não está relacionado com a identidade de género de um indivíduo. [ver: Papéis de género]

Despatologização: ato de despatologizar. Quando usado sob a forma "despatologização trans" refere-se a uma ideologia e movimento (não formalmente definido) que reivindica a cessação da patologização das pessoas trans, a retirada da transsexualidade dos manuais de doenças psiquiátricas e o abolimento da necessidade de um diagnóstico clínico para dar acesso à transição clínica. [ver: Disforia, Transição clínica]

Disforia: sinónimo de "descontentamento" ou "insatisfação". Quando usado sob a forma "disforia de género" refere-se aos sentimentos de descontentamento e/ou dissociação em relação ao sexo ou ao género associado ao sexo que foi atribuído à nascença de uma pessoa. É o fator motivador principal das pessoas que fazem a transição. É também o nome do atual disgnóstico que se faz às pessoas trans que queiram iniciar a transição clínica [ver: Sexo atribuído à nascença, Transição]

Drag: performance durante a qual um indivíduo usa roupas, acessórios e adota maneirismos (geralmente de forma exagerada) associados ao sexo oposto ao qual se identifica. As performances de drag incluem cross-dressing, mas nem todos os cross-dressers fazem performances de drag. Não está relacionado com a identidade de género de um indivíduo. [ver: Cross-dresser]

Estrogénio: grupo de hormonas sexuais associadas ao sexo feminino. São produzidas principalmente pelos ovários e, em menores quantidades, pela glândula suprerrenal, fígado ou outros tecidos. O estradiol, um dos tipos de estrogénio, é a hormona mais usada na terapia hormonal feita pelas mulheres trans [ver: Terapia hormonal]

Expressão de género: manifestações externas do género de um indivíduo. Podem tomar a forma de estilos de roupa, maneirismos, posturas, nome próprio, pronomes, etc. Servem para comunicar à sociedade o nosso género (podendo estar, ou não, de acordo com os papéis de género que uma dada sociedade atribui a cada um dos géneros). [ver: Papéis de género, Identidade de Género, Género] 

FTM: Female-To-Male. Sinónimo de homem/rapaz trans. [ver: Homem/rapaz trans]

Genderqueer: termo usado por algumas pessoas que não se identificam com nenhum dos dois géneros tradicionalmente aceites socialmente (homem ou mulher). Também usado por indivíduos que rejeitam por completo o binário de género e se recusam a definir-se com base neste. Pode ser usado (consoante a pessoa) como sinónimo de género não binário. [ver: binário de género, Género não binário]

Género: localização de um indivíduo relativamente aos eixos da identidade de género e sexo. [ver: Identidade de género, Sexo] 

Género não binário: categoria de género que não se enquadra dentro dos dois géneros pré-definidos pelo sistema de género binário em vigor na sociedade atual. Os indivíduos que pertencem a um género não binário não se conseguem identificar como nenhum dos dois géneros de forma exclusiva ou de todo, podendo até rejeitar por completo o sistema binário e definirem-se independentemente dos dois referenciais binários [ver: Binário de género, Genderqueer]

Homem/rapaz trans: indivíduo cujo sexo atribuído à nascença foi o sexo feminino, mas que se identifica como pertencente ao sexo masculino. Sinónimo de FTM. [ver: FTM]

Identidade de género: identificação pessoal, subjetiva e autonomamente determinada que cada indivíduo tem relativamente ao seu género. Pode, ou não, estar de acordo com o género associado ao sexo que lhe foi atribuído à nascença [ver: Sexo atribuído à nascença, Papéis de género, Género].

Inibidores hormonais: medicação usada para inibir o efeito das hormonas sexuais. São usados, principalmente, durante a terapia hormonal feita pelas mulheres trans para bloquear a ação da testosterona. Não confundir com bloqueadores de puberdade [ver: Bloqueadores de puberdade, Estrogénio, Terapia hormonal] 

Intersexo: indivíduo portador de diferenças congénitas nas características sexuais físicas (relativamente às características associadas ao sexo masculino ou feminino). Pode manifestar-se como variações cromossómicas, variações na expressão genética, variações hormonais ou nos órgãos reprodutores do indivíduo. (adaptado de: Organization Intersex International - What is intersex? )

Marcador de sexo: referência, em documentação variada ou formulários, ao sexo atribuído (ou re-atribuído) a um indivíduo. Em Portugal apenas são permitidos os marcadores M (masculino) ou F (feminino). [ver: Transição legal]

MTF: Male-To-Female Sinónimo de mulher/rapariga trans. [ver: Mulher/rapariga trans]

Mulher/rapariga trans: indivíduo cujo sexo atribuído à nascença foi o sexo masculino, mas que se identifica como pertencente ao sexo feminino.

Orientação sexual: refere-se ao(s) género(s) pelo(s) qual(is) uma pessoa se sente atraída. Não tem qualquer intervenção da identidade de género de uma pessoa. [ver: Identidade de Género]

Papéis de género: conjunto de características, traços de personalidade, gostos ou estilos associados (e culturalmente impostos) a um género. Variam muito consoante a localização geográfica e temporal de uma dada sociedade/cultura. [ver: Género]

Queer: rótulo que pode englobar qualquer variação da orientação sexual, identidade de género, expressão de género ou vivência que, de alguma forma, rompa com as normas e pressupostos da sociedade em relação à forma como as relações inter-pessoais (principalmente afetivas, românticas e/ou sexuais) são vividas. Devido à abrangência extrema deste rótulo, é impossível defini-lo de forma mais concreta.

Sexo: sistema de classificação tendo como base características geno ou fenotípicas de um indivíduo. Os indivíduos podem ser classificados, geralmente, como sendo do sexo masculino ou feminino. 

Sexo atribuído à nascença: refere-se à classificação que é imposta a um indivíduo, no momento do seu nascimento, como pertencente ao sexo masculino ou sexo feminino. Esta classificação é feita, na maior parte dos casos, com base na aparência dos órgãos genitais visíveis externamente. 

Perturbação de identidade de género: nome do diagnóstico que se fazia formalmente às pessoas trans que queriam iniciar a transição clínica. Este termo ainda é usado por alguns profissionais de saúde, apesar de já ser considerado desatualizado, tendo sido substituído pelo termo "disforia de género" [ver: Disforia, Transição clínica]

Terapia hormonal: utilização de hormonas em contexto clínico/terapêutico. É bastante comum entre a população transsexual, sendo usada com o objetivo de desencadear mudanças físicas que aproximem o corpo da pessoa ao corpo correspondente ao género com o qual a pessoa se identifica. 

Testosterona: hormona sexual associada ao sexo masculino. É secretada principalmente pelos testículos e, em menores quantidades, pelos ovários e pela glândula suprarrenal. É a hormona usada na terapia hormonal feita pelos homens trans [ver: Terapia hormonal]

Trans: diminutivo de transgénero ou transsexual. Normalmente (mas nem sempre) usado como sinónimo de transgénero.[ver: Transgénero, Transsexual]

Transfobia: medo, aversão e/ou intolerância em relação a pessoas trans ou percecionadas como tal. É o principal fator responsável pela discriminação e violência dirigida a pessoas trans.

Transgénero: termo abrangente que inclui qualquer pessoa que, por qualquer razão, não se identifica com o género associado ao sexo que lhe foi atribuído à nascença. Pode, ou não, fazer algum tipo de transição [ver: Sexo atribuído à nascença, Transição]

Transição: conjunto de etapas que uma pessoa trans faz com o objetivo de aliviar a sua disforia e poder viver como um indivíduo pertencente ao género com o qual se identifica. Pode envolver etapas clínicas, sociais e/ou legais. [ver: Trans, Disforia, Transição clínica, Transição legal, Transição social]

Transição Clínica: conjunto de etapas clínicas feitas no âmbito de uma transição. Pode incluir apoio psicológico, intervenções hormonais, intervenções cirúrgicas ou outro tipo de procedimentos médicos que tem como objetivo aliviar a disforia de uma pessoa trans. [ver: Transição, Terapia hormonal, Cirurgias de reconstrução genital, Disforia]

Transição legal: mudança de nome próprio e do marcador de sexo no registo civil, obtenção de um novo assento de nascimento com o nome corrigido e modificação de quaisquer documentos que tenham de ser atualizados com o nome e/ou marcador de sexo corrigidos. [ver: marcador de sexo]

Transição social: conjunto de etapas que uma pessoa trans faz com o objetivo de poder viver socialmente como uma pessoa pertencente e aceite socialmente como pertencente ao género com o qual se identifica. Pode incluir a adoção de um novo nome próprio, mudança dos pronomes usados para se referenciar a si própria, mudanças na aparência, estilos de roupa, maneirismos (de forma a ficarem congruentes com os papéis de géneros associados ao género com o qual a pessoa se identifica), etc. [ver: Papéis de género]

Transsexual: indivíduo que não se identifica com o género associado ao sexo que lhe foi atribuído à nascença. Frequentemente descrevem sentir disforia de género e fazem algum tipo de transição com o objetivo de aliviar essa disforia. [ver: Sexo atribuído à nascença, Disforia, Transição]


on sexta-feira, 22 de maio de 2015
Com o aproximar do mês de junho, recomeçam os debates em torno das marchas do orgulho e, um bocado "de arrasto" ao tema, do ativismo LGBT. Ultimamente, a maioria das conversas que tenho tido à volta deste tema prendem-se com o sentido que faz (ou não) incluir questões relativas à identidade de género num movimento que, 99% das vezes, fala apenas em questões relativas à orientação sexual.

A inclusão do "T" na sigla "LGBT" é motivo de debate já há bastante tempo. Não é minha intenção entrar por aí neste momento, mas fica aqui mais um tema para a minha crescente pilha de "temas a abordar no futuro". 

Independentemente dos motivos que levam a que o T esteja associado ao resto do movimento LGB, um facto é que essa associação existe, embora seja na maior parte das vezes apenas simbólica. A grande maioria das associações e coletivos LGBT na realidade dão apenas atenção aos primeiros 3/4 da sigla e lembram-se do "T" quando é conveniente para a sua agenda ou para mostrar que são "inclusivos". Isto torna-se óbvio nos discursos e iniciativas dessas entidades, que são quase exclusivamente dirigidos à população LGB de tal forma que parece que nem sequer se lembram que o T lá está. Na maior parte dos casos nem sequer chega a ser uma exclusão ativa do T, é simplesmente um enviesamento na forma como as pessoas pensam, algo quase inconsciente, que leva a que a sigla LGBT seja usada como sinónimo de "gays e lésbicas" (a população bissexual é também frequentemente deixada de fora). Por exemplo, quando divulgam estudos dirigidos à população LGBT, mas depois dizem que estão à procura apenas de "homens ou mulheres homossexuais", ou quando tiram conclusões sobre a percentagem de "pessoas LGBT" que estão fora do armário usando um questionário que lhes perguntava apenas sobre a sua orientação sexual. 

Este tipo de atitude aparece não só nestes momentos mais "pequenos" e aparentemente menos significantes, é algo transversal a todo o movimento e ativismo LGBT. Esquecem-se do T na hora de reivindicar direitos e no planeamento de outro tipo de atividades. Quando se lembram, muitas vezes esquecem-se de perguntar às pessoas T exatamente quais são os direitos que precisamos de reivindicar ou o que é que gostaríamos de ver nos eventos. O resultado disto é uma representação, quando não totalmente ausente, distorcida (e por vezes até antagónica) da população trans em espaços LGBT. 

Depois há o outro lado da moeda: a representação do T é má porque as pessoas T não se fazem representar. É raríssimo encontrar pessoas trans em posições relevantes dentro das associações e coletivos LGBT. Há quem argumente que isto é o que está na origem de todo este problema, no entanto eu acho que isso é estar a pôr as coisas do avesso. Não é tanto a ausência de pessoas trans que causa uma má representação no ativismo - o que acontece é que a maioria das pessoas trans não encontra aquilo que precisa nas associações LGBT, portanto nunca ganham interesse em envolver-se no trabalho das mesmas. Este é um sentimento que vejo com bastante frequência entre pessoas trans. Eu próprio sinto isso muitas vezes.

Quando estava a começar a procurar informação e ajuda para iniciar a minha transição, os primeiros sítios onde procurei foram associações e coletivos LGBT. Nunca cheguei a encontrar a informação que precisava nesses locais. Consegui ir fazendo alguns contactos úteis, mas a informação que precisava não estava facilmente acessível nem fazia parte das ferramentas e know-how dessas associações. 

Por alguma razão, fui mantendo contacto com essas associações (penso que uma boa parte da razão para tal foi uma tentativa de permanecer em negação em relação à minha identidade de género, descartar o problema como sendo apenas uma questão de orientação sexual) até aos dias de hoje. Neste momento, trabalho junto da rede ex aequo, estou envolvido em alguns dos seus projetos e faço parte da atual equipa da direção. Este trabalho tem sido um desafio interessante em vários sentidos, mas há algo que começo a reparar e que me tem feito pensar: há pessoas trans dentro da rede ex aequo, estão é escondidas. 

Há cerca de um ano atrás, em conversa com uma amiga, ela congratulou-me por ser a primeira pessoa trans a fazer parte da coordenação de um grupo local da rede ex aequo. Hoje em dia, teria de a desmentir: já houve outras pessoas trans em coordenações de grupos locais antes de mim. O problema era que essas pessoas não eram assumidamente trans. (aliás, eu próprio estive nessa situação em tempos: coordenava um grupo local mas ainda me apresentava no feminino)

Eu só me apercebi disto quando essas pessoas vieram ter comigo e me contaram que eram trans mas que nunca tinham dito nada a ninguém, em parte porque nunca tinham conhecido mais ninguém trans nem sabiam bem por onde começar a abordar o assunto (mesmo dentro da própria associação). Também já tive outras pessoas que, não fazendo parte de nenhum projeto da associação, me confidenciaram que eram trans, mas que também não sabiam o que fazer e não encontravam aquilo que precisavam na associação. 

Um fenómeno curioso que também tenho notado é em relação ao fórum da associação. Quem o visitar fica com a ideia que há uma ou duas pessoas trans por lá (isto se conseguir encontrar os tópicos onde as questões trans são abordadas). Costumam ser sempre as mesmas pessoas a levantar esses assuntos e a responder aos poucos pedidos de apoio que vão surgindo de longe a longe. Por outro lado, quem espreitar na minha caixa de entrada de mensagens privadas, vê um cenário bastante diferente. Por esta altura a minha caixa de entrada está repleta de mensagens trocadas com pessoas trans que, apesar de não participarem no fórum, andam por lá à procura de apoio. Também surgem alguns emails enviados para o email geral da associação a pedir apoio na vertente trans, mas são em menor número. 

Isto leva-me a ter de reforçar a importância de:
1) haver pessoas visivelmente trans, e acessíveis, dentro das associações LGBT
2) haver sensibilidade para não alienar as pessoas trans que já andam nas associações LGBT

(uma nota sobre a  expressão "visivelmente trans": não me refiro a ter de haver pessoas que sejam publicamente trans, mas sim a haver alguma forma de identificar pessoas trans dentro dos espaços e eventos da associação. Por exemplo, eu faço questão em identificar-me como trans no fórum e dou "carta verde" aos meus colegas dos vários projetos da associação para que revelem que sou trans a outras pessoas caso isso seja relevante no contexto das atividades da associação. No entanto, fora da associação, a minha transexualidade pode permanecer privada)

Ou seja, é importante, antes de pedirmos às pessoas trans que se mostrem, criar um ambiente que seja convidativo a que elas se mostrem. É importantíssimo não descurar as questões trans, não só para "chamar" e manter essas pessoas nas associações, mas principalmente porque, provavelmente, elas já cá estão. O facto de permanecerem escondidas é um sintoma da falta de preparação e sensibilidade que a maioria das associações tem em relação a estas questões. 

Não sei se posso assumir (mas vou assumir na mesma) que algo semelhante se passe em outras associações LGBT. As pessoas trans andam por lá, mas estão bastante relutantes em fazerem-se ouvir.
on quinta-feira, 16 de abril de 2015
Desde que o publiquei, o post "Marterpost: Binders" tem sido, consistentemente, o post que recebe mais visitas deste blog.


Por esse motivo, decidi tornar o conteúdo desse post mais facilmente acessível e partilhável offline, transformando-o num guia que podem descarregar em formato pdf (o link encontra-se no final deste post). A versão pdf foi revista e expandida (o post original deverá ser atualizado em breve) e será atualizada à medida que mais informação e/ou correções forem aparecendo. 

Se detetarem algum problema com os links de download, deixem aqui um comentário!


Download:
Guia Binders v.1 [pdf] - [preview]


on domingo, 12 de abril de 2015
Aqui está a 2ª parte da série "Perguntas Frequentes". Podem consultar a 1ª parte, referente a questões mais ligadas à transição clínica e legal, aqui

Só depois de ter acabado de redigir este post é que me ocorreu que a ordem dos posts das "Perguntas Frequentes" devia ter sido ao contrário. Este contém mais perguntas vindas de pessoas que ainda estão na fase de questionamento e descoberta da sua identidade, só avançando para a transição propriamente dita (que é o tema da primeira parte desta série) mais tarde. Mas pronto, agora fica assim.

Também me lembrei que, sendo um homem, frequento maioritariamente espaços para homens trans. Podem haver questões que surjam com mais frequência entre as mulheres trans, mas eu nao tenho acesso a isso porque não costumo frequentar espaços exclusivamente femininos. Portanto acho importante deixar esta nota e reconhecer o enviesamento na minha perceção do que são as perguntas mais frequentes.



Comecei a pedir às pessoas para mudarem o nome e pronomes que usam comigo, mas sinto-me mal/constrangido quando o fazem. O que é que isto significa?
Significa que velhos hábitos são difíceis de ultrapassar. Depois de passarmos uma vida inteira a sermos tratados por um nome, é estranho de repente isso mudar. Podemos estranhar o novo nome (mesmo sendo um nome que nós próprios escolhemos), podemos sentir que as pessoas só o usam para nos "fazer o favor", podemos sentir que é algo forçado e que estamos a ser um inconveniente para as outras pessoas. Tudo isto é normal e passa com o tempo, à medida que nos habituamos. 
Normalmente as pessoas que colocam esta questão estão preocupadas porque pensam que isto pode significar que, na realidade, mudar o nome foi um erro e que não são mesmo transexuais. Isto pode corresponder à realidade em alguns casos, caso não se sintam bem com qualquer um dos passos da vossa transição, parem e pensem bem se é aquilo que vos faz sentir bem antes de avançar mais. No entanto, na maioria dos casos que vejo, é apenas uma questão de insegurança e dificuldade em ultrapassar o hábito do antigo nome. Passado algum tempo as pessoas já me dizem que afinal está tudo bem e que se sentem mal é quando alguém lhes trata pelo nome anterior.


Não planeio fazer qualquer modificação aos meus genitais. Será que sou mesmo trans?
relacionada com:
Ainda não modifiquei os meus genitais, mas consigo ter relações sexuais/masturbar-me, ter prazer e atingir o orgasmo. Significa isto que na realidade não serei mesmo trans?
ou, mais genericamente:
Eu não rejeito por completo o meu corpo. Serei mesmo trans?
Sim, é possível estarmos bem com os nossos genitais (ou outras partes do nosso corpo) e ser transexual. Ao contrário do que é divulgado em quase tudo o que é sítio, ser transexual não significa que odiamos o nosso corpo, ou que sintamos que estamos no "corpo errado". Há pessoas que se identificam com este tipo de narrativa, mas não é uma regra, e há cada vez mais pessoas trans que parecem rejeitar este tipo de descrição para si próprias. Este tipo de ideia continua a ser reforçado hoje em dia porque é uma forma "fácil" de a população cis compreender e normalizar a nossa existência - é mais fácil dizer que as pessoas trans estão no corpo errado do que admitir que nem todas as pessoas encaixam nas expectativas anatómicas do que é um homem ou uma mulher. É o mesmo problema associado à palavra "disforia" que é descrita como um "ódio ao corpo", quando na realidade é algo mais complexo e com mais tons de cinza do que isso.
Na realidade, cada pessoa trans tem a sua própria relação com o seu corpo. Há quem sinta que realmente está num corpo totalmente errado, mas também há quem não rejeite por completo todas as características sexuais primárias ou secundárias. 


Eu tenho gostos muito femininos/masculinos, será que sou mesmo um homem/mulher trans?
Os nossos gostos pessoais nada têm a ver com a nossa identidade de género. É possível um homem gostar de usar vestidos cor-de-rosa e uma mulher entender imenso de mecânica automóvel. Esse tipo de papeis de género é algo completamente artificial e que não revela nada sobre a nossa identidade nem retira legitimidade à nossa masculinidade ou feminilidade. Não há nada de errado em gostar de coisas que a sociedade define como sendo do "sexo oposto", e não é por sermos transexuais que temos de obedecer a essas regras artificiais e arbitrárias. 


Tenho imensas dúvidas em relação a aquilo que preciso (ou não) na transição. Sinto que essas dúvidas retiram legitimidade à minha identidade. Serei mesmo trans?
Esta é das questões que mais me faz ferver o sangue - não por causa da pessoa que colocou a pergunta, mas pelo o que levou a pessoa a ter esta dúvida. Não, ninguém é "menos" trans por ter dúvidas. Ter dúvidas é extremamente normal e expectável, e é horrível existir este mindset de que nós temos de ter 100% de certeza de tudo o que precisamos para nos sentirmos "legítimos". Ter dúvidas, por si só, pode ser algo que nos consome e aterroriza durante este processo, mas pior que isso é começarmos a questionar a nossa própria identidade porque "não é suposto" termos dúvidas. É normal ter dúvidas em relação à nossa identidade, em relação à terapia hormonal, em relação às cirurgias, em relação a qualquer passo do processo de transição. A transição é algo sério e que muda a nossa vida, por vezes de forma irreversível - estranho seria se não tivéssemos dúvidas! Duvidar é bom, faz-nos pensar, ponderar bem e procurar as melhores soluções para os problemas. 
Portanto, se tiverem dúvidas, não se sintam inibidos. Falem com as pessoas, procurem informação e mantenham a mente aberta para as respostas que forem descobrindo. 


Quando era criança não sabia que era trans/não insistia com os meus pais que pertencia ao sexo oposto/tinha comportamentos típicos do género que me foi atribuído. Serei mesmo trans?
Nem todas as pessoas trans sabem que o são desde a infância. Normalmente este "estereótipo" da pessoa que sabe que é trans e que reza a deus para que lhe cresça (ou caia) a pilinha desde os 5 anos é apenas isso - um estereótipo. É algo que aparece em quase tudo o que é reportagem ou documentário sobre o assunto porque é muito mais fácil criar empatia por uma criança (cuja transexualidade é vista como algo inquestionavelmente inato e inocente) do que por um adulto (que é visto como um pervertido ou mentalmente perturbado). Já vi também algumas pessoas trans a confessarem que, embora não saibam desde pequeninas, dizem às pessoas o contrário numa tentativa de tentar ser mais facilmente aceites pelas pessoas à sua volta. Portanto, este é um estereótipo que parece conservar-se a si mesmo, não por corresponder à realidade, mas porque as pessoas confirmam-no mesmo que não se identifiquem com ele. 
Tudo isto para dizer que não, não é por não sabermos ou não insistirmos com os nossos pais desde crianças que deixamos de ser transexuais. 


Tenho medo que os médicos e psicólogos não me deixem avançar para a transição. Devo mentir-lhes para que me facilitem a vida?
Não. Mentir aos profissionais de saúde nunca é uma boa ideia e acaba por ser contraproducente. Existem relatos de casos em que os médicos se revelaram uns enormes idiotas e atrasaram imenso a vida a algumas pessoas mas, felizmente, esses relatos parecem ser cada vez menos e as alternativas cada vez mais. Os relatos que vejo de casos de médicos-bestas envolvem sempre o médico a "avaliar" a pessoa de acordo com critérios absurdos de masculinidade ou feminilidade, o que significa que a única forma de os persuadir seria criar uma fachada enorme que correspondesse ao que esse médico entende que é um homem ou mulher "a sério". Caso não tenham mais nenhuma alternativa, então façam o que tiverem a fazer para ultrapassar esse médico. No entanto, ao faze-lo estão a colaborar com uma pessoa que não tem o vosso melhor interesse em mente e que, caso um dia precisem mesmo da ajuda dele, provavelmente não a terão. Muito melhor será desistirem desse médico e procurarem outro. Hoje em dia já não vivemos tão isolados uns dos outros, é mais fácil encontrarmos informações sobre outros médicos e sobre opiniões dos utentes em relação aos mesmos, não precisamos de nos (nem devemos) prender a maus profissionais de saúde. 


Estou à espera para começar a terapia hormonal há imenso tempo. Há alguma alternativa que possa tomar enquanto espero?
Esta pergunta muitas vezes vem associada a "remédios caseiros" ou "suplementos naturais" que dizem aumentar os níveis de testosterona ou estrogénio da pessoa. Eu não sei até que ponto esses suplementos realmente fazem o que dizem, mas mesmo que tenham algum efeito esse será residual e nunca se comparará aos efeitos da terapia hormonal. E, provavelmente, serão caros. O melhor é não gastar dinheiro e expectativas com esse tipo de alternativas.


Posso, legalmente, usar o WC concordante com o género com o qual me identifico?
Em Portugal não há nenhuma lei que regule esta questão. O ideal para escolher o WC onde vamos é usar senso comum. Quem é visto pelas outras pessoas, consistentemente, como o género com o qual se identifica poderá frequentar espaços específicos do género com o qual se identifica (ex: as pessoas vêm-me como um homem, portanto eu posso ir ao WC masculino sem problemas). No entanto, se a maioria das pessoas não vos vir como pertencentes ao vosso género, entrar num WC concordante com o vosso género pode ser perigoso.


Ás vezes as pessoas (amigos, familiares) fazem-me perguntas invasivas. Como é que respondo a isto?
Responde da forma que te sentires mais confortável. No entanto tem em conta que, lá por sermos transexuais, não temos a obrigação de sermos um recurso de informação sempre disponível para as outras pessoas. Temos as nossas próprias reservas e limites de paciência para responder e explicar as nossas vidas ou escolhas a outras pessoas. Nós não temos de nos justificar a toda a gente, não temos de ter a validação de toda a gente nem temos de ser ativistas se não quisermos. Portanto, cabe a cada um decidir que informação quer revelar sobre si próprio ou sobre a questão da transexualidade em geral.