on quinta-feira, 16 de abril de 2015
Desde que o publiquei, o post "Marterpost: Binders" tem sido, consistentemente, o post que recebe mais visitas deste blog.


Por esse motivo, decidi tornar o conteúdo desse post mais facilmente acessível e partilhável offline, transformando-o num guia que podem descarregar em formato pdf (o link encontra-se no final deste post). A versão pdf foi revista e expandida (o post original deverá ser atualizado em breve) e será atualizada à medida que mais informação e/ou correções forem aparecendo. 

Se detetarem algum problema com os links de download, deixem aqui um comentário!


Download:
Guia Binders v.1 [pdf] - [preview]


on domingo, 12 de abril de 2015
Aqui está a 2ª parte da série "Perguntas Frequentes". Podem consultar a 1ª parte, referente a questões mais ligadas à transição clínica e legal, aqui

Só depois de ter acabado de redigir este post é que me ocorreu que a ordem dos posts das "Perguntas Frequentes" devia ter sido ao contrário. Este contém mais perguntas vindas de pessoas que ainda estão na fase de questionamento e descoberta da sua identidade, só avançando para a transição propriamente dita (que é o tema da primeira parte desta série) mais tarde. Mas pronto, agora fica assim.

Também me lembrei que, sendo um homem, frequento maioritariamente espaços para homens trans. Podem haver questões que surjam com mais frequência entre as mulheres trans, mas eu nao tenho acesso a isso porque não costumo frequentar espaços exclusivamente femininos. Portanto acho importante deixar esta nota e reconhecer o enviesamento na minha perceção do que são as perguntas mais frequentes.



Comecei a pedir às pessoas para mudarem o nome e pronomes que usam comigo, mas sinto-me mal/constrangido quando o fazem. O que é que isto significa?
Significa que velhos hábitos são difíceis de ultrapassar. Depois de passarmos uma vida inteira a sermos tratados por um nome, é estranho de repente isso mudar. Podemos estranhar o novo nome (mesmo sendo um nome que nós próprios escolhemos), podemos sentir que as pessoas só o usam para nos "fazer o favor", podemos sentir que é algo forçado e que estamos a ser um inconveniente para as outras pessoas. Tudo isto é normal e passa com o tempo, à medida que nos habituamos. 
Normalmente as pessoas que colocam esta questão estão preocupadas porque pensam que isto pode significar que, na realidade, mudar o nome foi um erro e que não são mesmo transexuais. Isto pode corresponder à realidade em alguns casos, caso não se sintam bem com qualquer um dos passos da vossa transição, parem e pensem bem se é aquilo que vos faz sentir bem antes de avançar mais. No entanto, na maioria dos casos que vejo, é apenas uma questão de insegurança e dificuldade em ultrapassar o hábito do antigo nome. Passado algum tempo as pessoas já me dizem que afinal está tudo bem e que se sentem mal é quando alguém lhes trata pelo nome anterior.


Não planeio fazer qualquer modificação aos meus genitais. Será que sou mesmo trans?
relacionada com:
Ainda não modifiquei os meus genitais, mas consigo ter relações sexuais/masturbar-me, ter prazer e atingir o orgasmo. Significa isto que na realidade não serei mesmo trans?
ou, mais genericamente:
Eu não rejeito por completo o meu corpo. Serei mesmo trans?
Sim, é possível estarmos bem com os nossos genitais (ou outras partes do nosso corpo) e ser transexual. Ao contrário do que é divulgado em quase tudo o que é sítio, ser transexual não significa que odiamos o nosso corpo, ou que sintamos que estamos no "corpo errado". Há pessoas que se identificam com este tipo de narrativa, mas não é uma regra, e há cada vez mais pessoas trans que parecem rejeitar este tipo de descrição para si próprias. Este tipo de ideia continua a ser reforçado hoje em dia porque é uma forma "fácil" de a população cis compreender e normalizar a nossa existência - é mais fácil dizer que as pessoas trans estão no corpo errado do que admitir que nem todas as pessoas encaixam nas expectativas anatómicas do que é um homem ou uma mulher. É o mesmo problema associado à palavra "disforia" que é descrita como um "ódio ao corpo", quando na realidade é algo mais complexo e com mais tons de cinza do que isso.
Na realidade, cada pessoa trans tem a sua própria relação com o seu corpo. Há quem sinta que realmente está num corpo totalmente errado, mas também há quem não rejeite por completo todas as características sexuais primárias ou secundárias. 


Eu tenho gostos muito femininos/masculinos, será que sou mesmo um homem/mulher trans?
Os nossos gostos pessoais nada têm a ver com a nossa identidade de género. É possível um homem gostar de usar vestidos cor-de-rosa e uma mulher entender imenso de mecânica automóvel. Esse tipo de papeis de género é algo completamente artificial e que não revela nada sobre a nossa identidade nem retira legitimidade à nossa masculinidade ou feminilidade. Não há nada de errado em gostar de coisas que a sociedade define como sendo do "sexo oposto", e não é por sermos transexuais que temos de obedecer a essas regras artificiais e arbitrárias. 


Tenho imensas dúvidas em relação a aquilo que preciso (ou não) na transição. Sinto que essas dúvidas retiram legitimidade à minha identidade. Serei mesmo trans?
Esta é das questões que mais me faz ferver o sangue - não por causa da pessoa que colocou a pergunta, mas pelo o que levou a pessoa a ter esta dúvida. Não, ninguém é "menos" trans por ter dúvidas. Ter dúvidas é extremamente normal e expectável, e é horrível existir este mindset de que nós temos de ter 100% de certeza de tudo o que precisamos para nos sentirmos "legítimos". Ter dúvidas, por si só, pode ser algo que nos consome e aterroriza durante este processo, mas pior que isso é começarmos a questionar a nossa própria identidade porque "não é suposto" termos dúvidas. É normal ter dúvidas em relação à nossa identidade, em relação à terapia hormonal, em relação às cirurgias, em relação a qualquer passo do processo de transição. A transição é algo sério e que muda a nossa vida, por vezes de forma irreversível - estranho seria se não tivéssemos dúvidas! Duvidar é bom, faz-nos pensar, ponderar bem e procurar as melhores soluções para os problemas. 
Portanto, se tiverem dúvidas, não se sintam inibidos. Falem com as pessoas, procurem informação e mantenham a mente aberta para as respostas que forem descobrindo. 


Quando era criança não sabia que era trans/não insistia com os meus pais que pertencia ao sexo oposto/tinha comportamentos típicos do género que me foi atribuído. Serei mesmo trans?
Nem todas as pessoas trans sabem que o são desde a infância. Normalmente este "estereótipo" da pessoa que sabe que é trans e que reza a deus para que lhe cresça (ou caia) a pilinha desde os 5 anos é apenas isso - um estereótipo. É algo que aparece em quase tudo o que é reportagem ou documentário sobre o assunto porque é muito mais fácil criar empatia por uma criança (cuja transexualidade é vista como algo inquestionavelmente inato e inocente) do que por um adulto (que é visto como um pervertido ou mentalmente perturbado). Já vi também algumas pessoas trans a confessarem que, embora não saibam desde pequeninas, dizem às pessoas o contrário numa tentativa de tentar ser mais facilmente aceites pelas pessoas à sua volta. Portanto, este é um estereótipo que parece conservar-se a si mesmo, não por corresponder à realidade, mas porque as pessoas confirmam-no mesmo que não se identifiquem com ele. 
Tudo isto para dizer que não, não é por não sabermos ou não insistirmos com os nossos pais desde crianças que deixamos de ser transexuais. 


Tenho medo que os médicos e psicólogos não me deixem avançar para a transição. Devo mentir-lhes para que me facilitem a vida?
Não. Mentir aos profissionais de saúde nunca é uma boa ideia e acaba por ser contraproducente. Existem relatos de casos em que os médicos se revelaram uns enormes idiotas e atrasaram imenso a vida a algumas pessoas mas, felizmente, esses relatos parecem ser cada vez menos e as alternativas cada vez mais. Os relatos que vejo de casos de médicos-bestas envolvem sempre o médico a "avaliar" a pessoa de acordo com critérios absurdos de masculinidade ou feminilidade, o que significa que a única forma de os persuadir seria criar uma fachada enorme que correspondesse ao que esse médico entende que é um homem ou mulher "a sério". Caso não tenham mais nenhuma alternativa, então façam o que tiverem a fazer para ultrapassar esse médico. No entanto, ao faze-lo estão a colaborar com uma pessoa que não tem o vosso melhor interesse em mente e que, caso um dia precisem mesmo da ajuda dele, provavelmente não a terão. Muito melhor será desistirem desse médico e procurarem outro. Hoje em dia já não vivemos tão isolados uns dos outros, é mais fácil encontrarmos informações sobre outros médicos e sobre opiniões dos utentes em relação aos mesmos, não precisamos de nos (nem devemos) prender a maus profissionais de saúde. 


Estou à espera para começar a terapia hormonal há imenso tempo. Há alguma alternativa que possa tomar enquanto espero?
Esta pergunta muitas vezes vem associada a "remédios caseiros" ou "suplementos naturais" que dizem aumentar os níveis de testosterona ou estrogénio da pessoa. Eu não sei até que ponto esses suplementos realmente fazem o que dizem, mas mesmo que tenham algum efeito esse será residual e nunca se comparará aos efeitos da terapia hormonal. E, provavelmente, serão caros. O melhor é não gastar dinheiro e expectativas com esse tipo de alternativas.


Posso, legalmente, usar o WC concordante com o género com o qual me identifico?
Em Portugal não há nenhuma lei que regule esta questão. O ideal para escolher o WC onde vamos é usar senso comum. Quem é visto pelas outras pessoas, consistentemente, como o género com o qual se identifica poderá frequentar espaços específicos do género com o qual se identifica (ex: as pessoas vêm-me como um homem, portanto eu posso ir ao WC masculino sem problemas). No entanto, se a maioria das pessoas não vos vir como pertencentes ao vosso género, entrar num WC concordante com o vosso género pode ser perigoso.


Ás vezes as pessoas (amigos, familiares) fazem-me perguntas invasivas. Como é que respondo a isto?
Responde da forma que te sentires mais confortável. No entanto tem em conta que, lá por sermos transexuais, não temos a obrigação de sermos um recurso de informação sempre disponível para as outras pessoas. Temos as nossas próprias reservas e limites de paciência para responder e explicar as nossas vidas ou escolhas a outras pessoas. Nós não temos de nos justificar a toda a gente, não temos de ter a validação de toda a gente nem temos de ser ativistas se não quisermos. Portanto, cabe a cada um decidir que informação quer revelar sobre si próprio ou sobre a questão da transexualidade em geral. 
on quinta-feira, 9 de abril de 2015
Já faz alguns anos desde que comecei a interagir com outras pessoas trans, maioritariamente via online. A maioria dos locais que existem são locais de apoio e inter-ajuda, sítios onde as pessoas podem colocar as suas dúvidas e expor problemas que tenham relacionados com a sua transição. Ao longo do tempo, fui-me apercebendo que algumas questões surgem com mais frequência que outras. Vou deixar aqui uma compilação das perguntas e dúvidas que vejo mais vezes colocadas, em nenhuma ordem em particular.

Nota: este post está dividido em 2, um com questões mais "práticas" referentes ao processo clínico e legal, e outro com questões mais relacionadas com a identidade da pessoa ou com a forma como cada um experiencia a sua vida como pessoa trans.
Este post refere-se aos aspetos práticos da transição. O segundo post chegará dentro dos próximos dias (*) O segundo post pode ser lido aqui



Como é que é o processo clínico? E como é que o inicio?
O percurso de cada pessoa pode variar de acordo com as necessidades de cada um mas, no geral, segue uma ordem do tipo: avaliações, hormonas, cirurgias.
A primeira coisa a fazer para iniciar tudo é marcar uma consulta de sexologia num hospital ou clínica que ofereça esse serviço. Para tal, servem hospitais e clínicas privadas ou, caso queiram ir pelo Serviço Nacional de Saúde (SNS), precisam de ser referidos para lá por outro profissional de saúde (um médico de família, por exemplo).


No SNS, os hospitais que têm consultas de sexologia são:
- em Lisboa: Hospital de Sta Maria, Hospital Júlio de Matos
(podem encontrar mais alguma informação aqui)


O que se segue são consultas de sexologia clínica com um psicólogo e/ou um psiquiatra para avaliar a vossa situação pessoal, fazer as avaliações psico-técnicas necessárias e, após ser concluído o diagnóstico, é-vos dado o relatório e facilitado o acesso aos passos seguintes.

Normalmente o passo seguinte (ou em simultâneo com as avaliações, em alguns casos) é a terapia hormonal. Para tal, precisam de ir a um endocrinologista. Este pode pedir-vos um ou dois relatórios; caso peça dois, estes têm de ser elaborados por duas equipas diferentes. Após alguns exames fisicos e análises, é-vos receitada a medicação necessária para a terapia hormonal (testosterona no caso dos homens, ou estrogénio e inibidores de testosterona no caso das mulheres) e podem começa-la de imediato.

Depois de tudo isto, vêem as cirurgias. Dependendo da cirurgia que querem e do vosso cirurgião de eleição, os timmings e requisitos podem variar. Por exemplo, há quem faça mastectomias sem exigir que a pessoa esteja a fazer terapia hormonal, e há quem só as faça após um tempo definido (ex: 6 meses) após o início da terapia hormonal. Cada cirurgião tem os seus critérios e as suas razões. O ideal nesta fase é procurar informação sobre as opções que têm e entrar em contacto direto com os cirurgiões para tirar as dúvidas que tiverem. 

Esta "ordem" não é universal. Há quem faça algumas partes do processo por outra ordem, há quem "salte" passos, há quem nunca faça alguns deles. A transição (os procedimentos e os timmings entre eles) deve ser moldada às necessidades de cada um.


O que é que preciso de fazer para mudar de nome?
Precisas de ter nacionalidade portuguesa, ser maior de idade e ter um diagnóstico de "perturbação de identidade de género". São esses, basicamente, os requisitos impostos pela atual lei de identidade de género. Os dois primeiros pontos são fáceis, a parte do diagnóstico é que costuma causar alguns problemas. A lei exige que apresentemos um relatório clínico que comprove esse diagnóstico, sendo que o relatório tem de ser subscrito por, pelo menos, um médico e um psicólogo. Isso significa que temos de andar em consultas e fazer as avaliações que nos exigirem, até que a equipa que nos acompanha considerar que já podemos mudar de nome; este passo pode ser fácil ou não, dependendo muito da situação pessoal de cada um e dos profissionais de saúde que nos acompanham.

A lei também menciona um requerimento de alteração de sexo e nome próprio, mas esse documento, normalmente, pode ser elaborado pelo pessoal da conservatória onde forem. 

Tendo esse diagnóstico feito, basta pegar no relatório (que vos deve ser dado pela equipa que vos acompanha), dirigirem-se a qualquer conservatória do registo civil e fazem o pedido, que deve ser respondido dentro dos 8 dias seguintes.


Que cirurgias é que tenho de fazer para poder mudar de nome?
Nenhuma. A lei de identidade de género não menciona, em local nenhum, a necessidade de cirurgias ou outras intervenções clínicas. Só precisas mesmo de ter o relatório que comprove que tens um diagnóstico de "perturbação de identidade de género".


O que é que preciso para iniciar a terapia hormonal?
Precisas de ter acesso a um endocrinologista e, pelo menos, uma avaliação concluída. Alguns endocrinologistas exigem duas avaliações, outros apenas uma. Caso sejas encaminhado para endocrinologia diretamente das consultas de sexologia, não deves ter de te preocupar com isso, uma vez que essa informação deve chegar ao endocrinologista facilmente. 


Quanto tempo é que demora entre o início do processo e a terapia hormonal?
Depende muito de caso para caso. O maior fator de atraso costuma ser as avaliações com a equipa de sexologia (ou, no caso do SNS, as filas de espera que podem durar meses). Sem a autorização dessa equipa, não podemos avançar. Há quem consiga concluir essa etapa em poucos meses, há quem demore até 2 anos. Felizmente, a convenção de nos obrigar a esperar 2 anos começa a desaparecer, mas ainda vejo algumas pessoas a dizer que tiveram de passar por isso recentemente. 


Quanto tempo dura a terapia hormonal?
Não existe tempo limite para a terapia hormonal. Para a maioria das pessoas, é algo que dura a vida inteira. As razões para isto são: 
1) só assim é possível manter todos os efeitos masculinizantes ou feminilizantes, uma vez que há efeitos que revertem caso paremos a terapia hormonal;
2) caso optemos por remover os gónadas (ovários ou testículos), torna-se imperativo continuar a terapia hormonal, uma vez que sem ela o nosso corpo fica desprovido de qualquer hormona sexual, o que pode ter consequências graves para a nossa saúde a médio e longo prazo.


A medicação da minha terapia hormonal é injetável, quem é que me pode dar a injeção?
Qualquer pessoa que tenha treino para dar injeções intramusculares pode ajudar-vos neste aspeto. Normalmente, as pessoas dirigem-se a:
) centros de saúde, onde podem marcar consultas de enfermagem;
) quartéis de bombeiros: já vi pessoas a dizer que lá também o fazem, algumas pessoas reportam que não pagam nada, outras dizem que pagam um preço simbólico pelo serviço;
) familiares: quem tem médicos ou enfermeiros na família resolve o problema facilmente;
) elas próprias: há quem peça a algum profissional de saúde que lhes ensine a fazer as injeções em casa e, depois de algum treino, fazem-nas sem intervenção de mais ninguém.


O que é que preciso para fazer as cirurgias?
Como mencionei mais acima, a resposta a esta pergunta vai depender do tipo de cirurgia e do cirurgião. O ideal é falar com os cirurgiões e perguntar-lhes diretamente o que é que é preciso fazer.

No entanto, caso queiram seguir pelo SNS, vão precisar da autorização da ordem dos médicos para poderem avançar para as cirurgias de reatribuição sexual. Para tal, devem ter dois relatórios clínicos, elaborados por duas equipas de sexologia diferentes. A equipa que vos acompanha deverá ajudar-vos a fazer o pedido para a ordem dos médicos.  


Quanto é que tenho de pagar durante o processo?
A transição é considerada como algo necessário para as pessoas trans e, portanto, é comparticipada pelo estado português. As consultas de sexologia e as avaliações são gratuítas, assim como as consultas de endocrinologia e as cirurgias (temos de pagar as taxas moderadoras, mas tudo o resto está coberto pelo estado). 

A medicação é apenas parcialmente comparticipada, mas é barata. No caso dos homens, normalmente usa-se Testoviron Depot ou Sustenon, ambos com o preço de €4.01 por dose de 1mL (que normalmente é administrada a cada 3 ou 4 semanas - ou seja, só gastamos €4.01 a cada 3 ou 4 semanas). Existem outros tipos de medicação, nomeadamente formulações de testosterona em gel, que são mais caras (ficando a cerca de €46.36 por mês), mas são muito menos comuns.
Em relação à medicação para as mulheres, não tenho a certeza de quanto custará por mês. Uma pesquisa no site da Infarmed diz-me que uma caixa de Estrofem fica a €2.49 por mês, mas não sei ao certo se é esse que se usa com mais frequência em Portugal, nem faço ideia do que usam como inibidor de testosterona. Se alguém tiver informação sobre isso pode deixar um comentário e eu tratarei de atualizar essa info aqui. 

O que fica mais caro costuma ser a mudança de nome, que exige um pagamento de €200. É possível evitar este pagamento, caso tenham um atestado de insuficiência financeira passado pela vossa junta de freguesia.


Devo seguir pelo sistema nacional de saúde ou pelo privado?
Depende do dinheiro que tenhas disponível versus o tempo que estás disposto a esperar. Pelo SNS, o processo costuma ser bastante mais lento, as filas de espera são grandes, no entanto é quase tudo gratuito. Por outro lado, caso tenhas dinheiro para pagar consultas num hospital ou clínica privada, consegues fazer tudo com maior brevidade.




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(*) sim, eu sei que, post sim post não, digo que vou fazer outro post relacionado com aquele que estão a ler no momento. Isto tem vindo a tornar-se um vício, mas é algo que não consigo evitar. Os assuntos puxam sempre outros assuntos, e seria impraticável dar asas a todos os assuntos relacionados ou tangentes que vou tocando. Os posts que eu tenho dito que "vão ser feitos no futuro" estão, efetivamente, a ser feitos. Só que são tantos que vão aparecendo lentamente. 




on sexta-feira, 13 de março de 2015
Pelos vistos, vai sair um novo filme este ano a contar a história de Lili Elbe, uma mulher trans dinamarquesa que foi a primeira pessoa (da qual há registos, pelo menos) trans a fazer, com sucesso, uma cirurgia de reconstrução genital. A forma como algumas pessoas estão a falar do filme como sendo "um filme sobre a primeira trans" mete-me imensa comichão por vários motivos, mas outro pequeno grande pormenor deste filme é algo que, infelizmente, ainda se vê demasiado e que acaba por anular (ou danificar significativamente) os benefícios que este tipo de representação nos poderia dar: a personagem é representada por um homem cissexual.

Seguindo as pisadas recentes de "Dallas Buyers Club" ou da série "Transparent", "The Danish Girl" é mais um filme onde uma mulher trans é representada por um homem cis. Eu podia passar o resto do post a elaborar as razões pelas quais eu acho isto bastante problemático (e vou fazê-lo, num outro post que tenho andado a cozinhar há algum tempo e que vai ser publicado quando estiver pronto), mas para já vou só fazer uma nota sobre as reações às criticas que estas escolhas de atores costumam receber.

Normalmente, quando confrontados com todos os problemas que esta dinâmica de "ator a fazer de mulher trans" levanta, as pessoas tentam defender-se dizendo que as críticas não fazem sentido porque, como atores, o trabalho deles é precisamente interpretar um papel de alguém que não são (neste caso, interpretar o papel de uma mulher). Isto não explica a razão de não terem escolhido uma mulher para interpretar... uma mulher (que por acaso é trans). Um ator ou atriz vai estar sempre a interpretar uma personagem que não é, isso faz parte da definição de "ator" mas, normalmente, os atores ou atrizes não são escolhidos ao acaso. Costuma haver um processo de seleção e, depois disso, o ator/atriz considerado mais "apto" para o papel, fica com ele. Porque é que, aparentemente, nenhuma mulher é considerada como uma boa escolha para fazer o papel de uma mulher trans? E porque é que, quando a personagem não é trans, subitamente afinal as mulheres já podem representa-la e raramente são escolhidos homens para o fazer? (normalmente quando um homem é escolhido para fazer o papel de uma mulher cis, o filme é alguma comédia parva e a escolha é feita pelo valor "cómico" da coisa, porque é hilariante ver um homem vestido de mulher, aparentemente).

No caso deste filme em particular, Eddie Redmayne (o ator que interpreta Lili Elbe) tenta justificar esta situação dizendo:

"But one of the complications is that nowadays you have hormones, and many trans women have taken hormones. But to start this part playing male you’d have to come off the hormones, so that has been a discussion as well. Because back in that period there weren’t hormones."

Isto, além de me por a pensar num passado hipotético em que realmente não existiam hormonas antes do século XX (a humanidade seria toda composta por diabéticos pré-puberescentes - cheira-me que há aqui algures um plot para um filme de sci-fi), está incorreto e continua a não ser uma justificação satisfatória. Estão a tentar convencer-nos que é impossível pegar numa mulher e, recorrendo a todas as técnicas de maquilhagem/preparação/magia hollywoodesca/etc, fazer com que ela tenha um aspeto masculino. Que a única forma de o fazer seria administrar hormonas masculinas às atrizes. Subitamente, toda a conversa de "um ator finge ser quem não é" é deitado pela janela fora, porque é impossível uma mulher conseguir fazer o papel de um homem (ou, neste caso, de uma mulher trans pré-transição). No entanto, um homem consegue fazer o papel de uma mulher, com muita mais facilidade e sem nunca sequer serem mencionados os efeitos das hormonas masculinas ou femininas. 

Em conjunto com esta mentalidade, vem também o "argumento" do "mas somos todos pessoas, independentemente do género, tu é que estás a ser sexista!" - que ignora por completo o facto de a crítica ser dirigida não só àquele filme/série/whatever em particular, mas a todo este mindset que coloca homens no papel de mulheres trans na grande maioria das representações de mulheres trans. Se fosse apenas um filme a fazer isto, okay, realmente era um bocado sexista estar a obcecar com o género do ator ou da personagem. O problema é que isto é uma situação tão comum que nem entendo como é que conseguem acusar-nos a nós (quem critica isto) de sexismo - das duas uma, ou isto revela um enorme desconhecimento da realidade (e então, provavelmente, também uma falha enorme na pesquisa sobre as realidades trans, o que depois se vai manifestar numa má história, num mau guião e numa má preparação do ator para desempenhar o papel) ou é apenas uma desculpa para justificar a transfobia e transmisoginia de quem está a fazer o filme. 

Também existem alguns casos da situação contrária: mulheres cis a intrpretar homens trans. No entanto, são mais incomuns tanto porque, ao todo, as representações de homens trans são menos numerosas e porque, pelo o que tenho pesquisado, é mais comum contratarem um homem para fazer o papel de um homem trans. Este último ponto, por si só, pode gerar imensa discussão sobre a forma como as pessoas vêem as mulheres trans versus como vêem os homens trans e permite fazer alguns comentários interessantes sobre transmisoginia (e apenas misoginia de uma forma mais geral). Isto irá ser explorado num post futuro que, como já mencionei, está ainda a ser elaborado.
on terça-feira, 3 de março de 2015
Apercebi-me apenas agora que não tenho qualquer meio de entrar em contacto com os leitores, além das caixas de comentários dos posts. Não dá muito jeito para manter um diálogo ou para dar resposta a quem me quer contactar de forma mais consistente do que comentários ocasionais. 

Portanto, quem me quiser contactar, seja por que motivo for (comentários gerais, meter conversa, dúvidas, sugestões, desabafos, críticas, hate mail, etc), pode mandar email para transcenas@gmail.com

on sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015
Há algumas semanas atrás fui levantar o meu cartão de cidadão novo. Depois de ter pago 200 euros e depois outros 15 na semana anterior, estava em pulgas para finalmente ver o resultado de tanto gasto de dinheiro em tão pouco tempo (na altura tudo o resto - todo o caminho percorrido até ali na transição, as consultas, coming outs, dificuldades variadas - estava meio bloqueado, eu estava mesmo muito ressabiado com o raio do dinheiro). Depois de confirmar a informação toda, lá dei o cartão antigo ao homem que me atendeu na conservatória do registo civil para que fizesse um furo no chip e, para minha surpresa, também um furo na fotografia. Pedi o cartão antigo de volta (está a dar-me jeito para atualizar a informação num monte de sítios diferentes) e saí de lá, finalmente, com alguma paz de espírito.

Mais tarde, numa conversa entre amigos, saquei do cartão novo e do antigo para me gabar de, finalmente, ter resolvido o problema. Ter os dois cartões à beira um do outro é algo que ainda me deixa com algum espanto - dois cartões, dois nomes, duas identidades, no entanto, é a mesma pessoa. Ao ver os dois cartões, uma amiga nota no furo na fotografia do cartão antigo (mesmo no meio da testa, um headshot certeiro) e pergunta-me: "até gostavas de ter sido tu a dar um tiro nesta gaja, não?"

Bem... não. Nem por isso. 

Muita gente parece assumir que todas as pessoas trans têm um ódio enorme ao corpo e à pessoa que "eram" antes da transição. Um ódio tão grande ao ponto de querer 'matar' o nosso 'eu' pré-transição, ou de nem sequer reconhecer essa pessoa como um 'eu' de todo (como um 'outro', como 'essa gaja'). 

Eu não me sinto bem dessa forma. Não guardo rancor em relação à rapariga que fui no passado. Aliás, ainda me é um bocado estranho dizer que "sempre fui um homem" porque, apesar de isso ser tecnicamente verdade, um facto é que vivi a maioria da minha vida até agora a pensar que era uma rapariga, a ser visto como uma rapariga, a viver tudo como uma rapariga (o que quer que "como uma rapariga" signifique). 

Não tenho qualquer tipo de arrependimentos em relação ao meu percurso no que toca à transição. Por vezes, no passado, consumia-me em raiva comigo próprio por um monte de pormenores e situações hipotéticas que colocava a mim mesmo. "e se me tivesse apercebido mais cedo?" "e se não tivesse passado tanto tempo em negação?" "e se tivesse tido coragem daquela vez para ter ido falar com aquela pessoa?" "e se tivesse tido esta conversa de outra forma?"  e se e se e se e se - e se me deixasse de lamentar? (a certa altura cheguei a um ponto em que nem eu próprio podia com a minha autocomiseração)

O meu passado pré-transição demorou exatamente aquilo que devia ter demorado e aconteceu exatamente como devia ter acontecido para que eu chegasse ao ponto que estou agora. Podia passar eternidades a tentar pensar em situações hipotéticas onde o meu passado fosse diferente, mas tal não me serve absolutamente de nada. Tenho vindo a descobrir que é bem mais útil reconhecer o meu passado, aceita-lo e viver com isso. No início foi um bocado complicado fazê-lo, porque em todo o lado somos incentivados a 'enterrar' o nosso passado. Mesmo dentro de espaços exclusivamente trans, existe esta ideia de que devemos deixar o passado de lado, nunca o referenciar, não tocar nele, ignora-lo por completo como se só começássemos a existir quando iniciamos a transição. Durante algum tempo eu interiorizei tudo isto, convenci-me que o meu 'eu' pré-transição era algo para fazer o luto e esquecer. A partir dali era um homem, e nunca tinha sido nada mais que um homem e ponto final. Não há grande espaço para discutir isto, e mesmo quando se discute parece ser algo extremamente taboo. Não quero com isto estar a criticar este tipo de mindset. Para muita gente trans, o passado é algo doloroso e que as pessoas tentam evitar por uma questão de saúde emocional; e há quem genuinamente não reconheça o seu "eu" pré-transição como um "eu" de todo. E está tudo bem com isso. Cada um vive a sua vida à sua maneira e este tipo de experiências são totalmente válidas. No entanto, nem toda a gente é assim. Eu não sou, e já tive conversas com outras pessoas que expressaram o mesmo (estas conversas foram maioritariamente privadas, já que essas pessoas (nas quais me incluo) tinham medo de aborrecer as outras pessoas nos espaços trans).

Durante algum tempo tentei aderir a este tipo de pensamento, mas entretanto cheguei à conclusão que não era para mim. O meu passado não me incomoda assim tanto - incomoda bem mais ter de o descartar e de criar um sofrimento artificial à volta dele só porque é o que "é suposto" para uma pessoa trans. 

Quando era criança brincava muito com os meus amigos do colégio (tanto meninas como meninos). Gostava de jogar às escondidas, ao quarto escuro, andar de bicicleta. Mais tarde veio o game boy e os Pokémons, as figuras de ação e pessoas a tentar impingir-me barbies. Nunca gostei de barbies, por muito estereotípico que isso seja. Por esta altura comecei a ter uma reputação de maria rapaz, e gostava disso. Entretanto meti-me no desporto. Ser melhor atleta que muitos rapazes era das coisas que mais gostava de me gabar. Isso e de ter ganho, durante anos seguidos, o corta-mato e as olimpíadas da ciência da minha escola. Os anos foram passando e eu continuava sempre a maria rapaz de sempre, por muito que me tentassem "corrigir". Dizer-me que os rapazes não gostavam de marias rapazes não só era mentira, como na altura passava-me completamente ao lado (nunca gostei de me dizer "lésbica", portanto assumia o rótulo de "bissexual"). Se bem que, a certa altura, tentei dar-lhes ouvidos e ter uma apresentação mais feminina. Nunca cheguei muito longe, sentia-me mal sempre que tentava ir além de uma camisa um bocado mais justa e uma trança mal amanhada. Passei toda a adolescência a ser visto como uma maria rapaz, depois os anos iniciais da faculdade como uma rapariga meia estranha e introvertida. Durante todo esse tempo era vista como uma rapariga e tratada como tal. Tive rapazes a atirarem-se a mim, taxistas a mandar piropos foleiros na rua, fui perseguido por um homem desde uma ruela estreita até à estação de metro, e depois outra vez passados dois dias e aprendi a não andar por ruelas sem estar acompanhado (curiosamente, há uns tempos atrás voltei a passar nessa mesma rua, depois de a andar a evitar desde essa altura; desta vez senti-me seguro, acho que foi a primeira vez que me apercebi de forma tão óbvia do que é ter privilégio masculino no meu dia-a-dia), vi a minha opinião descartada porque "uma rapariga não entende tanto de [desporto/videojogos/etc]", perguntaram-me se estava "naquela altura do mês" quando me exaltava num debate, etc etc etc. Isto é apenas uma pequena amostra, com ênfase em algumas partes que referenciam diretamente o meu passado "como rapariga". 

Tudo isto (e muito mais) faz parte de quem eu sou. Não deixou de existir a partir do momento em que assumi a minha identidade masculina. Não tenho qualquer intenção de apagar tudo isto nem de dar um metafórico tiro à pessoa que era, porque essa pessoa sou eu. 
on terça-feira, 27 de janeiro de 2015
Ontem apontaram-me para um segmento de um programa na TV nacional onde se falou sobre transsexualidade. Na minha inocência, fui ver o programa na esperança de ser alguma coisa de jeito e que valha a pena recomendar a outras pessoas. Não tive de chegar sequer a meio do programa para me aperceber que não era nada disso, que era apenas mais do mesmo no que toca a programas deste genero.

Apresentadores a fazer perguntas desnecessariamente invasivas aos mesmos convidados de sempre que repetem a mesma narrativa ad nauseam; nada de errado na narrativa das pessoas, mas era bom convidarem outras pessoas, com outras histórias, para que o público não ficasse com a ideia que somos todos um grupo monolítico - o que depois pode gerar problemas caso uma pessoa não obedeça aos 'critérios' e não encaixe na narrativa pré-concebida do que é suposto uma pessoa trans ser. 

Ainda estou para ver um programa deste género que não me faça querer interromper os apresentadores para mandar vir a cada 30 segundos. Da próxima vez, para me entreter um bocado, vou tentar seguir seguir aquilo que eu acabei de inventar e chamar "Drinking Game de Más Representações Trans" (sim, sim, eu sou péssimo a dar nomes a coisas, caso ainda não tivessem reparado pelo título deste blog), que tem as seguintes regras:

1 shot para cada vez que dizem "corpo errado"
1 shot para cada vez que dizem "transformação"
1 shot para cada pergunta relacionada com genitais
1 shot para cada "você podia ser apenas um homem/mulher homossexual" (no caso de mulheres ou homens trans, respetivamente)
1 shot por cada vez que usarem a palavra "transsexual" como um nome ("um transsexual", "uma transsexual")
1 shot por cada "homem num corpo de mulher" ou "mulher num corpo de homem"

1 shot para cada plano onde mostram uma mulher trans a maquilhar-se
3 shots se a cena da maquilhagem for filmada num espelho

1 shot para cada foto da pessoa trans pré-transição
3 shots se a foto mostrar a pessoa numa atividade estereotipicamente masculina ou feminina (nos casos de mulheres ou homens trans, respetivamente)

1 shot por cada "mulher/homem a sério" 
3 shots para a associação entre "mulher/homem a sério" e cirurgias

1 shot para a pergunta "então, você já concluiu a sua transição?"
3 shots se a pergunta for seguida de "e quantas operações teve de fazer?"

1 shot por cada médico ou psicólogo convidado
1 shot por cada vez que disserem "diagnóstico"
3 shots para "têm de ser acompanhados durante 2 anos antes de iniciar o processo"
beber a garrafa toda se disserem que um diagnóstico incorreto leva a que as pessoas - depois de anos em transição - se arrependam

3 shots por cada vez que a apresentadora diz o nome de nascimento da pessoa trans
3 shots para cada vez que alguém diz "mas agora voce é uma mulher/um homem muito bonit@" de forma condescendente
3 shots para cada vez que o apresentador/entrevistador é corrigido mas volta a cometer o mesmo erro passados 2 minutos

beber a garrafa toda se só convidarem mulheres trans e nem mencionarem homens trans