on sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015
Há algumas semanas atrás fui levantar o meu cartão de cidadão novo. Depois de ter pago 200 euros e depois outros 15 na semana anterior, estava em pulgas para finalmente ver o resultado de tanto gasto de dinheiro em tão pouco tempo (na altura tudo o resto - todo o caminho percorrido até ali na transição, as consultas, coming outs, dificuldades variadas - estava meio bloqueado, eu estava mesmo muito ressabiado com o raio do dinheiro). Depois de confirmar a informação toda, lá dei o cartão antigo ao homem que me atendeu na conservatória do registo civil para que fizesse um furo no chip e, para minha surpresa, também um furo na fotografia. Pedi o cartão antigo de volta (está a dar-me jeito para atualizar a informação num monte de sítios diferentes) e saí de lá, finalmente, com alguma paz de espírito.

Mais tarde, numa conversa entre amigos, saquei do cartão novo e do antigo para me gabar de, finalmente, ter resolvido o problema. Ter os dois cartões à beira um do outro é algo que ainda me deixa com algum espanto - dois cartões, dois nomes, duas identidades, no entanto, é a mesma pessoa. Ao ver os dois cartões, uma amiga nota no furo na fotografia do cartão antigo (mesmo no meio da testa, um headshot certeiro) e pergunta-me: "até gostavas de ter sido tu a dar um tiro nesta gaja, não?"

Bem... não. Nem por isso. 

Muita gente parece assumir que todas as pessoas trans têm um ódio enorme ao corpo e à pessoa que "eram" antes da transição. Um ódio tão grande ao ponto de querer 'matar' o nosso 'eu' pré-transição, ou de nem sequer reconhecer essa pessoa como um 'eu' de todo (como um 'outro', como 'essa gaja'). 

Eu não me sinto bem dessa forma. Não guardo rancor em relação à rapariga que fui no passado. Aliás, ainda me é um bocado estranho dizer que "sempre fui um homem" porque, apesar de isso ser tecnicamente verdade, um facto é que vivi a maioria da minha vida até agora a pensar que era uma rapariga, a ser visto como uma rapariga, a viver tudo como uma rapariga (o que quer que "como uma rapariga" signifique). 

Não tenho qualquer tipo de arrependimentos em relação ao meu percurso no que toca à transição. Por vezes, no passado, consumia-me em raiva comigo próprio por um monte de pormenores e situações hipotéticas que colocava a mim mesmo. "e se me tivesse apercebido mais cedo?" "e se não tivesse passado tanto tempo em negação?" "e se tivesse tido coragem daquela vez para ter ido falar com aquela pessoa?" "e se tivesse tido esta conversa de outra forma?"  e se e se e se e se - e se me deixasse de lamentar? (a certa altura cheguei a um ponto em que nem eu próprio podia com a minha autocomiseração)

O meu passado pré-transição demorou exatamente aquilo que devia ter demorado e aconteceu exatamente como devia ter acontecido para que eu chegasse ao ponto que estou agora. Podia passar eternidades a tentar pensar em situações hipotéticas onde o meu passado fosse diferente, mas tal não me serve absolutamente de nada. Tenho vindo a descobrir que é bem mais útil reconhecer o meu passado, aceita-lo e viver com isso. No início foi um bocado complicado fazê-lo, porque em todo o lado somos incentivados a 'enterrar' o nosso passado. Mesmo dentro de espaços exclusivamente trans, existe esta ideia de que devemos deixar o passado de lado, nunca o referenciar, não tocar nele, ignora-lo por completo como se só começássemos a existir quando iniciamos a transição. Durante algum tempo eu interiorizei tudo isto, convenci-me que o meu 'eu' pré-transição era algo para fazer o luto e esquecer. A partir dali era um homem, e nunca tinha sido nada mais que um homem e ponto final. Não há grande espaço para discutir isto, e mesmo quando se discute parece ser algo extremamente taboo. Não quero com isto estar a criticar este tipo de mindset. Para muita gente trans, o passado é algo doloroso e que as pessoas tentam evitar por uma questão de saúde emocional; e há quem genuinamente não reconheça o seu "eu" pré-transição como um "eu" de todo. E está tudo bem com isso. Cada um vive a sua vida à sua maneira e este tipo de experiências são totalmente válidas. No entanto, nem toda a gente é assim. Eu não sou, e já tive conversas com outras pessoas que expressaram o mesmo (estas conversas foram maioritariamente privadas, já que essas pessoas (nas quais me incluo) tinham medo de aborrecer as outras pessoas nos espaços trans).

Durante algum tempo tentei aderir a este tipo de pensamento, mas entretanto cheguei à conclusão que não era para mim. O meu passado não me incomoda assim tanto - incomoda bem mais ter de o descartar e de criar um sofrimento artificial à volta dele só porque é o que "é suposto" para uma pessoa trans. 

Quando era criança brincava muito com os meus amigos do colégio (tanto meninas como meninos). Gostava de jogar às escondidas, ao quarto escuro, andar de bicicleta. Mais tarde veio o game boy e os Pokémons, as figuras de ação e pessoas a tentar impingir-me barbies. Nunca gostei de barbies, por muito estereotípico que isso seja. Por esta altura comecei a ter uma reputação de maria rapaz, e gostava disso. Entretanto meti-me no desporto. Ser melhor atleta que muitos rapazes era das coisas que mais gostava de me gabar. Isso e de ter ganho, durante anos seguidos, o corta-mato e as olimpíadas da ciência da minha escola. Os anos foram passando e eu continuava sempre a maria rapaz de sempre, por muito que me tentassem "corrigir". Dizer-me que os rapazes não gostavam de marias rapazes não só era mentira, como na altura passava-me completamente ao lado (nunca gostei de me dizer "lésbica", portanto assumia o rótulo de "bissexual"). Se bem que, a certa altura, tentei dar-lhes ouvidos e ter uma apresentação mais feminina. Nunca cheguei muito longe, sentia-me mal sempre que tentava ir além de uma camisa um bocado mais justa e uma trança mal amanhada. Passei toda a adolescência a ser visto como uma maria rapaz, depois os anos iniciais da faculdade como uma rapariga meia estranha e introvertida. Durante todo esse tempo era vista como uma rapariga e tratada como tal. Tive rapazes a atirarem-se a mim, taxistas a mandar piropos foleiros na rua, fui perseguido por um homem desde uma ruela estreita até à estação de metro, e depois outra vez passados dois dias e aprendi a não andar por ruelas sem estar acompanhado (curiosamente, há uns tempos atrás voltei a passar nessa mesma rua, depois de a andar a evitar desde essa altura; desta vez senti-me seguro, acho que foi a primeira vez que me apercebi de forma tão óbvia do que é ter privilégio masculino no meu dia-a-dia), vi a minha opinião descartada porque "uma rapariga não entende tanto de [desporto/videojogos/etc]", perguntaram-me se estava "naquela altura do mês" quando me exaltava num debate, etc etc etc. Isto é apenas uma pequena amostra, com ênfase em algumas partes que referenciam diretamente o meu passado "como rapariga". 

Tudo isto (e muito mais) faz parte de quem eu sou. Não deixou de existir a partir do momento em que assumi a minha identidade masculina. Não tenho qualquer intenção de apagar tudo isto nem de dar um metafórico tiro à pessoa que era, porque essa pessoa sou eu. 
on terça-feira, 27 de janeiro de 2015
Ontem apontaram-me para um segmento de um programa na TV nacional onde se falou sobre transsexualidade. Na minha inocência, fui ver o programa na esperança de ser alguma coisa de jeito e que valha a pena recomendar a outras pessoas. Não tive de chegar sequer a meio do programa para me aperceber que não era nada disso, que era apenas mais do mesmo no que toca a programas deste genero.

Apresentadores a fazer perguntas desnecessariamente invasivas aos mesmos convidados de sempre que repetem a mesma narrativa ad nauseam; nada de errado na narrativa das pessoas, mas era bom convidarem outras pessoas, com outras histórias, para que o público não ficasse com a ideia que somos todos um grupo monolítico - o que depois pode gerar problemas caso uma pessoa não obedeça aos 'critérios' e não encaixe na narrativa pré-concebida do que é suposto uma pessoa trans ser. 

Ainda estou para ver um programa deste género que não me faça querer interromper os apresentadores para mandar vir a cada 30 segundos. Da próxima vez, para me entreter um bocado, vou tentar seguir seguir aquilo que eu acabei de inventar e chamar "Drinking Game de Más Representações Trans" (sim, sim, eu sou péssimo a dar nomes a coisas, caso ainda não tivessem reparado pelo título deste blog), que tem as seguintes regras:

1 shot para cada vez que dizem "corpo errado"
1 shot para cada vez que dizem "transformação"
1 shot para cada pergunta relacionada com genitais
1 shot para cada "você podia ser apenas um homem/mulher homossexual" (no caso de mulheres ou homens trans, respetivamente)
1 shot por cada vez que usarem a palavra "transsexual" como um nome ("um transsexual", "uma transsexual")
1 shot por cada "homem num corpo de mulher" ou "mulher num corpo de homem"

1 shot para cada plano onde mostram uma mulher trans a maquilhar-se
3 shots se a cena da maquilhagem for filmada num espelho

1 shot para cada foto da pessoa trans pré-transição
3 shots se a foto mostrar a pessoa numa atividade estereotipicamente masculina ou feminina (nos casos de mulheres ou homens trans, respetivamente)

1 shot por cada "mulher/homem a sério" 
3 shots para a associação entre "mulher/homem a sério" e cirurgias

1 shot para a pergunta "então, você já concluiu a sua transição?"
3 shots se a pergunta for seguida de "e quantas operações teve de fazer?"

1 shot por cada médico ou psicólogo convidado
1 shot por cada vez que disserem "diagnóstico"
3 shots para "têm de ser acompanhados durante 2 anos antes de iniciar o processo"
beber a garrafa toda se disserem que um diagnóstico incorreto leva a que as pessoas - depois de anos em transição - se arrependam

3 shots por cada vez que a apresentadora diz o nome de nascimento da pessoa trans
3 shots para cada vez que alguém diz "mas agora voce é uma mulher/um homem muito bonit@" de forma condescendente
3 shots para cada vez que o apresentador/entrevistador é corrigido mas volta a cometer o mesmo erro passados 2 minutos

beber a garrafa toda se só convidarem mulheres trans e nem mencionarem homens trans
on terça-feira, 30 de dezembro de 2014
Leelah Alcorn, uma rapariga trans de 17 anos dos EUA, suicidou-se hoje (ou ontem? os fusos horários confundem-me). Leelah deixou uma nota de suicídio que pode ser lida na íntegra no seu blog, onde detalha os eventos que a levaram a perder a esperança e a vontade de viver. Para adicionar insulto à injúria, a notícia já apareceu em vários artigos online, quase sempre a reportar a morte de um rapaz de 17 anos que 'parece ter sido' um suicídio ('parece', mesmo com uma nota de suicídio online pode ter sido apenas um acidente, certo...).

É profundamente lamentável o suicídio de mais uma pessoa trans. Ao longo da nota de suicídio podem ler-se menções ao desespero sentido pela Leelah vindo dela própria (o isolamento, o medo de não conseguir fazer uma "transição com sucesso") e, como se isso não bastasse, o desespero foi agravado pelo abuso e intolerância parental, que foi ao ponto de lhe impedir o acesso aos cuidados médicos que ela precisava. Estas situações, infelizmente, são mais comuns do que seria aceitável (se houvesse apenas uma pessoa nesta situação, ainda assim seria inaceitável) e demasiadas pessoas trans continuam a ter de passar por situações destas que, por vezes, culminam no suicídio. Ainda por cima, na maioria dos casos, nunca se chega a saber que a razão do suicídio foi a transfobia porque as identidades e vontades das pessoas trans são rotineiramente ignoradas e/ou apagadas pelos meios de comunicação social ou até pelas famílias das próprias pessoas trans - neste caso, a família de Leelah tem-se recusado a trata-la pelo seu nome e ainda não reconheceram sequer que a sua morte foi um suicídio. 

Há um monte de coisas sobre as quais poderia aqui debruçar-me, mas vou focar-me numa questão que me saltou à vista mas que parece estar a passar ao lado da maioria dos artigos que vejo por aí. 

Quase no final da sua nota de suicídio, Leelah escreveu:
"A única maneira de eu alguma vez descansar em paz é se, algum dia, as pessoas trans não forem tratadas como eu fui, quando forem tratadas como humanos, com sentimentos válidos e direitos humanos. É preciso ensinar sobre o género nas escolas, quanto mais cedo melhor. A minha morte tem de significar algo. A minha morte tem de ser contada no número de pessoas trans que cometeram suicídio este ano. Eu quero que as pessoas olhem para esse número e digam "isto é terrível" e corrijam isto. Corrijam a sociedade.
(tradução livre)

Leelah pareceu encarar o seu suicídio não apenas como uma decisão pessoal, mas como uma oportunidade para fazer ativismo. Isto provoca-me alguns sentimentos dissonantes entre si... por um lado compreendo que uma pessoa queira dar algum significado à sua vida, mas faze-lo através do término dessa vida parece-me horrendo. O suicídio não é a melhor forma para fazer passar uma mensagem num contexto de ativismo (ou em qualquer outro contexto). O mundo só muda se houver pessoas que lutem para que as mudanças ocorram. É preciso resistência, e não há melhor forma de resistência do que mostrar ao mundo que sobrevivemos a toda a merda que nos atiram à cara diariamente. 

Espero não ser mal interpretado. Não quero com isto criticar os motivos ou desejos da Leelah, mas tinha isto um bocado preso na garganta e queria deixar isto registado algures. Mais do que isto ter aparecido na nota de suicídio dela, preocupa-me a atenção que algumas pessoas parecem estar a dar a este excerto do texto. Ao ler alguns comentários sobre este caso quase que fico com a impressão que estão a glorificar este suicídio em nome do ativismo e da mudança. Por favor, não façam isso. Não há absolutamente nada de inspirador no suicídio de uma jovem de 17 anos, vítima de transfobia.

Vamos tentar tornar o mundo num local em que isto nunca mais volte a acontecer.

Caso estejam a lidar com pensamentos ou ideações suicidas, por favor falem com alguém. Um familiar em que possam confiar, um amigo próximo, alguém. 

Centro SOS Voz Amiga - Ajuda na solidão, angústia, desespero e prevenção do suicídio
21 354 45 45
91 280 26 69
96 352 46 60
Diariamente das 16h às 24h horas
www.sosvozamiga.org

Linha SOS Palavra Amiga
Viseu – 23 242 42 82
Todos os dias, das 21 à 01 horas

APAV - Associação Portuguesa de Apoio à Vítima
Apoio emocional
707 200 077 (chamada com preço independentemente da distância)

Telefone da Amizade
Um amigo nas horas difíceis
22 832 35 35
Todos os dias (16h-23h)

Linha LGBT
21 887 39 22
Quarta a domingo (20h-23h)

Linha Urgência Espaço T
Apoio em momentos de crise e situações de angústia
707 201 076 (chamada com preço independentemente da distância)
Dias úteis das 14h às 18h

Linha SOS Bullying
808 962 006 (2ª a 6ª feira, das 11h às 12h30m e das 18h30 às 20h)
bulialuno@anprofessores.pt

Linha SOS Estudante
Apoio emocional e prevenção do suicídio
808 200 204 ou 96 955 45 45
Das 20h à 1h (chamada local)

S.O.S. Adolescente
800 202 484
on domingo, 16 de novembro de 2014
Há dois dias mostraram-me um artigo de 'opinião' publicado na edição online de um jornal nacional que, volta e meia, não é opinião coisíssima nenhuma - é pouco mais do que um vómito de preconceitos do autor. Se alguém quiser ler esse atestado de ignorância, pode lê-lo aqui (não se preocupem que ao clicar nesse link não estão a dar mais tráfego ao site do jornal). Eu pensei em fazer um post ressabiado a criticar cada frase desse artigo, mas vou tentar fazer algo mais útil e atacar a raiz do problema.

O grande problema aqui parece ser o velho problema que sempre existiu entre a população em geral em relação à transexualidade: não nos vêem como homens ou mulheres e portanto consideram a transição como algo que, na melhor das hipóteses é apenas estético, na pior das hipóteses é uma mutilação e que nós devíamos é ser todos internados num hospital psiquiátrico. 

Começando pelas bases: um homem trans é um homem, uma mulher trans é uma mulher, independentemente da sua anatomia, expressão, personalidade, ou qualquer outro fator (o mesmo se aplica para pessoas fora dessas duas opções). Não faz sentido sequer questionar uma coisa destas porque não existe maneira de "medir" a identidade de uma pessoa, não existem critérios objetivos para avaliar a masculinidade ou feminilidade de alguém. As tentativas de "desenrrascar" esses critérios normalmente caem no determinismo biológico - "se nasces com um genótipo ou fenótipo normativamente masculino, és um homem e ponto final" - o que, além de ignorar toda a diversidade natural dentro da nossa espécie, é um critério arbitrário e obosleto. Não havendo critérios, a única opção é confiar na pessoa que declara a sua identidade como masculina/feminina/outra, tendo em conta que mais ninguém conhece melhor aquela pessoa do que ela própria. 

A identidade de género de alguém não é mensurável e, mesmo que fosse, não haveria qualquer interesse em pôr isso em causa porque é algo que apenas diz respeito à própria pessoa

No entanto, uma enorme parte do problema que as pessoas têm com a população trans estende-se não apenas à identidade por si só, mas ao que a pessoa trans decide fazer em relação a isso. Tudo à volta da transição é algo completamente alienígena e estranho à maioria das pessoas, portanto a maioria limita-se a ficar na ignorância e cede aos seus próprios preconceitos para formar uma "opinião" sobre o assunto. 

Por muito que as pessoas achem estranho, um facto é que a transição não é algo apenas estético, não é um capricho nem uma "maluqueira" que passa pela cabeça das pessoas trans. Se a palavra das próprias pessoas trans não for totalmente convincente (raramente o é, infelizmente), existem várias entidades médicas que reconhecem a transição como uma necessidade médica: a American Psychological Association "reconhece a eficácia, vantagens e necessidade médica da transição de género" e acrescenta que apoia a facilitação do acesso destas pessoas a cuidados médicos apropriados (ex: incentivando as seguradoras e o estado a cobrirem estes cuidados), à mudança da identidade legal, à não discriminação e à integração das pessoas trans na sociedade. A American Medical Association tem uma opinião semelhante, dizendo que existem provas suficientes para considerar a transição (incluindo tratamentos hormonais, cirurgias, etc) com algo benéfico e necessário às pessoas trans. O mesmo diz a American Psychiatric Association, a World Professional Association for Transgender Health, entre outros.

Relacionado com este ponto está o mito que diz que a transexualidade é uma doença mental. Tal também não é suportado pela maioria das entidades médicas já mencionadas. O Parlamento Europeu também concorda que a considerar a transexualidade uma doença psiquiátrica é condenável e apela aos países membros para mudarem essa classificação das vivências e identidades trans, para que simplifiquem o acesso à mudança de nome e para que os custos associados à transição sejam cobertos pelas seguradoras ou pelo estado. Está também explicitado no princípio 18 dos Princípios de Yogyakarta que a identidade de género nunca pode ser considerada uma patologia. A discriminação sofrida pelas pessoas trans pode estar relacionada com perturbações de ansiedade, depressão ou outras condições, mas isto é fruto da discriminação, não da identidade da pessoa [1]

A crença de que a transexualidade é uma doença mental muitas vezes leva as pessoas a pensar que é possível "curar" a transexualidade de alguém através de "terapias reparativas" ou persuadindo a pessoa trans a simplesmente "aprender a aceitar a sua identidade" (o seu género atribuído à nascença). Uma coisa que essas pessoas parecem ignorar é o facto de muitas pessoas trans terem tentado fazer precisamente isso: aceitar a sua "identidade", aprender a viver como um homem ou mulher, tentar convencer-se que não precisam de fazer a transição, que isso era uma ideia parva e que só iam estar a alimentar ilusões criadas por elas próprias. Não é algo pelo qual todas as pessoas passam, mas já vi este tipo de narrativa a ser descrito com alguma frequência entre pessoas trans (eu próprio passei por uma fase dessas). Portanto, essa ideia de "tentar aceitar o género que nos foi atribuído" não é nenhuma ideia genial, não é nada de novo nem de revolucionário e costuma ser das primeiras "soluções" que as pessoas tentam arranjar - por causa disto ainda fico admirado quando alguém propõe esta "solução" como se a ideia nunca tivesse surgido antes e nunca tivesse sido testada. 

Normalmente estas "terapias reparativas" são as mesmas que se fazem/faziam para curar a homossexualidade, e têm a mesma taxa de sucesso destas: zero. O máximo que pode acontecer é a pessoa trans reprimir a sua identidade e ficar assim "curada" de querer fazer uma transição, mas na realidade a identidade da pessoa não mudou. Esta "solução" entra diretamente em conflito com o que já foi mencionado acima sobre a transição ser algo eficaz e benéfico para as vidas das pessoas trans. Estas terapias têm sido repetidamente desacreditadas entre a comunidade médica uma vez que não nunca mostraram ser eficazes e, muitas vezes, constituem um atentado à dignidade da pessoa a ser "tratada" [2] [3] [4]. Sendo assim, essas terapias são contra-indicadas para a população trans, da mesma forma que o são para a população LGB (podendo até ser considerado como abuso de menores, caso o "alvo" da terapia seja uma criança). 

Finalmente, um dos "argumentos" que também vejo muito a ser feito por quem se opõe à transição é o dilema do "mas e se te arrependes?". Este é o único argumento para o qual eu ainda tenho alguma paciência porque não é baseado em preconceitos e por vezes é um medo real para as próprias pessoas trans. "E se eu chego a meio disto e quiser voltar para trás?" foi uma questão que me assombrou durante bastante tempo. No entanto, usar relatos de outras pessoas que se arrependeram como exemplo não é correto, uma vez que essas situações não são as mais comuns (embora recebam imensa atencão mediática, porque mais estranho do que alguém que "muda de sexo" é alguém que o faz duas vezes e que ainda dá "credibilidade" aos preconceitos da população). Na realidade, a percentagem de arrependimento é muitíssimo baixa. Por exemplo, num estudo que acompanhou 232 mulheres trans, nenhuma expressou arrependimento (dizendo até que estavam mais felizes). Aqui, entre mais de 400 pessoas, a grande maioria reportou que não se arrepende de nenhum dos passos da transição (sendo que as 3 pessoas que se arrependeram de algum passo, arrependeram-se de fazer uma histerectomia ou eletrólise, mas não se arrependeram dos outros passos). Na Europa ocidental, a taxa de arrependimento após o início do tratamento hormonal ou cirurgias ronda os 1.83%, sendo que os autores do estudo notaram é difícil distinguir entre quem se arrependeu por ter chegado à conclusão que afinal não era trans, e quem se arrependeu devido a pressões sociais, familiares e discriminação em geral. 

Ao longo deste texto tentei ir citando fontes credíveis para justificar o que disse (os sites e artigos são quase todos acessíveis ao público e, os que não são, têm a informação citada disponível no abstract) porque considero importante ter alguma fundamentação quando tento construir um argumento com pés e cabeça. Não podemos confiar nas opiniões de gente ignorante e que não faz qualquer esforço real para se informar mas que, apesar disso, age como se tivesse conhecimento ou opiniões relevantes nesta discussão. 

Eu também ia abordar outros temas relacionados com as várias intervenções médicas ou tratamentos hormonais (visto que também ainda existe uma quantidade enorme de desinformação a circular sobre os mesmos) mas este post está a ficar demasiado grande. Portanto, fica aqui o lembrete para o fazer num post futuro. 

Entretanto, caso queiram opiniões relevantes e factos sustentados e verificáveis, tentem entrar em contacto com pessoas trans ou associações sérias que lidem com o assunto. Além disso, o google é vosso amigo (sempre com uma pitada de bom senso e espírito crítico) e se estiverem à procura de factos palpáveis e estudos científicos sobre o assunto, o Scholar pode ser bastante útil. Deixo também esta lista bastante grande de literatura caso alguém tenha vontade e paciência para ir lendo o que lá se encontra.
on sexta-feira, 31 de outubro de 2014


Vai acontecer o segundo encontro nacional de jovens trans. Está marcado para os dias 7, 8 e 9 de novembro e este ano será em Braga.

O encontro é organizado pela rede ex aequo em parceria com o coletivo Braga Fora do Armário e pretende ser um "fim-de-semana de convívio, ativismo e celebração, com porta aberta para tod@s @s jovens trans, assim como para os seus aliados e simpatizantes". Pode ser uma ótima oportunidade para juntar pessoal trans, conhecer gente nova, fazer contactos e passar um fim de semana diferente e rodeado de pessoas com quem nos conseguimos identificar e partilhar experiências, dúvidas, etc à vontade.

O programa já foi divulgado, podem consulta-lo aqui.

Eu vou lá estar, e espero ver muito pessoal por lá =)



Em resumo:
2º encontro nacional de jovens trans
Quando: 7, 8 e 9 de novembro (sexta a domingo)
Onde: Braga
Como chegar: comboio, rede expressos, renex. Os custos de deslocação são financiados aos participantes, com base no transporte mais económico!
O que é que se vai fazer: consulta o programa aqui
on sábado, 25 de outubro de 2014
Este post é dirigido às pessoas que recentemente descobriram que alguém que lhes é próximo é trans. Pode ser um amigo, familiar, colega, etc. Quando alguém vos conta que é trans, pode não ser claro o que é que isso significa ou como proceder em relação a essa pessoa. Ficam aqui algumas guidelines, mas tenham em conta que o ideal costuma ser perguntar à própria pessoa trans as dúvidas que tiverem em relação à situação.

Antes de tudo:
Devem aceitar e reconhecer a identidade da pessoa, independentemente de qualquer outro fator. Não interessa se a pessoa "parece" um homem ou uma mulher, não interessa se fez alguma modificação física, não interessa se essa pessoa ainda não vive totalmente como uma pessoa do seu género - não interessa. A única coisa que interessa é a identidade que a pessoa declara ter.
A pessoa que se calhar conheciam como a vossa amiga, a vossa colega, a vossa prima, é na realidade o vosso amigo, colega ou primo. Pode ser complicado, ao início, ver essa pessoa como pertencente a um género diferente daquele que sempre associamos a essa pessoa, mas é importante fazer um esforço para mudar a nossa perceção e começar a ver a pessoa pelo o que ela realmente é.

Nome e pronomes:
Tratem a pessoa pelo nome que ela pedir. É esse o nome "a sério" da pessoa, independentemente do que possa estar nos documentos. No início vai ser complicado começarem a usar o novo nome - é normal, possivelmente terão passado anos e anos a tratar essa pessoa por um nome e agora de repente têm de o mudar - mas é importante que façam esse esforço. 

Durante os primeiros tempos podem-se enganar, podem até nem dar conta que se enganaram e só se aperceberem disso quando são chamados à atenção. Quando isso acontecer peçam desculpa, corrijam o erro, e continuem a conversa. Não se ponham com explicações sobre "porque é que se enganaram" - nós não queremos saber. Normalmente as "desculpas" que usam para se enganarem no nome seguem a linha do "eu ainda te vejo como uma mulher" ou "é muito difícil para mim mudar" - a primeira é simplesmente algo que nenhuma pessoa trans quer ouvir e a segunda revela que não se estão realmente a esforçar para fazer uma coisa tão simples como mudar o nome pelo qual tratam a pessoa (o que não é assim tão difícil, é uma questão de hábito).

Provavelmente a pessoa trans vai deixar passar os deslizes iniciais com os nomes, mas isto não significa que não nos importemos com isso nem significa que vos damos luz verde para nos tratarem pelo nome errado repetidamente. 

Em relação aos pronomes, aplicam-se os mesmos princípios. Trocar de "ele" para "ela" (ou vice versa) pode ser complicado no início, mas não é nada do outro mundo. 

Um pormenor importante é usar o nome e pronomes corretos mesmo quando nos referimos à pessoa trans no passado, antes de ela vos ter revelado que é trans. Se a pessoa vos revelou que era trans aos 20 anos, o correto é usar o nome e pronomes que ela pediu mesmo quando se referem a essa pessoa quando tinha 5 anos. 


Falar sobre a pessoa trans (na sua ausência) a outras pessoas:
Nunca (nunca) revelem que a pessoa é trans a outras pessoas que não saibam. Se não têm a certeza se essa outra pessoa sabe ou não, não o mencionem. 

Quando falarem do vosso amigo/colega/familiar trans, refiram-se a ele como se referem a qualquer outra pessoa. Não digam nada que possa apontar para o facto de ele ser trans. Nada de "ele é um homem, mas..." ou "ele é mais ou menos homem" nem nada desse género. 

Usem o nome e pronomes que a pessoa trans vos pediu, mesmo quando se estão a referir a essa pessoa na sua ausência. Se a outra pessoa vos perguntar sobre algum pormenor em relação à pessoa trans (ex: perguntar se sabem o nome de nascimento da pessoa, ou que cirurgias fez), respeitem a privacidade da pessoa trans e não respondam a essas perguntas. Uma maneira de escapar a essa situação é dizer-lhes para dirigirem essas perguntas à pessoa trans em questão; uma maneira melhor é dizer que se recusam a responder porque faze-lo seria uma invasão da privacidade do vosso amigo/colega/familiar trans. 

Pode até calhar vocês não saberem qual é o nome de nascimento ou cirurgias ou outro pormenor qualquer desse género. Mas, se souberem, não usem isso como uma espécie de "trunfo" para mostrar às outras pessoas. Nada de "eu sei o nome de nascimento dele e tu não, ah-ah!", como se os pormenores das nossas vidas pessoais fossem troféus que vocês usam para impressionar outras pessoas.

Pode acontecer, principalmente se o vosso amigo/colega/familiar estiver nas fases iniciais da sua transição (assumindo que está a fazer a transição), ouvirem outras pessoas a falar dele e a referirem-se a ele pelo género errado. Nessas situações tentem corrigir o erro e digam que aquela pessoa é na realidade um homem ou mulher; não digam que é um homem ou mulher trans, apenas que é um homem ou mulher, ponto. 

As únicas exceções a isto são quando a pessoa trans vos diz que, naquela situação em particular (ex: entre familiares, entre um grupo de pessoas especifico), ainda é conhecido como uma mulher ou homem e, portanto, tem de ser tratado como tal. Isto acontece quando a pessoa trans ainda não revelou a toda a gente o seu género e estar a faze-lo por ele pode ser extremamente desagradável ou até perigoso. 


Sobre disforia:
Disforia é algo que afeta ou afetou no passado a maioria das pessoas trans. Em termos muito genéricos, pode ser definida como uma sensação de desconforto (físico, social, emocional, ou de qualquer outro tipo) com o género que foi atribuido à pessoa trans. É um bocado complicado definir disforia porque é algo que varia bastante com cada pessoa. O importante a reter aqui é que a disforia, quando está presente, é um problema real e que afeta a qualidade de vida da pessoa trans. 

Da mesma forma que não se deve gozar com qualquer outro problema sério de uma pessoa, não se deve gozar com a disforia. Também não devem descartar a disforia como se fosse um problema imaginado ou exagerado. A disforia não pode ser ultrapassada "se fizeres um esforço" da mesma forma que uma gripe não é curada "se fizeres um esforço". Não é assim que funciona. 

Reconheçam que a disforia é um problema real e tentem dar apoio ao vosso amigo/colega/familiar trans da melhor forma que conseguirem. 


Recapitulando:
) tratem o vosso amigo/colega/familiar pelo nome e pronomes que ele vos pedir
) não revelem a outras pessoas que o vosso amigo/colega/familiar é trans
) respeitem a privacidade do vosso amigo/colega/familiar
) em caso de dúvida, é sempre melhor perguntar do que fazer asneira
) usem senso comum e tratem-no como qualquer outra pessoa
on terça-feira, 30 de setembro de 2014
Com a azáfama toda do final das férias, inicio de um novo semestre e novos projetos, quase que não me apercebi que já era setembro - quase outubro, até. Passei o dia a tratar de papelada e acabei por passar imenso tempo em filas com os meus próprios pensamentos e agora sinto-me nostálgico.

Setembro de 2013 marca o início da minha transição. E, não, isto não significa que tive a minha primeira consulta, ou comecei algum tratamento físico, ou contei a alguém em setembro de 2013. Não fiz nenhuma dessas coisas (o máximo poderá ter sido começado a falar disto abertamente com algumas pessoas, não tenho a certeza). Eu defino o início da minha transição como o dia em que comecei ativamente a tentar por-me confortável dentro da minha própria pele. Fosse a experimentar com roupas e cortes de cabelo, ou a tentar negociar com o meu reflexo em frente a um espelho - foi o ponto em que comecei a trabalhar no sentido de me sentir bem. 

Passado um ano, posso orgulhar-me de já ter conquistado um monte de problemas (e ter arranjado outros tantos) - se me dissessem, há um ano atrás, que hoje estaria na situação em que estou, nunca me teria acreditado. Nunca pensei conseguir fazer tantos progressos durante um único ano.

Há alguns dias conversava com outro rapaz trans sobre as dificuldades do início da transição, dos medos, de estratégias para contar às pessoas, lidar com familiares e stress generalizado à volta da transição. Ao longo dessa conversa estava a constantemente com uma sensação de dejá vu, eu já tinha tido aquela conversa antes. A certa altura apercebi-me que, de facto, eu já tinha estado naquela conversa, há mais ou menos um ano atrás, com outra pessoa diferente e num papel diferente. Há um ano, eu era a pessoa cheia de medos e dúvidas, em pânico sem saber por onde ou como começar tudo isto; do outro lado estava um rapaz que já tinha iniciado a sua jornada há algum tempo a tentar ajudar-me. Na altura ajudou bastante, só o facto de ter alguém com quem falar, alguém que já passou pelo mesmo e que nos possa dar alguns conselhos, é uma ajuda enormíssima. Eu lembro-me de, na altura, ter uma admiração enorme por esse rapaz, pela atitude que demonstrava perante a transição, pelo facto de já estar assumido para um monte de gente e pelo facto de estar a tentar ajudar quem precisava de ajuda (naquele caso, eu próprio). Um ano depois, ainda tenho admiração por ele, embora já me tenha apercebido que ele não é o super-herói que eu julgava que ele fosse - não por ele ter descido na minha consideração, mas por me aperceber que muitas das coisas que me levavam a admira-lo são coisas que fazem parte da vida de muitas pessoas trans e eu próprio já me vi confrontado com essas situações. As pessoas trans passaram de "pessoas super corajosas e fortes e incríveis" para "pessoas que fazem o que têm de fazer para sobreviver", não deixando de ter imensa coragem e força para ser quem somos, claro. Somos todos super-heróis, à nossa maneira.

Hoje em dia acho piada à forma como algumas pessoas vêem as pessoas trans como "super corajosas e fortes e determinadas" (quando não nos vêem como doentes mentais ou loucos), principalmente quando se dirigem a mim como se eu fosse tudo isso que elas pensam que sou. Eu adorava conseguir ter metade da força e coragem que algumas pessoas pensam que tenho. Quase tudo o que fiz durante o último ano no contexto da transição teve muito mais de desespero e frustração do que força ou coragem. Eu comecei a contar às pessoas porque me frustrava imenso viver numa mentira constante, eu decidi começar o processo clínico porque não aguentava mais ficar da forma que estava, qualquer modificação que fiz (que até agora ainda nem foi grande coisa) foi motivada pela necessidade urgente de mudança. (Não me estou a queixar, de forma alguma, de ser visto como uma pessoa com todos esses atributos positivos, estou só a pensar alto - todo este post está a ser um enorme rambling, portanto...) 

Em termos de mudanças físicas, muito pouco aconteceu durante este ano - afinal, a transição não é só isso, por muito que a maioria das pessoas goste de obcecar com as questões físicas (já perdi a conta da quantidade de vezes que me perguntaram sobre a operação, ou sobre hormonas, ou sobre outro pormenor qualquer desse género). Apesar disso, não consigo deixar de sentir que mudei imenso durante os últimos meses. Se calhar as mudanças não serão evidentes para as pessoas à minha volta, mas são gigantescas no que toca ao meu bem estar e evolução como pessoa no geral. Aliás, eu sinto que só agora é que consigo começar a evoluir e a conhecer-me a mim mesmo, a desenvolver traços de personalidade e partes de mim que desconhecia por completo. Não que não tivesse personalidade ou vida antes, mas hoje parece-me tudo muito mais vivo, interessante, apelativo e, ás vezes, mais fácil. Viver é mais fácil agora que me assumi como trans, por muito contraditório que isso possa parecer. Provavelmente não é mais fácil, provavelmente eu tenho é mais motivação e energia para viver e para enfrentar os problemas por muito impossíveis que pareçam de resolver... Não sei. 
É quase como quando comecei a usar óculos: antes de os usar não era cego, mas só agora com os óculos é que me apercebo de que antes via mal e que a vida é muito menos desfocada e esborratada do que eu pensava. Hoje em dia não consigo conceber viver sem óculos e não entendo como é que não me apercebi que via mal mais cedo. 

Eu não sei mesmo onde é que este post vai ou porque é que o comecei sequer a escrever. Acho que não queria deixar passar este marco pessoal. Além disso, queria quebrar um bocado o hábito deste blog de ter posts mais informativos e começar a escrever um bocado mais sobre a minha experiência e sobre... cenas. Não vou entrar em detalhes da minha vida pessoal, mas dar um toque mais pessoal ao blog não calhava nada mal. Portanto, aqui fica.