on quinta-feira, 24 de julho de 2014
Há alguns dias atrás mostraram-me um vídeo chamado "Break Free", que retrata a transição de uma pessoa de uma aparência feminina para masculina. O video está engraçado, mas lá para o meio mostra uma cena durante a qual a personagem começa a enfaixar o peito com ligaduras, com o objetivo de criar uma ilusão de ter um peito liso, masculino.



Esta é uma imagem que eu vejo demasiadas vezes para retratar homens transexuais. Quase todas as aparências de trans masculinidade trazem consigo uma cena onde a pessoa pega em ligaduras e se mete a enfaixar o peito, como se tal fosse o único método para criar um peito liso.



Este tipo de imagem é frequente porque, infelizmente, este ritual das ligaduras ainda faz parte da vida de um homem transexual. Se eu fosse contar a minha história em pormenor, as ligaduras também apareciam por lá. É bastante negativo que assim seja, porque usar ligaduras com este propósito é muito pouco saudável e pode causar problemas a curto, médio e/ou longo prazo.

Eu costumava usar ligaduras, e posso confirmar que é péssimo. Alguns dos problemas que encontrava incluíam:
- Dificuldade em respirar: as ligaduras não têm muita elasticidade, o que significa que não acompanham os movimentos de expansão da caixa torácica durante a respiração;
- Dificuldade em apertar corretamente as ligaduras: apesar de as ter usado durante algum tempo, nunca consegui atinar com o método certo para as apertar. Se apertava pouco elas caíam, se apertava demasiado passava o dia com imensa dificuldade em respirar e num desconforto enorme; pior ainda quando o tinha de fazer às escondidas, a meio do dia, num WC público;
- por falar em ligaduras a cair, era bastante comum as ligaduras saírem do sítio e desfazerem-se durante o dia (principalmente em dias mais movimentados, quando tinha de correr para apanhar um autocarro ou quando tinha de fazer algum tipo de atividade mais física);
- não são assim tão baratas a longo prazo: as ligaduras que eu usava custavam cerca de €2.5, o que parece pouco, mas quando tinha de comprar umas novas a cada duas semanas, acabava por me ficar caro caso as usasse durante um ano (2.5*2*12 = 60 euros/ano);
- paranóia constante: quando usava ligaduras estava constantemente a verificar se ainda estavam no sítio, se nenhum dos ganchos de tinha soltado ou se não se notavam debaixo da camisola;
- irritação da pele: principalmente de lado, abaixo das axilas, à mistura com suor, o material das ligaduras não era muito amigável para a pele.

Além disto, as ligaduras podem causar hematomas ou, em casos extremos, costelas partidas. Portanto, a lição a tirar daqui é: não usar ligaduras para enfaixar o peito.

Felizmente, existem alternativas. Existem vários métodos que também são eficazes para criar a ilusão de um peito liso. Não existe um único método que funcione bem com toda a gente; dependendo do tamanho do peito e da estrutura corporal de uma pessoa, certos métodos podem resultar melhor do que outros. 

Eu já experimentei vários métodos diferentes e acabei por me render aos chamados "binders" (não consigo encontrar uma tradução da palavra binder para o português). Binders são uma espécie de camisola de compressão, inicialmente foram concebidos para esconder as mamas de homens cissexuais que sofrem de ginecomastia (uma condição que leva ao crescimento de mamas em homens cis), mas rapidamente a população trans começou a usa-los para o mesmo fim. Normalmente, só se encontram binders à venda em lojas especializadas. Algumas marcas bastante populares entre homens trans são a Underworks (EUA), a T-Kingdom (Taiwan) e a Mansculpture (EUA). A única loja que eu conheço baseada na Europa é a Danae (Holanda), mas não conheço bem os binders dessa marca. 
Os binders costumam ser o método por excelência para criar um peito liso. Existem várias marcas, vários modelos e vários tamanhos para escolha; o único senão costuma ser o preço. 

Parecidos com os binders são as camisolas de compressão usadas por atletas de várias modalidades. Estas podem encontrar-se em mais locais e a preços mais acessíveis, mas normalmente não têm tanta capacidade de compressão como um binder. 

Além destes produtos, existem alguns métodos mais "caseiros".
Um soutien de desporto pode ajudar um bocado, havendo até quem use dois ao mesmo tempo para dar alguma compressão extra. No entanto, um soutien, mesmo de desporto, não é concebido para alisar por completo o peito. 

Também já vi pessoas a descrever métodos que usam faixas de neopreno, calções de compressão modificados ou outros métodos caseiros. E, se tudo o resto falhar, há sempre a estratégia de usar várias camadas de roupa ou roupa larga para disfarçar um bocado (óbvio que isto resulta melhor no Inverno do que no Verão).

Independentemente do método usado, é importante manter algumas coisas em mente. Por vezes, usar um destes métodos acaba por ser um jogo de forças entre o desconforto físico de comprimir o peito versus o desconforto psicológico (e também físico) de ter de lidar com a disforia. No entanto, caso isto provoque dor durante um longo período de tempo, considerem mudar o método ou mudar a forma como lidam com a compressão. Uma dor aguda costuma ser uma deixa para retirarem de imediato o que quer que seja que estejam a usar para comprimir o peito. Nós queremos aliviar a disforia, mas não compensa o esforço se acabarmos por partir uma costela ou por arranjar algum problema respiratório à custa disso.

É preciso também ter em atenção a quantidade de tempo seguido durante o qual temos o peito comprimido. Normalmente, aconselha-se a não usar qualquer um destes métodos por mais de 8 horas seguidas. Mesmo que estejamos confortáveis, o nosso corpo precisa de pausas para recuperar da compressão. Além disto, é importante saber que, a longo prazo (se usarmos estes métodos durante anos) pode ocorrer uma diminuição da elasticidade da pele nas zonas comprimidas, o que pode comprometer os resultados de uma eventual mastectomia. 

Para quem sua muito ou tem a pele particularmente sensível, pode ser uma boa ideia usar algum produto que diminua a fricção ou uma t-shirt por baixo do binder/camisola de compressão/soutiens múltiplos/etc. Nunca (nunca!) usem fita cola, mesmo que a vossa pele não seja sensível; a fita cola pode causar danos na pele, para além do desconforto enorme que causa (eu nunca hei de perceber como é que há gente que usa este método, mesmo que seja apenas durante performances de drag). 

O ponto fulcral costuma ser usar o bom senso. Se dói demasiado, parem e mudem o método. Se está demasiado desconfortável, ajustem ou façam uma pausa. Não testem os limites do vosso corpo. Nós estamos a tentar ficar confortáveis dentro da nossa própria pele, portanto seria altamente contra produtivo estar a induzir lesões que poderiam ser evitadas com relativa facilidade. 

Eu estou a planear fazer um post mais aprofundado sobre métodos para alisar o peito. Caso tenham alguma experiência, dica ou método que queiram partilhar, deixem um comentário aqui. 

on quarta-feira, 16 de julho de 2014
Wake me up when September July ends... ou a meio de Julho, já serve. A faculdade não me tem deixado escrever nada, entre exames, trabalhos e relatórios, o tempo era pouco e a paciência ainda menor. Mas entretanto continuei a acumular tópicos que gostava de abordar aqui e, agora que já me livrei da faculdade (até Setembro, vá), já consigo voltar a escrever alguma coisa de jeito. 

Deixem-me falar um bocado sobre "disforia". Muitas vezes oiço falar das pessoas transexuais como "pessoas que sofrem de disforia de género"; "disforia de género" é também o nome que dão às pessoas transexuais na versão mais recente do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM - um manual de diagnóstico elaborado pela American Psychiatric Association (APA)), vindo substituir o que antes chamavam de "Gender Identity Disorder" (Perturbação de Identidade de Género). 

Em termos básicos, disforia de género é um desconforto e/ou descontentamento com o género que nos foi atribuído à nascença. É aquilo a que normalmente se refere quando dizemos que as pessoas transexuais "sentem-se mal" com o seu corpo ou com o seu papel na sociedade. Esse "mal estar" é a base da disforia. O conceito é bastante simples, mas mesmo assim ainda vejo por aí muita desinformação a ser espalhada em relação a este tópico.

A ideia (errada) mais comum que costumo encontrar é a ideia de que disforia de género significa que uma pessoa odeia o seu corpo. Enquanto que é verdade que a disforia pode levar a sentimentos de ódio em relação à nossa própria pessoa, esses sentimentos não são o que define disforia, nem estão sempre presentes nas pessoas disfóricas. A disforia pode manifestar-se de diversas formas: pode ser um desconforto físico ou psicológico, pode ser uma sensação de desconexão com o nosso corpo (sentir que o nosso corpo não nos pertence, não nos identificarmos com a nossa imagem num espelho, uma sensação um bocado abstrata de "o meu corpo não devia ser bem assim"), pode manifestar-se como uma depressão, ansiedade, angústia, tristeza ou descontentamento geral com as características sexuais primárias e/ou secundárias do nosso corpo. Tudo isto pode levar, eventualmente, a sentimentos auto depreciativos, ao tal "ódio" ao nosso próprio corpo; mas nem sempre tal acontece, e acho errado estar a espalhar esta ideia uma vez que muita gente não se identifica com ela.

Eu já cheguei a ouvir pessoas a descrever imensos sintomas de disforia, mas a chegar ao fim e dizer "mas eu não tenho disforia, não odeio o meu corpo" - eu próprio andei anos a pensar desta forma, o que foi péssimo pois foi algo que me permitiu continuar em negação em relação à minha própria identidade como pessoa transexual. "Como não tenho um ódio de morte do meu corpo, então não devo ser mesmo trans", era disto que eu me tentava convencer, durante anos, até chegar à conclusão que realmente não precisava de ter um ódio extremo ao meu corpo para encaixar dentro dos sintomas de disforia de género e para beneficiar de uma transição.

A disforia acaba por ser o que motiva as pessoas transexuais a iniciar a transição - aliás, a transição pode até ser definida como um conjunto de modificações que uma pessoa faz para aliviar a disforia de género. É importante referir que, porque nem toda a gente experiencia a disforia da mesma forma nem com o mesmo grau, então logicamente se conclui que nem toda a gente segue a mesma linha durante a sua transição. 

De vez em quando deparo-me com pessoas que rejeitam por completo a noção de "disforia de género" porque sentem que é um termo usado para patologizar as pessoas transexuais. "Disfórica é a sociedade", "disfóricos são os médicos", são coisas que já vi por aí e que pretendem transmitir a ideia de que a sociedade é que está errada em relação à noção de transexualidade, às pessoas transexuais e às questões de identidade de género no geral. Pessoalmente, estes statements incomodam-me um bocado, apesar de entender de onde surgem. É um facto que a sociedade atual não vê com bons olhos as pessoas transexuais (nem qualquer pessoa que fuja um bocado das normas de género) e que é preciso ainda imenso trabalho para que sejamos totalmente aceites e vistos como seres humanos completos e merecedores de dignidade. É também verdade que ainda existem inúmeros profissionais de saúde que teimam em rotular-nos de doentes mentais. Mas pegar nisso e invalidar todo o conceito de "disforia de género", como se fosse algo que existisse apenas devido a fatores externos à pessoa transexual, parece-me um abuso.

Dizer que "disfórica é a sociedade" incomoda-me porque parece estar a implicar que a minha experiência, a minha relação com o meu género, o meu corpo e a minha identidade, tudo isso é inválido porque, pelos vistos, eu não tenho disforia, a sociedade é que tem. Como se, se eu vivesse num contexto social diferente (por exemplo, numa sociedade hipotética onde o conceito de género não existisse), deixasse subitamente de ter disforia. Como se, se eu conseguisse abstrair-me dos conceitos de género que a sociedade me impõe, deixaria de ter disforia e não teria de me dar ao trabalho de fazer a transição. Tudo isto começa a soar perigosamente próximo dos argumentos transfóbicos que dizem que as pessoas transexuais deveriam apenas aprender a aceitar o seu corpo e que, portanto, a transição é inútil. E isto não sou eu a pensar demais numa expressão supostamente inócua, já não é a primeira vez que vejo este tipo de ideia associado a outras ideias como "um homem pode ter uma vagina e mamas" (eu não discordo desta ideia, atenção) e até já vi pessoas a pegar nisto e a fazer umas acrobacias argumentativas estranhas e chegar à conclusão que a disforia é, no fundo, uma forma de cissexismo e transfobia internalizada. Porque, ao querer aproximar o meu corpo de um corpo "normativamente masculino", estou na realidade a reforçar a ideia sexista de que "um homem tem de ser assim e uma mulher tem de ser assado" (eu gostava mesmo de estar a inventar isto, mas não estou). 

Eu sou todo a favor de desconstruir o binarismo de género que a sociedade força em cima de nós, mas gostava que o fizessem de uma forma que não invalidasse as experiências das pessoas transexuais. Eu tenho a certeza que, mesmo se/quando a noção de género for desconstruída, as pessoas transexuais e com disforia vão continuar a existir; talvez lhe dêem um nome diferente, talvez não lhe atribuam qualquer conotação de género, mas o fenómeno que hoje, nesta sociedade, chamamos de "disforia de género" irá continuar a existir. Eu digo isto tendo como base apenas a minha experiência pessoal (que vale apenas o que vale...); eu muito antes de saber o que era uma pessoa transexual, muito antes de "disforia" ter entrado no meu vocabulário, eu já me sentia disfórico. E, hoje em dia, mesmo após ter passado anos a tentar negar a minha própria disforia, mesmo depois de andar a tentar convencer-me que não era real, que conseguia convencer-me a mim próprio que conseguia viver como "um homem com vagina e mamas" e ser feliz assim... mesmo depois de tudo isto, um facto é que "disforia" continua a descrever bem o que eu sinto em relação ao meu género. 

Eu gostava de ver a palavra "disforia" a ser melhor aceite, estar a estigmatiza-la (ainda mais do que ela já é) e a tentar apaga-la não ajuda nada, na minha opinião. 
on sábado, 10 de maio de 2014
Eu nunca fui pessoa de ligar muito ao Festival Eurovisão da Canção. Música pop (e uso uma definição muito abrangente de "pop"), nacionalismo e concursos de popularidade entre países nunca me foram muito apelativos. Já ouvi várias teorias sobre o festival estar bastante ligado à população LGBT, embora nunca tenha entendido bem porquê - sempre pensei que fosse por existir aquele estereótipo de os gays gostarem de divas pop ou algo assim. 

Este ano o festival chamou-me um bocado a atenção por causa da concorrente Austríaca, Conchita Wurst ou, como já ouvi várias vezes, "aquela mulher com barba". E soube hoje que, pelos vistos, foi precisamente essa mulher barbuda que ganhou o concurso este ano. 

Já desde a primeira vez que ouvi falar da concorrente fiquei com um misto de apreensão e entusiasmo. Por um lado, é bom ver pessoas a quebrar visivelmente normas de género num evento tão grande como a Eurovisão. Por outro lado, fiquei com medo de ver como é que os meios de comunicação social iam lidar com esta pessoa e, pior ainda numa vertente mais pessoal, fiquei com medo de voltar a ver amigos e conhecidos a dizer tretas transfóbicas, piadas sobre "travecas" e coisas do género (uma espécie de sequela das tretas que vi a propósito do concorrente transexual da última edição da casa dos segredos). Ver pessoas com quem lido diariamente a dizer barbaridades transfóbicas afeta-me mais do que aquilo que eu gosto de admitir. 

De qualquer forma, não pude ficar indiferente a toda esta situação, ainda mais agora que, sendo a vencedora do concurso, a Conchita vai atrair imensa atenção dos media. E, como eu não confio nos media, fui eu próprio tentar perceber quem é esta pessoa, Conchita Wurst, a mulher barbuda que ganhou o Festival Eurovisão da Canção.

Uma pesquisa rápida no google informou-me que o nome desta pessoa é Thomas Neuwirth, sendo a Conchita apenas um "stage name", o nome da sua performance de drag. Para quem não está familiarizado com o termo, "drag" refere-se a uma arte de performance, normalmente com música e/ou dança, durante a qual uma pessoa se veste e apresenta como uma versão exagerada do sexo oposto. Drag pode ser considerado uma forma de travestismo associado à arte e ao espetáculo. 

Apesar desta informação estar disponível facilmente, continuo a reparar que imensa gente ainda não percebe bem se Conchita é uma pessoa "real", se é uma personagem, se aquela pessoa é um homem, uma mulher, um travesti ou uma pessoa transexual. Muitas pessoas parecem achar que esta pessoa é um travesti e uma mulher transexual (sim, ambos...), o que está apenas parcialmente correto.

Para quem ainda tem dúvidas e, como eu, não confia nos media nem na wikipedia, nada melhor do que ouvir a própria pessoa a explicar a sua identidade. Fui procurar vídeos de entrevistas para tentar esclarecer este assunto definitivamente, e foi isto que encontrei...

Nesta entrevista, parece dar a entender que a Conchita é uma "persona" que o cantor inventou por volta de 2007 quando estava a tentar entrar no show bussiness, mas fora do palco é apenas "the lazy Tom". Aqui, menciona ter "criado" a mulher com barba com o objetivo de mostrar ao mundo que podemos ser o que quisermos, independentemente da cor de pele, nacionalidade, etc. A certa altura menciona também ser um "drag artist". 

Encontrei também uma entrevista durante a qual parece mencionar que se identifica não como homem ou mulher, mas como algo algures no meio: "there are people out there who are in between, you know?" e faz uma analogia onde se coloca no meio entre o masculino e o feminino.

As dúvidas dissipam-se totalmente quando, perguntado diretamente se a Conchita é uma expressão artística ou uma identidade de género, a resposta é "I's more of an artistic expression, and sometimes people confuse it with being a transgender person and it's definitely not. I'm a drag artist, I'm not a transgender person", sendo a Conchita um outlet que Thomas encontrou para se exprimir artisticamente. 

Recapitulando: a Conchita Wurst é a personagem inventada por Thomas Neuwirth para usar durante as suas performances de drag. Thomas não se considera transgénero e usa apenas a sua persona feminina em palco. 

A razão pela qual andei a vasculhar pelo youtube por estas entrevistas e a compilar alguma informação sobre o assunto aqui é porque gostava que as pessoas entendessem que esta pessoa, Conchita Wurst, não é transexual e, portanto, não representa a população transexual. 

Por favor, não usem esta pessoa para perpetuar as ideias erradas sobre a população transexual ser toda andrógina, confusa e excêntrica. Não que eu ache que exista nada de mal nas pessoas (trans ou cis) que são androginas ou excêntricas (seria um enorme self-hating hipócrita se o fizesse, ah), mas em casos destes é extremamente fácil as pessoas ficarem com a ideia errada e caírem no erro de começar a associar este tipo de excentricidade à população transexual. 

Espero com isto não ser mal interpretado. Como disse no início, acho ótimo começar a haver mais representação de pessoas que não se conformam com as normas de género. Enquanto estava a ver as entrevistas, não conseguia deixar de sentir uma admiração enorme pela Conchita, pela forma como ela se apresentava, pelas suas atitudes e pela mensagem de tolerância que transmitia. Acho ótimo uma pessoa como ela estar a ter toda esta atenção mediática porque parece-me que é uma pessoa bastante humilde, inteligente e "down to earth", uma ótima embaixadora pela tolerência e pela diversidade. 

O meu problema não é com a Conchita, mas sim com os meios e comunicação social e com a forma como estes distorcem a personagem e a pessoa por trás dela o que, invariavelmente, gera confusão entre a população.

Mas, enfim, a forma como a população transexual e trangénera é apresentada pelos media é daqueles temas que me deixava a escrever durante o resto da noite. Vou ter de deixar esse tema para uma outra ocasião. Antes disso deixo apenas o apelo para que, quando virem assuntos trans a aparecer nos meios de comunicação social, aceitem a informação com um grãozinho de sal. Os media são péssimos a retratar estes assuntos e, provavelmente, acabam por espalhar mais desinformação do que informação.

P.S: se estão curiosos sobre o título deste post, googlem "Dana International"
on sexta-feira, 11 de abril de 2014
Hoje vamos fazer uma pausa das definições e vamos falar da operação. Aquela cirurgia mágica e maravilhosa que resolve todos os nossos problemas e nos torna membros do sexo oposto ao que nascemos. Ou, se calhar, não será bem assim...

Desde que assumi a minha identidade como gajo, as pessoas têm tido muito mais interesse sobre o que se passa entre as minhas pernas e, sobretudo, em saber quando é que eu vou fazer a operação. Acho sempre curioso a forma como as pessoas assumem de imediato que eu vou fazer a operação, visto que a maioria me pergunta "quando" em vez de "se". Também acho curioso a forma como raramente especificam sobre que operação estão a falar e simplesmente assumem que eu sei que estão a falar sobre algum tipo de cirurgia de (re?)construção genital. É giro, por vezes, fazer-me de sonso e perguntar de volta "operação? Que operação? Não faço ideia do que é que estás a falar" - as pessoas costumam ficar embaraçadas, não querem admitir que estão a perguntar sobre os meus genitais, "sabes, tipo, a operação". Eu gosto de pensar que, por esta altura, o embaraço vem do facto de as pessoas de aperceberem que não é muito apropriado perguntar-me sobre o estado dos meus genitais. 

Portanto, para evitar mais embaraços, vamos falar da operação. 

Antes de tudo, afinal de contas que operação é essa? 
"A operação", também conhecida por "operação de mudança de sexo" (ugh), "operação aos genitais", entre vários outros nomes, pode ser qualquer tipo de cirurgia que, de alguma forma, modifique os genitais de uma pessoa para que se assemelhem (em função e/ou esteticamente) aos genitais geralmente associados ao género a que a pessoa pertence.  As mais conhecidas costumam ser a vaginoplastia (construção de uma neovagina) ou a faloplastia (construção de um neofalo). No entanto, existem diversas variantes e outros procedimentos completamente diferentes que podem ser feitos. 

Que procedimentos existem?
Existe uma série de procedimentos diferentes, cada um deles tendo as suas vantagens e desvantagens. Falar sobre as diferentes cirurgias é algo que tem pano para mangas e que, portanto, não irei abordar neste momento. O que importa tirar daqui é que não existe nenhum único procedimento cirúrgico que todas as pessoas transexuais fazem, mas sim um conjunto de opções que podem ser usadas consoante a necessidade de cada pessoa. 

Mas esses procedimentos todos servem para mudar o sexo da pessoa, certo?
Errado. A identidade da pessoa é independente de qualquer operação que tenha feito ou não. Por exemplo, se eu não tiver feito ainda nenhuma intervenção cirúrgica aos meus genitais, não é por isso que deixo de ser um homem. Nem é correto dizer que uma pessoa mudou de sexo depois de ter feito "a operação". As cirurgias são apenas uma parte (importante e essencial para algumas pessoas) do processo de transição, não são o único e definitivo momento de "mudança de sexo". Muito antes de ter uma vagina, uma mulher transsexual já era uma mulher; ela não se "torna mulher" a partir do momento que sai do bloco operatório.

Mas, [qualquer coisa sobre biologia]!
Não. Qualquer que fosse o comentário sobre biologia, provavelmente iria cair na ideia de "um homem tem de ter um pénis e uma mulher tem de ter uma vagina", quando já devia ser óbvio neste momento que nem sempre isso acontece. Antes de qualquer indicador "biológico" sexual vem a identidade da pessoa (que pode também ter uma origem biológica). Algumas pessoas nascem com características sexuais primárias fora do comum; acontece, a biologia também se engana (com mais frequência do que gostaríamos de pensar).

Então, se essas cirurgias não mudam o sexo de uma pessoa nem o definem, porque é que as pessoas as fazem?
Por várias razões, sendo a principal para aliviar a disforia. Disforia é, em termos básicos, a sensação de ter algo errado connosco, algo que não está bem com o nosso corpo e que nos baixa a qualidade de vida de forma considerável. A disforia pode manifestar-se de várias formas (desconforto médio a extremo, angústia em relação a certas partes do corpo, sensação de dissociação com o nosso corpo, mal estar generalizado, depressão, etc) e é o principal fator impulsionador para uma pessoa iniciar a transição. Uma pessoa transexual pode fazer modificações no seu corpo (entre as quais, modificações aos genitais) para aliviar a disforia e poder sentir-se melhor dentro da sua própria pele. 

Essa disforia não podia ser aliviada de outras formas? Não era mais fácil uma pessoa simplesmente aprender a aceitar-se no seu corpo "original"?
Não, essa hipótese já foi explorada no passado e já está mais que comprovado que a única solução para aliviar a disforia é aproximar o nosso corpo ao corpo "padrão" do género a que pertencemos. As tentativas de "curar" a disforia por outros meios são, na melhor das hipóteses, tentativas frustradas que não levam a lado nenhum e, na pior das hipóteses, tortura para a pessoa transexual, podendo culminar no suicídio. 

Se isso é a única solução para a disforia, então todas as pessoas transexuais fazem essas cirurgias mais tarde ou mais cedo?
Mais uma vez, não. Nem todas as pessoas modificam os seus genitais, por diversas razões. Algumas pessoas não têm acesso aos cuidados médicos necessários, outras não estão satisfeitas com os resultados das técnicas atuais, outras simplesmente sentem que não precisam desses procedimentos para aliviar a sua disforia. Como tinha mencionado anteriormente, a disforia pode-se manifestar de várias formas diferentes e, para algumas pessoas, é-lhes suficiente fazer outros procedimentos (médicos ou não) para aliviar a disforia que sentem. Isto remete para o que eu tinha dito anteriormente sobre um homem não ser definido pelo pénis nem a mulher ser definida pela vagina. Há homens que sentem que são homens completos com os genitais com que nasceram (o mesmo aplica-se às mulheres). Isto não significa que são menos homens ou mulheres, ou que são "menos transexuais", significa apenas que, aquelas pessoas em particular, não precisam de certas partes do processo para se sentirem bem. A transição não é um "tudo ou nada". Idealmente, a transição será até ao ponto em que a pessoa se sente confortável consigo mesma. 

Então, se há pessoas que sentem que não precisam, não significa isso que é possível uma pessoa aprender a viver com o seu corpo?
Não, a relação que uma pessoa tem com o seu corpo é única para cada pessoa. Não é correto pegar numa pessoa transexual (que, por acaso, sente que não precisa de nenhuma intervenção cirúrgica) e generalizar a experiência dessa pessoa para toda a população transexual. Cada pessoa é única e experiencia o seu corpo à sua maneira. A forma como cada pessoa sente a disforia e a forma como lida com isso pode ser completamente diferente de um indivíduo para outro, não sendo a experiência de uma pessoa mais ou menos válida do que a experiência de outra pessoa.

Mas muitas pessoas fazem essas cirurgias, certo? Portanto é seguro assumir que esta pessoa transexual que conheço fez ou quer fazer essas cirurgias?
Não sei dizer quantas pessoas fazem ou não essas cirurgias. Pesquisei um pouco sobre o assunto mas não encontrei nenhuma fonte sólida que me desse uma estatística sobre isto. De qualquer forma, assumir coisas sobre outras pessoas é, geralmente, uma má ideia. Além disso, o que é que interessa se essa pessoa fez ou não cirurgias? E porque é que alguém tem de assumir o que quer que seja em relação aos genitais de outra pessoa? A não ser que tencionem meter-se nas calças da pessoa trasnsexual, o que ela tem dentro dessas calças não é do interesse de ninguém. A mim, pessoalmente, incomoda-me quando as pessoas me perguntam sobre os meus genitais não só porque é uma pergunta bastante invasiva (por vezes feita por pessoas que não têm confiança suficiente comigo para estar a fazer este tipo de perguntas) mas também porque incomoda-me ver que essas pessoas reduzem a legitimidade da minha identidade de género à "operação". Mesmo que não o façam explicitamente, acabam por reforçar a ideia de que "mudar de sexo" é sinónimo de "fazer a operação". Existem tantas outras facetas, tantos outros passos, tantas outras pequenas grandes conquistas durante o processo, que estar a ver tudo isso a ser colapsado numa única operação mete-me um bocado de comichão. 

Mas eu tenho curiosidade!
É normal uma pessoa ter curiosidade em relação a assuntos que desconhece. No entanto, essa curiosidade não justifica uma invasão da privacidade de uma pessoa transexual. Se fosse outra pessoa qualquer, seria legítimo perguntar-lhe sobre os seus genitais? Seria adequado perguntar a um homem que perdeu o seu pénis num acidente, ou a uma mulher com um defeito congénito qualquer na vulva (por exemplo) sobre como é que essas pessoas se sentem em relação aos seus genitais? Seria adequado perguntar-lhes sobre que cirurgias ou tratamentos médicos é que essas pessoas fizeram ou pretendem fazer? Não, isso seria uma invasão enorme da privacidade dessas pessoas. Estar a perguntar sobre "a operação" é uma transgressão do espaço pessoal de uma pessoa transexual. Além disso, muitas pessoas transexuais não gostam de falar sobre os seus genitais porque isso lhes pode desencadear emoções extremamente negativas e, como se não bastasse ter de lidar com a disforia, podem ainda sentir que a sua identidade está a ser posta em causa e que nunca irão ser vistos como um homem/mulher "a sério" até terem feito "a operação". 

Recapitulando: as cirurgias aos genitais não são o único momento no processo de transição. Essas cirurgias podem ser (e são, em muitos casos) essenciais e importantíssimas para uma pessoa, mas não são o que define ou legitima a identidade de género da pessoa. Há pessoas que não fazem essas cirurgias, e as que fazem fazem-nas para aliviar a sua disforia e aumentar a sua qualidade de vida (podendo nunca conseguir ser pessoas felizes sem estes procedimentos).

Ficaram aqui algumas questões sobre este assunto, espero eu, esclarecidas. Caso tenham mais perguntas, estejam à vontade para deixa-las nos comentários (já agora, uma pergunta bónus: "quando é que posso fazer perguntas sobre as operações?" Quando a pessoa vos dá autorização expressa para o fazerem!)
on domingo, 2 de março de 2014
Andei às voltas com este texto durante algum tempo até que cheguei à conclusão que nunca ia conseguir ficar satisfeito com o que escrevi. Tentar definir transgenerismo é uma tarefa bastante ingrata visto que transgenerismo pode ser interpretado de tantas formas que acho que dava para escrever uma tese de mestrado só sobre isto. 

Quanto mais tento aprender sobre o assunto, mais me apercebo que é impossível chegar a um consenso sobre o que é ou não transgenerismo. É daqueles rótulos que tem tantas dimensões que se torna complicadíssimo defini-lo sem fazer asneira - sinto que, por muito que tente, vou sempre falhar e dar uma definição que não reflita a realidade e que potencialmente ofenda alguém (seja por dizer mesmo asneira, seja por omissão, seja por má interpretação, etc). Portanto, quero começar este texto por dizer que o que está aqui escrito provavelmente terá falhas e estará incompleto em vários sentidos. Este texto é suposto ser um texto introdutório e bastante simplificado sobre tranegenerismo - uma espécie de "Transgenerismo para Totós", escrito por um totó. Mas eu vou tentar fazer o meu melhor. 

Pegando na palavra "transgenerismo" podemos ver logo duas componentes: a parte do "trans" e a parte do género. Já ouvi pessoas a dizer que "trans" significa "transgressão" - sendo o transgenerismo uma "transgressão de género". Vamos tentar pegar por aí.

Como já mencionei no meu post anterior, existem papéis de género que são atribuídos a uma pessoa, caso esta seja homem ou mulher. Qualquer "fuga" a esses papéis pode ser vista como uma transgressão das normas sociais onde a pessoa está inserida e costuma ser, consoante a "gravidade" da transgressão, punida pela sociedade. Um exemplo fácil disto é um homem sair à rua a usar um vestido. Qualquer pessoa que o veja na rua vê que ele está, claramente, a quebrar uma convenção social (isto é, normalmente, acompanhado por olhares de desprezo, insultos verbais ou até mesmo agressões físicas). Pode-se então dizer que este homem está a ter um comportamento transgénero - está a transgredir o papel masculino que lhe foi atribuído. 

Isto dito assim parece simples, mas vamos analisar outros exemplos:
- um homem a usar base (maquilhagem);
- uma mulher a usar calças de ganga;
- um homem a usar uma camisa;
- uma mulher a usar uma saia;
- uma mulher a trabalhar na construção civil;
- um homem a ficar em casa a tomar conta dos filhos;
- uma mulher a pintar as unhas;
- um homem a trabalhar num cabeleireiro;
- uma mulher a ler uma revista de automóveis;

Quantas destes exemplos são exemplos de transgenerismo? Qual é o "grau" de transgenerismo de cada exemplo? Se isto se passasse nos anos 20, será que as respostas a estas perguntas seriam as mesmas? Provavelmente não. Uma mulher a usar calças de ganga hoje em dia não é considerado um comportamento transgénero, mas há algumas décadas atrás seria. O mesmo se passa com homens que usam maquilhagem leve, o que é algo que tem vindo a ganhar mais aceitação social e se está a tornar "menos transgénero" com o tempo.

Serve este exercício para mostrar que a noção de transgenerismo pode ser bastante subjetiva e mutável ao longo do tempo (ou até do espaço, se formos explorar outros contextos sociais fora do contexto europeu ocidental).

Existem pessoas que, por terem este tipo de comportamento que, de alguma forma, quebra as normas de género, se consideram pessoas transgéneras - pessoas que transgridem as normas do seu género. Aqui podemos falar não só de comportamentos transgéneros mas também de identidades transgéneras. Essas pessoas podem sentir que as normas de género não "lhes encaixam" e que, portanto, se sentem mais confortáveis assumindo uma expressão e identidade que quebre com essas regras que consideram restritivas à sua expressão individual. Estas pessoas são homens ou mulheres que não encaixam na definição de transexualidade que dei no post anterior - ou seja, homens ou mulheres aos quais foi atribuido o género masculino ou feminino (respetivamente) à nascença mas que rejeitam firmemente os papéis de género que lhes foram atribuídos. 

Quero agora também chamar à atenção para o facto de, da mesma forma que uma pessoa pode ser transgénera mas não transexual, uma pessoa pode ser transexual mas não transgénera. Por exemplo, um homem a quem foi atribuido o género feminino à nascença (ou seja, um homem transexual) e que se sinta bem com os papéis de género masculinos pode considerar-se transexual mas não transgénero, visto que ele não sente que transgride as normas de género masculinas. E, só para não deixar esta ponta solta, é também possível uma pessoa ser simultaneamente transexual e trangénera.

Vamos agora tentar pegar na palavra transgénero por outro ângulo: desta vez, "trans" pode ser diminutivo de "transcende". Transgenerismo neste caso é algo que transcende, que vai além das noções de homem ou mulher. Isto abre portas à noção de existirem identidades de género que não sejam masculino ou feminino. Ou seja, identidades de género não binárias.

O binarismo de género é uma ideia impregnada no nosso tecido social que nos diz que existem apenas dois géneros que são completamente diferentes e mutuamente exclusivos: o género feminino e o género masculino. No entanto, esta ideia tem sido cada vez mais desafiada e contestada por pessoas que sentem que não são homens nem mulheres - são outro género diferente. Este género pode ser uma mistura de homem ou mulher ou algo que não pode ser classificado de acordo com estes dois referenciais. Há até pessoas que sentem que o seu género "flutua" entre o feminino e o masculino (ou por locais completamente fora deste binário). 

Estas pessoas podem ter expressões de género tão variadas como pessoas que "encaixam" no binário - ou seja, uma pessoa pode pertencer a um género não binário mas apresentar-se como uma mulher (por exemplo). Isto acontece muitas vezes uma vez que a nossa sociedade não consegue ainda acomodar devidamente indivíduos que não sejam homens ou mulheres, forçando-os à invisibilidade. Ou então podem ter uma expressão de género "binária" porque se sentem confortáveis dessa forma - o que eu disse sobre "expressão não equivale a identidade" aplica-se aqui também. 

Por vezes, essas pessoas sentem necessidade de modificar o seu corpo para que este reflicta o seu género, podendo recorrer aos mesmos procedimentos (ou semelhantes) usados pelos homens e mulheres transexuais. Também é possível que pessoas não binárias se sintam confortáveis no seu corpo e não sintam qualquer necessidade de o mudar. 

Existem várias tentativas de atribuir nomes aos géneros não binários. O termo "genderqueer" é comummente usado como um termo genérico para géneros não binários (sendo por vezes usado como sinónimo de transgenerismo). Existem também outros rótulos como bigénero (alguém com dois géneros), género-fluido (alguém cujo género não é estático), agénero (alguém que sente não ter qualquer identidade de género), etc etc etc. Um dia hei de fazer uma lista mais ou menos exaustiva dos rótulos usados para definir géneros não binários, mas hoje não é esse dia. 

O que interessa entender aqui é o seguinte: o binarismo de género é um sistema imperfeito que nos ensinam e que não se aplica a todas as pessoas. Algumas pessoas não se sentem homens nem mulheres, mas sim outro género para o qual não existe um rótulo bem definido (ou sentem que não têm nenhum género). Como tal, o rótulo "transgénero" pode aplicar-se a estas pessoas, visto que são pessoas cujo género vai além dos géneros "convencionais" e aceites pela sociedade. 

É mais ou menos isto. Ficou muita coisa por dizer, mas não conseguia encaixar tudo num único post sem que este ficasse demasiado grande e desorganizado. Existe uma série de pormenores e conceitos que eu espero vir a desenvolver mais tarde, mas para já fico-me por esta versão simplificada do assunto. 
on quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
Há alguns dias recebi um comentário a perguntar qual era a diferença entre transexualidade e transgenerismo. Esta pergunta vai ser respondida por partes. 

Vou começar por tentar definir "transexualidade". Existem várias formas de definir uma pessoa transexual, mas a minha definição favorita é a seguinte: 
uma pessoa transexual é uma pessoa cuja identidade de género não corresponde ao género que lhe foi atribuído a nascença.

É uma definição bastante simples, mas vamos tentar entende-la mais a fundo.

O que é isso de "género atribuído a nascença"? 
Quando nascemos, uma das primeiras coisas que os médicos fazem é olhar para os nossos genitais e, com base nessa observação, declaram-nos "menino" ou "menina", caso observem um pénis ou uma vulva, respetivamente. Ou seja, é-nos atribuído um género à nascença com base na aparência dos nossos genitais. 


Esse género que nos é atribuído carrega com ele toda uma bagagem social, espectativas de comportamento, gostos pessoais, estilos de roupa, aparência, etc. Toda esta "bagagem" pode ser referida colectivamente como "papéis de género". Eu hei de abordar o tema dos papéis de género num futuro post aqui mas, para já, quero apenas deixar claro que os papéis de género são algo artificial e definido pela sociedade e que, portanto, pouco ou nada têm a ver com o género atribuído a nascença ou com a nossa identidade de género.


Falemos agora da identidade de género. Isto é algo mais difícil de definir. Tal como o nome implica, a identidade de género diz respeito à nossa identidade, à forma como nos vemos a nós mesmos e como nos vemos em relação ao ambiente em que estamos inseridos. Ou seja, é um conceito bastante abstracto e pessoal. É aquela sensação de "ser" homem ou mulher (ou outra coisa qualquer). O que é que significa ser homem ou mulher? Não sei. Há inúmeras formas de ser homem ou mulher, assim como ha inúmeras formas de ser tímido,  simpático, curioso, trapalhão, paciente ou outra característica qualquer que define a nossa identidade. Posso é dizer o que é que não define um homem ou uma mulher: não os nossos genitais, não são os pêlos que temos ou não nas pernas, não é o nosso gosto por vestidos ou calças, não são as nossas escolhas profissionais, não é a nossa orientação sexual, não são os nossos hobbies... Resumidamente: a nossa identidade de género não é definida pelos papéis de género nem pela nossa aparência.

A nossa identidade de género é definida por nós mesmos. Somos apenas nós que sabemos quem somos e como nos sentimos e, portanto, somos apenas nós que temos legitimidade para nos definirmos.


Recapitulando: todos nós somos classificados como homem ou mulher à nascença de acordo com os nossos genitais. Entretanto, podemos descobrir que a nossa identidade difere da que nos foi imposta à nascença. 

Ou não, podemos crescer satisfeitos com o género que nos foi atibuido. Essas pessoas sortudas cuja identidade de género alinha com o género que lhes foi atribuído, chamam-se "cissexuais" (ou cisgéneros, as duas palavras costumam usar-se como sinónimos). Por exemplo, uma pessoa que foi declarada "menino" à nascença e que se identifica como homem é uma pessoa cisgénera.

Por outro lado, temos as pessoas cuja identidade de género é diferente do género que lhes foi atribuído. Essas são as pessoas transexuais.

É tao simples quanto isto.

Existe uma outra dimensão que não tenho bem a certeza se deva incluir na definição de transexual, mas vou menciona-la na mesma porque pode ser útil mais tarde quando tentar distinguir as noções de transexualidade transgenerismo. Uma pessoa transexual é, de acordo com algumas pessoas, uma pessoa cuja identidade de género não corresponde ao género que lhes foi atribuído e que expressam vontade de modificar o seu corpo de acordo com o género a que pertencem. Ou seja, alem do que eu já expliquei anteriormente, acrescenta-se aqui o critério da "transição"- considera-se então aqui que uma pessoa transexual quer fazer algum tipo de transição física (note-se que eu escrevi "quer" e não "faz"; existem pessoas que querem transicionar mas, por diversas razões, estão impossibilitadas de o fazer).

Isto é o básico dos básicos. É uma tentativa de reduzir as pessoas transexuais a um denominador comum. Mais tarde vou desenvolver melhor algumas das noções introduzidas neste texto mas, para já, fico-me por aqui.
on sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014
Olá, pessoas. Sejam bem vindas ao meu blog. Eu sou um gajo, que por acaso é trans, e estou aqui para falar de cenas (provavelmente sobre cenas trans e cenas que a mim, como pessoa trans, me fazem pensar, refletir ou ressabiar). 

Mas o que é isso de ser "trans"? Neste contexto, "trans" serve de diminutivo de transexual e transgénero (e quero chamar a atenção para o facto de "transexual" e "transgénero" não serem sinónimos!). Criei este blog porque tenho uma série de cenas, pensamentos, opiniões, etc, que gostava de partilhar e de deixar por aí para que alguém as leia. Quero também começar a tentar preencher um vácuo que tenho vindo a notar que existe há demasiado tempo: textos sobre cenas trans. A transexualidade e o transgenerismo são assuntos muito pouco divulgados e, portanto, muito pouco conhecidos. Provavelmente, uma pessoa só entra em contacto com estes assuntos quando aparece um concorrente na casa dos segredos que diz que "mudou de sexo o ano passado" ou quando ouve falar desta ou aquela pessoa que foi espancada na rua - provavelmente por ser "um homem a usar saias" ou até mesmo "uma prostituta travesti". 

As pessoas trans são quase invisíveis e, nas poucas ocasiões em que são visíveis, estão muito mal representadas. Já me começo a fartar de ver séries de comédia a usar mulheres trans como punchlines de piadas sexistas e (trans)misóginas, ou profissionais de saúde a dizer que todas as pessoas trans odeiam de morte o seu corpo, ou blogs que aparentam ser bem intencionados mas escritos por putos do secundário durante Área de Projeto que não entendem nada sobre realidades trans. E estou farto de ver pessoas trans completamente à deriva, sem saber que opções têm, sem saber para onde se dirigir, à espera durante meses por um médico de família que os ignora por completo e que depois tenta força-los para consultas de psiquiatria, ou que decidem fazer uma transição sem acompanhamento médico por se sentirem marginalizados pelos mesmos médicos que nos deviam ajudar (entre várias outras situações espatafúrdias). 

Portanto, é minha intenção, com este blog, escrever o que me vai na alma e tentar, pelo caminho, talvez mudar uma ou duas mentalidades. Quero desde já dizer que o que se encontra neste blog é a minha, e apenas minha, opinião. Eu não represento mais nenhuma pessoa, além de mim próprio. Eu não falo pela "comunidade" transexual ou transgénera. As minhas opiniões e experiências não refletem as opiniões e experiências de outras pessoas trans. O que eu escrever aqui poderá muitas vezes estar em conflito com as opiniões ou experiências de outras pessoas trans. Fica aqui o disclaimer.

Caso tenham alguma pergunta ou assunto que gostariam de ver abordado (que esteja relacionado com assuntos trans), sintam-se à vontade para me deixar um comentário. 

Dito isto, sejam todxs bem vindxs ao meu blog. Enjoy your stay.